UOL Notícias Internacional
 

14/05/2007

Satisfação espiritual é o caminho para reduzir a injustiça econômica, social, diz papa

The New York Times
Ian Fisher e Larry Rohter
Em Aparecida
Caetano Barreira / Reuters
Bispos ouvem discurso papal em Aparecida
ESPECIAL BENTO 16 NO BRASIL
O papa Bento 16 condenou no domingo tanto o capitalismo e o marxismo como "sistemas que marginalizam Deus", em um grande discurso incitando o clero latino-americano a atender as necessidades espirituais das pessoas como uma forma de aliviar a pobreza e conter o constante declínio da Igreja Católica Romana na região.

Falando para os bispos latino-americanos aqui, em uma conferência sobre a direção da Igreja na próxima década, o papa também condenou não apenas o aborto e os anticoncepcionais, mas também as leis que os permitem. Tais leis, ele disse, estão "ameaçando o futuro dos povos".

O discurso era amplamente esperado, para saber como Bento 16 -em sua primeira visita como papa à América Latina- lidaria com as questões da
pobreza e da injustiça social, assim como dos grupos evangélicos que estão tomando fiéis do catolicismo em alguns países da região a uma taxa de 1% ao ano.

E suas respostas foram bastante consistentes com as apresentadas em sua vida anterior como Joseph Ratzinger, o cardeal conservador e contencioso que expressava uma das visões mais coerentes para a Igreja. Ele foi eleito papa há dois anos.

Como Ratzinger fez nos anos 80, reprimindo a Teologia da Libertação, que via como enfatizando incorretamente Cristo como um redentor social, o papa Bento 16 enfatizou primeiro a proclamação de Cristo como filho de Deus -apesar de muitos pobres aqui preferirem ouvir mais sobre justiça social.

"O que é real?" ele refletiu no discurso, poucas horas antes de voltar para Roma após cinco dias no Brasil, o país com maior população católica romana do mundo. "A realidade são só os bens materiais, os problemas sociais, econômicos e políticos?" Sem concordar primeiro com Deus, ele disse aos bispos, a sociedade é incapaz de lidar com os problemas da pobreza e injustiça social.

"Estruturas justas são uma condição indispensável para a uma sociedade justa", ele disse, mas elas nunca surgirão nem funcionarão "sem um senso moral da sociedade sobre valores fundamentais".

"Onde Deus está ausente -Deus com o rosto humano de Jesus Cristo- estes valores fracassam em aparecer em plena força: nem surge um consenso em torno deles", ele disse.

"Eu não quero dizer que não fiéis não podem viver uma moralidade elevada e exemplar; eu apenas digo que uma sociedade na qual Deus está ausente não encontrará o consenso necessário sobre valores morais ou força para viver segundo o modelo destes valores."

Enquanto o papa Bento retornava para casa na noite de domingo, a viagem
acrescentou uma sensação, expressada recentemente tanto por defensores quanto por críticos, de que seu papado parece estar se aproximando do molde conservador representado por Ratzinger.

Seu estilo pessoal, elogiado freqüentemente mesmo pelos críticos, permanece pastoral e gentil. Mas as posições mais contenciosas, menos visíveis publicamente quando começou a atuar como líder do mais de um bilhão de católicos do mundo, parecem estar se tornando mais proeminentes.

Na quarta-feira, no vôo de Roma ao Brasil, ele pareceu intervir em uma questão particularmente sensível para a Igreja: os políticos católicos
pró-aborto, ele sugeriu, corriam o risco de serem excomungados.

Há outros sinais de uma inclinação pública para a direita: ele deverá
aprovar em breve um maior uso da missa em latim, em grande parte engavetada há uma geração. Nos últimos meses, a Igreja na Itália se envolveu abertamente na luta contra uma lei proposta dando direitos a casais não casados, incluindo os homossexuais.

Recentemente, o papa Bento 16 falou sobre a realidade do inferno e, apesar de um debate livre sobre o assunto quando foi eleito, ele pareceu descartar firmemente quaisquer mudanças no celibato dos sacerdotes como forma de reduzir a escassez desesperada de padres em alguns locais, incluindo a América Latina.

Ao mesmo tempo, o discurso de domingo ressaltou que o papa Bento 16 permanece, como sempre, atado a nenhum conjunto de posições exceto a seu, por meio de sua interpretação às vezes imprevisível do que é melhor para a Igreja e seus seguidores.

No discurso, por exemplo, ele atacou o aborto e os métodos anticoncepcionais como prejudiciais à família, mas também pediu por creches bancadas pelo Estado como uma ajuda a ela.

Ele também atacou com igual força o marxismo e o capitalismo. Ao se
concentrarem ambos em preocupações materiais, ele disse, ambos "falsificam o conceito de realidade com a amputação da realidade fundamental e, por isso decisiva, que é Deus".

"Tanto o capitalismo como o marxismo prometeram encontrar o caminho para a criação de estruturas justas e afirmaram que estas, uma vez estabelecidas, funcionariam por si mesmas", ele disse. "E essa promessa ideológica se demonstrou falsa."

O marxismo, ele disse, deixou "deixou uma triste herança de destruições
econômicas e ecológicas". O capitalismo, ele disse, falhou em reduzir a
"distância entre pobres e ricos" e "produz uma inquietante degradação da dignidade pessoal com a droga, o álcool e sutis miragens de felicidade".

Mas, no geral, seu discurso cobriu terreno familiar para os presentes aqui -com aprovação de alguns, desaprovação de outros- que acompanharam a longa carreira de Ratzinger como teólogo e principal assessor de seu
antecessor, João Paulo 2º.

"Eu gosto do zelo dele", disse Maria da Conceição Xavier Cerqueira, uma
funcionária aposentada dos correios que estava entre os fiéis que carregavam sombrinhas para se protegerem do sol e rosários para serem benzidos na missa a céu aberto, celebrada pelo papa Bento aqui no domingo. "Ele foi um companheiro leal de João Paulo 2º, e é bom que esteja aqui para defender os valores tradicionais da Igreja Católica, que estão sendo atacados por todos os lados."

Sem mencionar especificamente a Teologia da Libertação pelo nome, o papa Bento 16, em seu discurso aos bispos, criticou os católicos que argumentam que o dever moral supremo da Igreja é denunciar e resistir à injustiça social. Como a principal autoridade do Vaticano em assuntos de doutrina e fé, ele liderou os esforços nos anos 80 para reprimir o movimento, na época bastante influente na América Latina, e no domingo alertou novamente o clero a não permitir que tais preocupações ofusquem seus deveres espirituais.

Mas alguns fiéis na missa disseram que gostariam que o papa lhes oferecesse a mesma ênfase na superação da pobreza que estão acostumados a ouvir de seus próprios bispos. Um grupo de defensores da Teologia da Libertação carregava uma faixa dizendo que a deles era "a Igreja da opção pelos pobres e excluídos", juntamente com fotos dos mártires do movimento, incluindo o arcebispo Oscar Arnulfo Romero de El Salvador, assassinado enquanto celebrava a missa em 1980, e Dorothy Stang, uma enfermeira de origem americana que foi assassinada na Amazônia brasileira em 2005.

"O Vaticano tem medo da Teologia da Libertação, mas não deveria", disse Alex Vigueras, um padre chileno que falou pelo grupo, padres, freiras e
estudantes de teologia de seis países diferentes. "A Igreja não pode recuar. Nós temos que reagir e prestar testemunho cristão, continuamente nos manifestando em prol dos pobres, dos marginalizados, dos presos, dos índios e negros, e a favor dos direitos humanos."

O Exército brasileiro estimou a multidão que ocupou o pátio ao lado da
imensa basílica daqui em 150 mil pessoas, muito menos do que o 1 milhão
previsto pela Rádio Vaticano.

Posteriormente, em seus discurso para o clero no grande templo à Virgem Maria daqui, o papa também ofereceu o que se mostrou como uma história
revisionista das origens da Igreja na América Latina.

A visão comum na região é de que os conquistadores espanhóis e portugueses, acompanhados pelo clero, impuseram o catolicismo em um processo ruinoso que deixou as populações nativas, como coloca uma frase comum, "entre a cruz e a espada".

Alguns teólogos latino-americanos modernos lamentam a destruição das
civilizações indígenas e buscaram incorporar elementos destas culturas à missa como forma de compensação. Mas, em uma declaração que provavelmente será controversa em países com grandes populações indígenas, incluindo México, Peru e Equador, Bento 16 rejeitou tais noções.

"Basicamente, a proclamação de Jesus e seu Evangelho em nenhum momento
envolveu uma alienação das culturas pré-colombianas, nem foi uma imposição de uma cultura estrangeira", ele disse. Ele acrescentou: "A utopia de voltar a dar vida às religiões pré-colombianas, as separando de Cristo e da Igreja universal, não seria um passo à frente: na verdade, seria um retrocesso" e "um recuo para um estágio na história ancorado no passado". George El Khouri Andolfato

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