UOL Notícias Internacional
 

15/05/2007

Corredor deficiente quer competir nas Olimpíadas

The New York Times
De Jere Longman

Em Manchester, Inglaterra
Quando Oscar Pistorius, da África do Sul, se agachou na linha de partida para os 200 metros, as atenções da pequena multidão se voltaram para o velocista que se auto-intitula o mais rápido homem sem pernas.

Craig Owen/The New York Times 
O 'mais rápido homem sem pernas' quer correr contra atletas com as duas pernas


Pistorius deseja ser o primeiro corredor que teve as pernas amputadas a competir nas Olimpíadas. Mas apesar do seu sucesso, ele tem enfrentado resistência do órgão mundial que controla o atletismo, que procura impedir que ele corra alegando que a tecnologia utilizada nas suas próteses pode conferir a Pistorius uma vantagem injusta sobre os corredores que possuem pernas naturais.

As suas primeiras arrancadas no último domingo foram irregulares, devido à necessária acomodação para se correr com um par de pernas artificiais em forma de jota, feitas com fibra de carbono, e conhecidas como Cheetas.

Pistorius nasceu sem os perônios na parte inferior das pernas e com outros defeitos nos pés. Ambas as pernas foram amputadas abaixo do joelho quando ele tinha 11 meses de idade. O seu técnico diz que aos 20 anos o rapaz é como um motor de cinco marchas destituído da segunda marcha.

Pistorius é também um indivíduo extremamente talentoso, que começou a dissipar as fronteiras entre a normalidade e a deficiência física, gerando profundas questões filosóficas: Qual deve ser a aparência de um atleta? Onde se deveria instituir limites sobre a tecnologia a fim de fosse encontrado um ponto de equilíbrio entre competição justa e o direito de competir? A natureza do esporte seria alterada caso atletas dotados de membros artificiais fossem capazes em determinado momento de correr mais rápido ou saltar mais alto do que os desportistas que possuem membros naturais?

No domingo, assim que alcançou a sua velocidade máxima, Pistorius venceu facilmente as corridas de 100 e 200 metros aqui na Paraolimpíada Mundial, uma competição internacional para atletas portadores de deficiência física.

Uma tarde fria e chuvosa prejudicou um pouco o desempenho dele, mas as suas vitórias foram decisivas e o mantiveram focado na sua meta de participar das Olimpíadas de 2008 em Pequim, mesmo que as autoridades que controlam o atletismo mundial procurem impedir que ele compita.

A 15 meses de Pequim

Desde março, Pistorius exibiu desempenhos recordes para atletas deficientes nos 100 metros (10,91 segundos), 200 metros (21,58 segundos) e 400 metros (46,34 segundos). Esses tempos ainda não atingem os mínimos necessários para que ele se qualifique para disputar as Olimpíadas, mas ainda faltam 15 meses para os jogos de Pequim. A velocidade atual de Pistorius já garantiria medalhas de ouro na categoria feminina das Olimpíadas de Atenas de 2004.

O tempo de 46,56 segundos de Pistorius nos 400 metros lhe deu um surpreendente segundo lugar em março em uma competição nacional sul-africana disputada com corredores sem deficiência. Isso aparentemente faz dele um candidato para a prova de revezamento 4 x 100 metros, caso a África do Sul se qualifique como uma das 16 equipes mais rápidas do mundo nessa modalidade.

"Não me vejo como um deficiente", explica Pistorius, um ex-jogador de rugby e de pólo aquático, de cabelos louros eriçados, que se recusa até a estacionar o seu carro nos espaços reservados a portadores de deficiência física. "Não há nada que os atletas normais façam que eu não possa fazer".

Mesmo assim, persiste a questão: as pernas artificiais simplesmente equilibram as chances de Pistorius, proporcionando uma compensação para a sua deficiência, ou elas dão a ele uma vantagem desigual por meio daquilo que alguns chamam de "tecno-doping"?

O que dizem os dirigentes do esporte?

A resposta é incerta. Os especialistas dizem que existem apenas estudos científicos limitados sobre a biomecânica de corredores que tiveram os membros amputados, e especialmente no que se refere àqueles que não têm as duas pernas. E como Pistorius perdeu as pernas quando ainda era bebê, a sua velocidade com as pernas de fibra de carbono não pode ser comparada com aquela que teria com pernas naturais.

A instituição que controla o atletismo mundial, a Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF, na sigla em inglês), com sede em Mônaco, proibiu recentemente o uso de auxílios tecnológicos como molas e rodas, desqualificando Pistorius para qualquer evento aprovado por ela. Uma decisão final sobre o caso deverá ser anunciada em agosto.

O Comitê Olímpico Internacional permite que as instituições que controlam esportes específicos criem as suas próprias regras quanto à qualificação dos atletas, embora possa interferir nos processos. Desde 2004, por exemplo, os atletas transsexuais podem competir nas Olimpíadas.

"Com todo o respeito, não podemos aceitar algo que proporcione vantagens", afirma Elio Locatelli, da Itália, diretor de desenvolvimento da IAAF, pedindo a Pistorius que se concentre nas Paraolimpíadas que se seguirão às Olimpíadas de Pequim. "Isso é algo que afeta a pureza do esporte. Depois disso haverá algum dispositivo que permitirá às pessoas voar com o auxílio de algo instalado nas costas".

Mas há quem questione as motivações da IAAF. "Eu tenho uma pergunta para a IAAF", diz Robert Gailey, da Escola de Medicina da Universidade de Miami, um médico que estuda corredores que sofreram amputações. "Eles estão se preocupando em impedir que haja vantagens injustas? Ou será que estão discriminando devido à pureza das Olimpíadas, porque não querem ver um homem deficiente se colocar ao lado de um atleta normal por temerem que, caso a pessoa que não possui um corpo perfeito vença, isso se constitua em uma mensagem contundente a respeito da imagem do homem?".

Segundo Gailey, uma perna protética fornece apenas 80% de retorno energético ao corredor, comparado a um retorno de 240% no caso de uma perna natural.

"Não existe fato científico que comprove que ele conte com uma vantagem, e sim que ele está competindo em desvantagem", afirma Gailey.

Uma das principais preocupações da IAAF é a possibilidade de os membros protéticos de Pistorius o tornarem mais alto do que ele seria com pernas naturais, proporcionando passadas mais longas. A entidade cita que ele reduziu os seus melhores tempos em vários segundos nos últimos três anos, enquanto a maioria dos velocistas de elite melhoraram seus tempos em apenas centésimos de segundo.

"O livro de regras preconiza que um pé deve estar em contato com o bloco de largada", afirma Leon Fleiser, gerente-geral do Comitê Olímpico Sul-africano. "Qual é a definição de um pé? Um dispositivo protético é um pé artificial ou um pé de verdade?".

As autoridades da IAAF também temem que Pistorius caia, obstruindo a passagem de outros corredores ou fazendo com que ele se machuque ou a outros competidores. Alguns temem ainda que, caso não haja limites para os auxílios tecnológicos, os corredores comuns possam começar a usar placas de fibra de carbono ou outros dispositivos inadequados à base de molas nos sapatos.

Entre os que falam sobre ética, o sucesso de Pistorius gerou murmúrios a respeito de "transumanos" e de "ciborgues".

Corpos reconstruídos geram atletas sobre-humanos?

Alguns observam que os atletas já se modificaram de várias maneiras, incluindo jogadores de beisebol que fizeram cirurgias a laser nos olhos para aprimorar a visão e lançadores que se submeteram a reconstruções de ombro usando ligamentos de outras partes do corpo.

Pelo menos três atletas portadores de deficiência física competiram nas Olimpíadas de Verão: George Eyser, um norte-americano, ganhou uma medalha de ouro em ginástica quando competia com uma perna de madeira nos Jogos de 1904 em Saint Louis; Neroli Fairhall, uma paraplégica da Nova Zelândia, competiu na modalidade tiro com arco nas Olimpíadas de 2004 em Los Angeles, e Marla Runyan, uma corredora legalmente cega dos Estados Unidos, competiu nos 1.500 metros nas Olimpíadas de 2000 em Sydney. Mas Pistorius seria o primeiro atleta com pernas amputadas a competir em uma modalidade de atletismo, segundo informam autoridades internacionais do esporte.

Uma questão séria foi colocada recentemente no website do Instituto para a Ética e Tecnologias Emergentes, com sede no Estado de Connecticut. "Tendo em vista a natureza da competição, que lembra uma corrida armamentista, as vantagens tecnológicas motivariam os atletas a fazer algo aparentemente radical, como por exemplo substituir os membros naturais por outros artificiais?", escreveu George Dvorsky, membro da diretoria do instituto.

"Quando se obtém um membro melhor, estamos falando de auto-mutilação?".

Historicamente, a IAAF estabeleceu limites sobre os dispositivos destinados a ajudar os atletas. A entidade proíbe uma série de drogas que melhoram o desempenho. E ela não permite atletas em cadeiras de roda na maratona olímpica, já que as rodas proporcionam uma nítida vantagem em termos de velocidade.

Mas o órgão diretor também adotou avanços tecnológicos. Por exemplo, a IAAF permite que os atletas durmam em dispositivos semelhantes a tendas para simular altitudes elevadas e aumentar a capacidade de transporte de oxigênio pelo sangue.

À medida que os atletas portadores de deficiência melhorarem os seus desempenhos, a IAAF certamente terá que tomar mais decisões sobre como encaixá-los nas regras. Em fevereiro último, Jeff Skiba, que teve uma perna amputada abaixo do joelho, competiu na modalidade de salto em um campeonato nos Estados Unidos.

Alguns funcionários da IAAF recomendam cautela quanto a desqualificar Pistorius de forma muito precipitada. Embora ele não seja considerado um candidato a medalha, a participação do rapaz nos Jogos Olímpicos de Pequim poderia proporcionar uma história inspiradora.

"Não existe nenhum fundamento real para se afirmar que ele não deve contar com permissão para competir nas Olimpíadas", afirma Juan Manuel Alonso, da Espanha, que dirige a comissão médica e anti-doping da IAAF. "Gostaríamos de contar com maiores informações sobre estudos biomecânicos".

Pistorius diz que o seu próprio temor é de que a instituição regulamentadora, que não manteve contato com ele, venha a bani-lo baseada em suposições, e não na ciência.

"Acho que eles têm medo de realizar pesquisas", afirma Pistorius, que é estudante de comércio na Universidade de Pretória. "Eles temem aquilo que
descobrirão: que eu não conto com vantagem alguma e que eles terão que me deixar competir".

Pistorius, cuja altura oficial com as suas pernas prostéticas de corrida é de 1,86 metro, faz observar que os dispositivos estão dentro do comprimento normal determinado pelo extensão das suas coxas. A sua maior passada, segundo ele, é de 2,74 metros, e não de 3,96 metros, conforme sugeriram certos funcionários da IAAF.

Segundo Pistorius e o seu técnico, há muitas desvantagens ao se correr com pernas de fibra de carbono. Após uma largada desajeitado, ele necessita de cerca de 30 metros para ganhar ritmo. Os seus joelhos não se flexionam com muita presteza, o que limita a geração de força. E a sua tração pode não ser firme na chuva. E quando ele corre contra o vento, ou fica cansado, precisa lutar contra forças rotacionais que torcem os seus dispositivos protéticos para os lados, explica Ampie Louw, o técnico de Pistorius.

"O garoto nasceu campeão"

"A IAAF não entende nada sobre a prática de esportes por deficientes físicos", critica Louw, que é técnico de Pistorius desde 2003.

Não é dado um crédito suficiente à determinação de Pistorius na sala de levantamento de pesos e na pista, afirma Louw, descrevendo uma intensa rotina de treinamento que exige que o atleta corra 350 metros em 42 segundos, 300 metros em 34,6 segundos, 200 metros em 22 segundos e 150 metros em 15,4 segundos.

"O garoto nasceu campeão", diz Louw. "Ele não se encaixa na posição de segundo melhor".

Tendo usado próteses desde a infância, Pistorius não precisou se ajustar a pernas artificiais depois que começou a competir, da maneira que fazem vários atletas portadores de deficiência. Ele ganhou uma medalha de ouro nos 200 metros nas Paraolimpíadas de 2004 em Atenas.

"Estas sempre foram as minhas pernas", diz ele. "Eu treino mais arduamente do que os outros atletas, como melhor, durmo melhor e acordo pensando em atletismo. Creio que é por isso que sou uma espécie de exceção".

Ele é uma pessoa que procura ampliar a definição de atleta olímpico.

"Existem duas questões conflitantes em jogo - a competição justa e o direito humano básico de competir", explica Angela Schneider, especialista em ética no esporte da Universidade do Oeste de Ontário e ganhadora de uma medalha olímpica de prata no remo em 1984.

"A IAAF precisa definir objetivamente quando é que os dispositivos protéticos deixam de ser apenas uma instrumento terapêutico e transformam-se em um ampliador de desempenho", diz Schneider. "O perigo de se agir precipitadamente é acabar negando a luta de uma pessoa a despeito de todas as adversidades enfrentadas, o que é um dos princípios fundamentais das Olimpíadas". UOL

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