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19/05/2007

Caso de menina de três anos desaparecida torna-se obsessão dos britânicos

The New York Times
Alan Cowell e Victoria Burnett*

Em Londres
Os olhos são poços de inocência plantados nos traços, que lembram os de um menor abandonado, de uma menina diminuta de quase quatro anos de idade. E há 15 dias esses olhos observam os britânicos a partir das telas de televisão e das primeiras páginas dos jornais, camisetas, pôsteres telas de computadores, com uma mensagem simples: Encontrem-me.

Reuters 
Astros do futebol como David Beckham entraram na campanha pela busca de Madeleine

A mensagem foi repetida por todo o país - na televisão e no ciberespaço. Astros do esporte como os heróis do futebol David Beckham e Cristiano Ronaldo se juntaram aos políticos, incluindo o primeiro-ministro designado do Reino Unido, Gordon Brown, na tentativa de fazer com que ela retorne em segurança.

A mobilização em torno do caso tem sido comparada, com certo exagero, ao luto nacional que emergiu devido à morte de Diana, a princesa de Gales. Mas, assim como na tragédia de Diana, não apareceu nenhuma fórmula mágica para trazer a garota de volta.

No início de maio, na região do Algarve, em Portugal, Madeleine McCann, prestes a fazer quatro anos de idade, desapareceu do quarto do apartamento de férias da sua família, no qual estava dormindo juntamente com os dois irmãos mais novos, enquanto os pais jantavam em um bar especializado em tapas a cerca de cem metros do local.

O caso transformou-se em uma obsessão dos britânicos, despertando-lhes o senso de piedade e de indignação de uma forma que não se via desde o assassinato de duas garotas de dez anos de idade, Holly Wells e Jessica Chapman, na vila de Soham, em 2002.

"Em um eco do espasmo emocional que tomou conta do país quase uma década após a morte de Diana, a princesa de Gales, a menina desaparecida dos McCann, Madeleine, não é mais filha só deles", escreveu na sexta-feira (18/05) o colunista David Hughes no jornal "The Daily Telegraph". "Ela se tornou filha de todos nós".

Jogadores da seleção nacional de críquete e legisladores do parlamento têm usado faixas amarelas nos braços para demonstrar solidariedade com os pais. Um vídeo da garota desaparecida, com o seu olho direito que tem um sinal peculiar na íris, foi exibido para 50 mil torcedores de futebol durante uma partida entre times espanhóis em Glasgow, na quarta-feira, e os torcedores usaram camisetas com o retrato de Madeleine.

Recompensas no valor total de milhões de dólares foram oferecidas por pessoas que incluem J.K. Rowling, a bilionária autora da série Harry Potter, e o executivo do setor aeronáutico Richard Branson. Um website criado pela família (www.findmadeleine.com) recebeu milhões de visitas.

A dimensão da campanha cresceu tanto que os pais da menina contrataram assessores financeiros e advogados para ajudá-los na tentativa de fazer com que a filha retorne da Praia da Luz, uma cidade à beira-mar cheia de palmeiras e buganvílias - o local onde o pesadelo deles teve início duas semanas atrás.

Na sexta-feira, na Praia da Luz, jornalistas do Reino Unido, Brasil, Espanha e Estados Unidos estavam de vigília na sombra em frente ao edifício branco de apartamentos de férias do qual Madeleine desapareceu. Fitas policiais para isolamento de locais de crimes estão estendidas por sobre os degraus que levam ao apartamento, que é fechado no topo por um portão à prova de crianças - em um irônico lembrete de que esta cidade se preocupa com a segurança das crianças.

"É chocante o fato de isto poder acontecer em Luz", afirma John Daffey, funcionário da igreja à beira-mar na qual os McCann rezam diariamente. "Este é um local de férias dos mais seguros. O que ocorreu aqui serve como toque de despertar, não só para Luz, mas para Portugal e a Europa".

No Reino Unido, o fenômeno da nação entristecida também gerou discussões a respeito do recurso do povo ao sentimentalismo face à perda, algo que pareceu dissolver característica fleuma dos britânicos.

"A família McCann está demonstrando a dignidade discreta e a força que estão singularmente tão ausentes de grande parte desta onda de simpatia nacional", escreveu Hughes. "Este é o sofrimento deles, e de ninguém mais. Será que a nossa insistência em tentar dividir indiretamente esse sofrimento não se constitui simplesmente em exploração do momento terrível vivido pelos pais?".

A onda de solidariedade soterrou questionamentos iniciais referentes à possível irresponsabilidade demonstrada pelos pais ao deixarem os três filhos dormindo enquanto saíam para jantar em 3 de maio. "Todos os pais, com a exceção dos mais neuróticos - às vezes deixam os filhos sozinhos", escreveu o colunista Simon Hoggar no jornal "The Guardian", em defesa dos pais de Madeleine.

Mas apesar da intensa campanha, a polícia só identificou um suspeito formal, um britânico de 33 anos chamado Robert Murat, que há dois anos vive no balneário em companhia da mãe, a apenas cem metros do apartamento no qual Madeleine foi raptada.

Murat, que desempenhou um papel fundamental ao auxiliar a polícia com traduções nos primeiros dias da caçada ao criminoso, acabou chamando a atenção das autoridades devido à advertência de um repórter de um jornal britânico, que achava que ele estava agindo de forma suspeita. Murat negou qualquer envolvimento no caso, e não foi preso.

Na ausência de respostas, os moradores e os visitantes em férias dizem que estão cuidando de suas vidas e tentando manter suas esperanças. "É como se uma nuvem negra tivesse baixado, e só há uma coisa que podemos fazer. Rezar", afirma Daffey, apontando para a porta da igreja.

*Victoria Burnett, na Praia da Luz, em Portugal, contribuiu para esta matéria UOL

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