UOL Notícias Internacional
 

17/05/2007

Na zona rural da Venezuela, as terras mudam de mão à força

The New York Times
Simon Romero
Em Urachiche, Venezuela
Os posseiros chegaram antes do amanhecer com facões e rifles, cercaram a plantação de cana-de-açúcar e ameaçaram matar qualquer um que interferisse. Então acenderam um fósforo para a plantação e declararam as terras como sendo deles.

Por séculos, grande parte das ricas terras cultiváveis da Venezuela estiveram nas mãos de uma pequena elite. Após chegar ao poder em 1998, e especialmente após sua reeleição em dezembro, o presidente Hugo Chávez prometeu colocar um fim a tal desigualdade, cumprindo sua promessa em um processo tanto brutal quanto legal.

Chávez está executando o que poderá se tornar a maior redistribuição forçada de terras na história da Venezuela, construindo comunidades agrícolas utópicas para os posseiros, despejando dinheiro em novas cooperativas e enviando comandos do Exército para supervisionar as propriedades tomadas em seis Estados.

A violência tem atingido ambos os lados na luta, com mais de 160 camponeses mortos por capangas armados na Venezuela, incluindo vários aqui no Estado do noroeste de Yaracuy, um epicentro do projeto de reforma agrária, nos últimos anos. Oito fazendeiros também foram mortos aqui.

"A oligarquia está sempre no ataque e tentando dizer que vocês não prestam", disse Chávez aos posseiros em uma visita televisionada aqui no mês passado. "Eles acham que são os donos do mundo."

Os simpatizantes de Chávez formaram milhares de cooperativas financiadas pelo Estado para tomar fazendas agrícolas e de criação de gado de proprietários privados. Os fazendeiros dizem que é difícil obter a indenização. As autoridades locais descrevem a tomada das terras como a pavimentação da "estrada para o socialismo".

"Isto é um terrorismo agrário encorajado pelo Estado", disse Fhandor
Quiroga, um fazendeiro e chefe da câmara de comércio de Yaracuy, apontando para as dezenas de seqüestros de fazendeiros por gangues armadas nos últimos dois anos.

O governo disse que a meta do reassentamento nacional é fazer melhor uso da terra ociosa e tornar a Venezuela menos dependente de alimentos importados. Novas leis permitem aos posseiros administrar e cultivar terras que agora estão nas mãos do governo.

Antes do início da reforma agrária em 2002, cerca de 5% da população era dona de 80% das terras do país. O governo disse que agora assumiu o controle de cerca de 1,37 milhão de hectares e assentou mais de 15 mil famílias.

Trabalhadores rurais pobres e moradores urbanos desempregados que ocuparam terras aqui estão tão cheios de otimismo quanto os ricos latifundiários estão temerosos. Nos arredores da cidade de Urachiche, por exemplo, se encontra Fundo Bella Vista, uma comunidade rural inaugurada por Chávez durante um episódio de seu programa de televisão, transmitido aqui em abril.

Bella Vista é uma das 12 'cidades comunitárias' que Chávez planeja construir neste ano. Ela conta com fileiras de casas idênticas de três quartos para 83 famílias, uma sala de leitura, uma emissora de rádio, um prédio com serviço gratuito de Internet de banda larga, uma escola e uma praça com o busto de Simón Bolívar, o herói nacional da Venezuela.

Com financiamento dos bancos públicos, a cooperativa planta mandioca, milho e feijão, com as autoridades em Caracas dizendo que são cultivos mais adequados aos solos daqui do que a cana-de-açúcar. Ao queimarem a cana durante a tomada das terras, os posseiros preparam a terra para outras plantações e dão menos incentivo para os proprietários lutarem pelo controle. Os governos federal e estadual consideram Bella Vista como um exemplo do fervor ideológico que Chávez está tentando fomentar no interior.

Lisbeth Colmenares, 22 anos, estava radiante enquanto mostrava ao visitante sua nova casa aqui, onde ela e sua família vivem livres do aluguel. "Antes de Chávez, o governo ficava feliz em nos deixar passar fome", disse Colmenares, segurando sua filha de 6 meses, Luzelis. "Nós nunca deixaremos que aquilo que temos agora seja tomado de nós."

Mas enquanto algumas das comunidades agrícolas recém assentadas estão
eufóricas, os latifundiários estão nervosos. Os economistas dizem que a
reforma agrária poderá ter um efeito oposto ao pretendido por Chávez,
tornando o país mais dependente de alimentos importados do que antes.

As incertezas e perturbações provocadas pela tomada das terras levaram a um menor investimento por parte de alguns produtores rurais. A produção de alguns alimentos se mantém relativamente estagnada, contribuindo para a escassez de itens como açúcar, disseram os economistas.

John R. Hines Freyre, que é dono da maior fazenda de cana-de-açúcar de
Yaracuy, agora está tentando desesperadamente vender a propriedade e outras em Estados vizinhos. "Ninguém quer esta propriedade, é claro, porque sabem que estamos prestes a ser invadidos", disse Hines, 69 anos, em um inglês aperfeiçoado décadas atrás na Universidade de Georgetown.

A associação dos produtores de açúcar de Yaracuy diz que a produção de cana caiu 40% desde que Chávez deu início à reforma agrária.

As autoridades do governo atribuem a escassez aos produtores estarem
escondendo seus produtos. Mas economistas agrícolas dizem que a burocracia do governo, que dirige uma rede de supermercados, também está repleta de ineficiências e a Venezuela está em desvantagem na concorrência em mercados internacionais com economias maiores, como a China.

Carlos Machado Allison, um economista agrícola do Instituto de Estudos
Superiores de Administração em Caracas, disse que a demanda por alimentos aumentou mais de 30% nos últimos dois anos devido ao boom do petróleo, enquanto a capacidade da Venezuela de produzir alimentos cresceu apenas 5%.

Ele aponta para inconsistências na política do governo, como ter um
ministério encarregado da redistribuição das terras para reduzir a
importação de alimentos, enquanto outro é encarregado de importar grandes quantidades de alimentos. "A ambigüidade dos altos escalões é absurda", disse Machado. "Ao ampliar o poder do Estado, as reformas que estamos testemunhando no momento são um mecanismo para perpetuar a pobreza no interior."

Os projetos de reforma agrária de cima para baixo têm um histórico
problemático na América Latina, inclusive na própria Venezuela, que a tentou pela última vez nos anos 60. Mesmo países vizinhos como o Brasil, com um setor de agronegócio florescente, ainda luta com as exigências militantes por terras de camponeses pobres.

Mas a Venezuela, diferente de muitos de seus vizinhos, há muito tempo
importa grande parte de seus alimentos e usa menos de 30% do potencial pleno de suas terras cultiváveis, segundo a ONU.

Boa parte do motivo se deve ao caos que sua riqueza do petróleo causa na economia, com uma moeda forte durante tempos de altos preços do petróleo tornando mais barato importar alimentos do que produzi-los no país. Enquanto isso, vastas fazendas de gado ocupam grandes áreas de terra cultivável.

Mas nenhum país na região trata atualmente do problema da distribuição de terras tão agressivamente quanto Chávez.

"Em 2008, eu prevejo que não restará mais nenhum grande latifundiário no Estado de Yaracuy", disse Franklin Ochoa, 23 anos, um membro do comitê da cooperativa que dirige Bella Vista.

Na verdade, Yaracuy, um dos menores Estados da Venezuela, não possui
propriedades particularmente grandes. Com um dos solos mais férteis do país, o Estado é lar de imigrantes de Cuba, Portugal e Espanha, que chegaram após a Segunda Guerra Mundial e desenvolveram plantações de cana-de-açúcar e fazendas de gado relativamente pequenas.

Alguns destes imigrantes ou seus filhos agora estão fazendo tudo o que podem para partir. Fatima Vieira, filha de um caminhoneiro português que se mudou para a Venezuela há 50 anos, disse que está lutando para receber a indenização pela fazenda de cana-de-açúcar de 68 hectares controlada pelos posseiros. Como em outras propriedades tomadas, ela disse que os posseiros queimaram grande parte de sua cana-de-açúcar em uma tentativa de intimidá-la. George El Khouri Andolfato

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