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08/05/2007

Um fã do modo americano assume as rédeas na França

The New York Times
Elaine Sciolino

Em Paris
Dois dias antes do primeiro turno da eleição presidencial no mês passado, Nicolas Sarkozy vestia uma camisa vermelha xadrez, jeans e botas de caubói. Estava montado em um pequeno cavalo branco chamado Universo e cavalgou nos arredores de Camargue, no sul da França. Um aglomerado de repórteres e câmeras o seguiu em um carro puxado por um trator. Os touros pretos no pasto próximo permaneceram distantes.

"Uma vaga semelhança com George W. Bush em seu rancho no Texas" é como o jornal esquerdista "Libération" descreveu Sarkozy, que foi eleito presidente no domingo, após derrotar a candidata socialista Ségolène Royal no segundo turno. O jornal desdenhou o evento como uma jogada de marketing, dizendo: "Tudo pela imagem, até o último minuto".

Sarkozy é assumidamente pró-americano, um homem que proclama abertamente seu amor por Ernest Hemingway, Steve McQueen e Sylvester Stallone, assim como sua admiração pela forte ética de trabalho americana e sua crença na mobilidade social para o alto.

O último filme que fez Sarkozy chorar foi "A Última Noite" de Robert Altman. Ele certa vez disse que queria "I Will Survive" de Gloria Gaynor como sua canção da vitória. Ele se diz "orgulhoso" do rótulo "Sarkozy, o Americano".

Em seu discurso da vitória na noite de domingo, Sarkozy estendeu a mão aos Estados Unidos, sinalizando seu desejo de colocar um fim à tensão que existiu com Washington durante a presidência de Chirac.

Se dirigindo aos seus "amigos americanos", Sarkozy disse: "Eu quero lhes dizer que a França sempre estará ao lado de vocês quando precisarem dela, mas que a amizade também envolve aceitar o fato de que amigos podem pensar de forma diferente".

Ele estava tão satisfeito com a mensagem que disse a um amigo americano pouco antes do discurso: "Eu vou falar sobre a América!"

Uma sensação de alívio deve ter sido sentida na Casa Branca no domingo com o fato de Bush não ter precisado telefonar para Royal para parabenizá-la. Afinal, ela disse durante a campanha que nunca se curvaria perante Bush da forma como sugeriu que seu adversário fez. Ela tentou rotular Sarkozy como um imitador do que chamou de falso conservadorismo compassivo de Bush. Ela até mesmo disse a um legislador do Hizbollah no Líbano, em dezembro passado, que concordava com ele quando falou sobre a "demência ilimitada" do governo Bush.

Em vez disso, com a partida iminente do primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, Bush pôde congratular o homem que poderá muito bem se tornar seu novo melhor amigo na Europa.

"Eles tiveram uma conversa amistosa, bastante amistosa", disse David Martinon, o chefe de gabinete de Sarkozy, em uma entrevista por telefone. "Sarkozy deseja melhorar o relacionamento com os Estados Unidos, renová-lo. Há uma necessidade de mudança. Deve haver uma forma de restaurar a confiança."

Sarkozy é o tipo de sujeito que Bush gosta: impetuoso, que fala duro e tem orgulho disto. A promessa de Sarkozy de livrar os problemáticos subúrbios da França dos jovens delinqüentes -"escória", como os chamou - é o equivalente francês ao desafio de Bush para "que venham".

Ambos são abstêmios de álcool. Ambos se exercitam de forma disciplinada: Sarkozy gosta de correr, mas como Bush, também é um temível ciclista.

Em Washington, a vitória de Sarkozy foi calorosamente bem-vinda. "Nós certamente aguardamos pela cooperação com os franceses", disse Tony Snow, o secretário de imprensa da Casa Branca, na segunda-feira: "Nós sabemos que haverá áreas em que discordaremos. Mas por outro lado, há certamente oportunidades reais de trabalharmos juntos em uma ampla série de questões".

Os dois presidentes se encontrarão em Berlim no próximo mês, na reunião do G-8 - o encontro de cúpula dos países industrializados - e Sarkozy deverá visitar os Estados Unidos para a abertura da Assembléia Geral da ONU, em setembro.

O senador Charles E. Schumer, democrata de Nova York, disse à "CNN" no domingo: "Será bom ter alguém no comando da França que não tenha uma reação automática contrária aos Estados Unidos".

No mesmo programa, o senador Richard G. Lugar, republicano de Indiana, disse que Sarkozy seria "favorável aos Estados Unidos", acrescentando: "Claramente, as posições dele estão mais de acordo com as nossas".

Enquanto isso, Newt Gingrich, o ex-presidente da Câmara, elogiava Sarkozy no programa "Face the Nation" da "CBS News" no domingo, como "o candidato da mudança".

Certamente, Sarkozy prometeu nunca se comportar da forma "arrogante" como ele disse que o atual governo francês se comportou, ao fazer ameaças contra os Estados Unidos no prelúdio da guerra no Iraque. "Vocês devem ter nos odiado naquele momento", ele disse em um discurso em Washington em setembro passado.

Apesar de ter um ar belicoso, ele nunca sugeriu que se fosse presidente na época ele teria enviado soldados franceses para lutar na invasão liderada pelos americanos. "Eu estive em todas as reuniões sobre o assunto nas quais esteve Sarkozy e não, ele nunca teria enviado tropas", disse Martinon, que também atua como conselheiro de política externa de Sarkozy.

De fato, Sarkozy há muito defende a decisão da França de não se envolver na guerra, citando as lições amargas da torturante história de seu país na Argélia e no Vietnã.

"Nós fomos chutados para fora da Argélia há menos de cinqüenta anos, então não nos digam que não nos lembramos e que não entendemos", disse Sarkozy para uma platéia na Universidade de Colúmbia, em 2004, ao explicar a decisão da França de ficar de fora da guerra no Iraque. "Nós vivemos o que vocês estão vivendo na América. Nós estivemos no Vietnã antes de vocês e nossos jovens morreram no Vietnã."

Ele acrescentou: "Na França, história é algo que conta. Por favor, não fiquem bravos conosco porque nos lembramos do que aconteceu conosco. Existe algum país no mundo, em qualquer momento da história, que foi capaz de se manter de forma sustentada em um país que não era o seu, apenas pela força das armas? Nunca, nenhum, nem mesmo os chineses".

Tal análise da guerra do Iraque soa notavelmente semelhante à articulada repetidas vezes por Chirac tanto publicamente quanto durante os encontros privados com Bush. "Na Argélia, nós começamos com um exército considerável e recursos imensos, enquanto os combatentes pela independência eram apenas um punhado de pessoas, mas eles venceram", disse Chirac em uma entrevista em setembro de 2003. "É assim que é." Visite a home especial do UOL sobre as Eleições francesas George El Khouri Andolfato

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