UOL Notícias Internacional
 

19/05/2007

De sonho a pesadelo em uma viagem infernal

The New York Times
Marc Lacey

Em Providenciales, Ilhas Turks e Caicos
Não há como ir daqui para Miami de ônibus. Mas os traficantes que atuam na costa norte do Haiti em busca daqueles dispostos a arriscar suas vidas áridas por uma melhor no exterior contam algumas lorotas para encher suas frágeis embarcações.

Eles descrevem esta cadeia de ilhas, a 240 quilômetros da costa norte do Haiti, como sendo uma escala fácil para Miami, a meta final da maioria dos emigrantes haitianos. Às vezes eles dizem aos emigrantes do interior do Haiti que os Estados Unidos ficam a uma viagem de ônibus de distância enquanto falam dos grandes pagamentos e das barrigas cheias que os aguardam.

Mas a realidade é diferente, é claro, como ficou claro quando uma chalupa haitiana com excesso de pessoas virou recentemente além da costa de Turks e Caicos. Até 90 emigrantes podem ter morrido no episódio, que os passageiros da embarcação atribuíram às táticas agressivas da polícia local.

Eles faziam parte do crescente número de haitianos que estão abandonando seu país neste ano, aparentemente desiludidos com o ritmo lento das mudanças promovidas pelo governo do Haiti, no poder há 15 meses. Mas com patrulhas ao longo da costa da Flórida tornando cada vez mais difícil desembarcar lá, haitianos desesperados estão praticando "island hopping" (saltando ou fazendo escala em ilhas), como chama a Guarda Costeira americana, em busca de rotas alternativas e estressando as relações com seus vizinhos.
Turks e Caicos são as primeiras escalas e não estão felizes com isto. Os haitianos locais dizem que os esforços das autoridades para combater os imigrantes ilegais se tornaram tão agressivos que acreditam nas acusações de que um barco da polícia pode ter feito a chalupa haitiana virar em 4 de maio, apesar das negações oficiais.

Os haitianos atualmente correspondem a uma grande percentual da população daqui, ultrapassando o número de outros residentes, segundo estimativas do governo. Com a chegada regular de barcos de imigrantes, as autoridades daqui e de outras partes do Caribe estão lutando para contê-los.

"É um desgaste tremendo para o governo e apreciaríamos uma ajuda internacional", disse Lee Penn, que dirige um centro de detenção para imigrantes ilegais em Providenciales, a capital financeira de Turks e Caicos. "Nós lhes damos alimento, abrigo e os repatriamos - e isto tem um custo."

A tragédia voltou a atenção para o crescente êxodo de haitianos nos últimos meses e os esforços crescentes para contê-lo. Apenas em abril, a Guarda Costeira americana recolheu 704 haitianos no mar, quase tantos quanto os 769 imigrantes recolhidos durante todo o ano passado.

Eles seguem o vento até as Bahamas, para as Bermudas ou para cá, em Turks e Caicos, qualquer lugar que possa oferecer um meio de ganhar a vida ou deixá-los mais próximos dos Estados Unidos.

É um padrão semelhante ao de outros emigrantes caribenhos. Os cubanos, por exemplo, tentam rotas alternativas para escapar da ilha. A rota emergente: rumo oeste para a costa mexicana e então por terra até a fronteira americana.

Mas é mais difícil para os haitianos do que para os outros. Eles não são autorizados a permanecer caso cheguem a solo americano, como os cubanos. Não lhes é concedido um status temporário enquanto seu país se recupera de guerra ou desastres naturais, como para aqueles que fugiram de Honduras, Nicarágua e El Salvador.

E se conseguirem chegar em Turks e Caicos, seus esforços de fuga terão apenas começado.

Os agentes de imigração estão à procura de haitianos ilegais por todas as ilhas habitadas que formam Turks e Caicos, exigindo prova de residência legal para todos aqueles que param. "Somos um país pequeno e se estas pessoas continuarem chegando, isto nos causará problemas", disse Penn. "Nós nos tornamos um degrau."

Os moradores daqui falam da necessidade de preservar sua identidade. Isto tem sido um desafio ao longo dos anos, com a cadeia de ilhas ao longo dos tempos tendo sido parte das Bermudas, Bahamas e da Jamaica. Atualmente um território britânico, as ilhas têm um governador nomeado ela rainha Elizabeth assim como um primeiro-ministro local. Uma pesquisa do governo estimou a população em 33 mil, apenas um terço dos quais habitantes de longa data. Os haitianos correspondem a grande parte dos estrangeiros.

Nos últimos meses, agentes de imigração em busca de haitianos ilegais guardavam do lado de fora das igrejas haitianas na ilha para prender os fiéis sem documentos. Em um caso, eles entraram na Igreja Batista de Todos os Santos e retiraram cinco imigrantes. Os haitianos legais que contratam ou abrigam um imigrante - ou mesmo permitem que um entre em suas casas - enfrentam problemas legais, disseram haitianos locais.

Os moradores lembram que em 1998 outros haitianos em fuga em uma embarcação morreram na costa local, após a polícia ter disparado contra o barco. As autoridades disseram que deram disparos de alerta e não fizeram o barco virar.

"Ainda somos humanos e devemos ser tratados desta forma", disse James Prosper, um pastor de origem haitiana que vive em Turks e Caicos há 24 anos e que se queixou recentemente ao governo sobre o duro tratamento sofrido por aqueles pegos sem documentos.

"Se um haitiano é maltratado, eu sinto, porque está em meu sangue", disse Ronald Gardiner, um empresário nascido no Haiti que atualmente é um "belonger", como são chamados os cidadãos de Turks e Caicos. "Todos precisam lembrar que a maioria dos prédios nesta ilha foi construída por mãos haitianas."

Em Turks e Caicos, os haitianos recolhem o lixo e varrem as ruas. Eles arrumam as camas de hotel e despejam o concreto.

O setor de turismo daqui passa por um boom, muito diferente dos anos 90, quando uma pesquisa Gallup apontou que as ilhas apresentavam o menor reconhecimento de nome no mundo. Atualmente, astros de Hollywood passam suas férias em bangalôs escondidos. Outros banhistas abastados pagam passagens aéreas que custam menos que os muitos milhares de dólares que alguns haitianos pagam por um lugar numa chalupa.

A polícia daqui diz que alguns imigrantes fazem contrabando de drogas e armas, o que significa que cada embarcação é considerada uma ameaça à segurança. De fato, as mortes recentes reviveram um pedido das autoridades locais para a criação de uma força de defesa para um melhor patrulhamento das águas territoriais.

"Estas são pessoas pobres em busca de uma vida melhor, mas entre elas há criminosos", disse Duncan em uma entrevista. "Nós acreditamos que alguns deles podem ser ex-membros dos Tontons Macoute", uma referência aos bandidos armados que governaram o interior do Haiti durante os longos anos das ditaduras Duvalier.

As autoridades haitianas esperam que a tragédia possa ajudar a manter mais haitianos em casa. Elas estão considerando o uso de fotos da mais recente chalupa virada e dos corpos resultantes lançados ao mar como parte de uma campanha pública para desencorajar outros a fazerem tal viagem.

"A resposta à emigração é o desenvolvimento econômico e, como você sabe, isto não acontece do dia para a noite", disse Louis Joseph, que representa o Haiti, o país mais pobre das Américas, como embaixador nas Bahamas. "Quando você não se tem dinheiro para comer ou mandar as crianças para a escola, você não sabe o que fazer. Então você parte - ou você tenta, como fizeram aquelas pessoas." George El Khouri Andolfato

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