UOL Notícias Internacional
 

19/05/2007

Grande espaço, piso de vidro, vistas de canyon

The New York Times
Edward Rothstein

Grand Canyon West, EUA
Quem visita essas terras imponentes dos índios Hualapai, na margem Oeste do Grand Canyon, sabe qual sensação está sendo prometida para o clímax da viagem. Depois de dirigir por meia hora por estradas de barro de sacudir os ossos por 190 km a partir de Las Vegas, você pega um ônibus do estacionamento, perto de onde os helicópteros estão pousando e a construção progredindo. Ali, deixa todas as câmeras em um armário de segurança, veste botas cirúrgicas amarelas e entra em uma passarela no formato de ferradura com lados e paredes transparentes que se estendem por 20 metros pelo abismo, aparentemente sem suporte.

Jill Torrance/The New York Times 

Abaixo das cinco camadas de vidro do piso (protegido contra arranhões pelas botas) pode-se ver a face da rocha quebrada, de pontas afiadas, da beira do canyon e uma queda de centenas de metros para o abismo abaixo. A promessa é da excitação estonteante da vertigem.

E, de fato, na semana passada, alguns visitantes nesta passarela sustentada por aço ancorado na rocha sentiram exatamente isso. Uma mulher, com a mão esquerda agarrando desesperadamente os lados de vidro de 1,5 metros de altura e a outra segurando o braço de um segurança paciente, não ousou se mover para o centro transparente da passarela. As palavras gravadas nas fotografias de lembrança tiradas de muitas almas aventureiras por US$ 20 (em torno de R$ 40) proclamam o término de uma aventura de coragem: "Eu consegui!"

O Skywalk, que inaugurou em março a um custo de mais de US$ 30 milhões (em torno de R$ 60 milhões) vai terminar de se pagar se continuar cumprindo essa promessa de vertigem de parque de diversões, particularmente porque cada visitante deve pagar ao menos US$ 74,95 (em torno de R$ 150) para fazer a breve caminhada sobre o abismo. Mas uma excitação similar pode ser obtida com maior intensidade a 100 metros de distância, em terra comum, aonde os turistas vão se esgueirando cuidadosamente pelo precipício, sem cerca ou muro, e vêem pela ravina uma grande formação rochosa que se parece com uma águia gigante, com as asas abertas. Naquele ponto, a sensação de grandeza é muito mais palpável do que na passarela de pedestres, que em poucos momentos pode virar rotina, como um barco de fundo de vidro no Caribe.

Além disso, quando a pessoa se debruça pela pedra, o frisson do perigo é mais adequadamente misturado com outro sentimento que há muito atraiu visitantes à margem Sul do Grand Canyon: uma sensação de espanto com a vastidão do espaço e o sentido humildante de algo sublime, além da compreensão humana. O Skywalk, com seu estilo industrial cor de pêssego sob seu piso de vidro, nem se aproxima disso.

Para ser franco, mesmo a vista impressionante da murada Hualapai não se sustenta, se comparada com as margens Sul e Norte, que são controladas pelo Serviço de Parques Nacionais. A águia de pedra, como o próprio Skywalk, de fato não fica no Grand Canyon, mas sobre um canyon tributário subsidiário. A distância direta para o chão também é de menos do que os 1.200 metros, relativos ao Colorado, mencionados no material promocional. E a própria vista, apesar de grandiosa, é menos chocantemente imensa e impressionante do que as de áreas mais famosas do parque. Até as cores são menos variadas.

O que está sendo oferecido é outro tipo de atrativo, reconhecido no apelo pessoal de um dos anfitriões do local, Wilfred Whatoname, ex-policial tribal e agente ambiental, que orgulhosamente afirma sua afiliação tribal com penas em seu cabelo. Ele posa para fotos e oferece ajuda aos visitantes. "Estamos no reino da águia", diz ele, olhando para o canyon de braços abertos para abraçar o vento.

Seu retrato também aparece na lateral de todos os ônibus Hualapai. Ele aparece olhando para o novo Skywalk enquanto, abaixo dele, um helicóptero e um jipe passam perto de um barco motorizado no rio Colorado. A fotografia, como o próprio Skywalk, consegue invocar uma imagem romântica do índio americano -naturalmente próximo da terra, de seu passado e de seus poderes- enquanto promete o tipo de atividades banidas da principal parte do canyon pelo Serviço de Parques.

De fato, olhando mais de perto o Grand Canyon Oeste, é como se os papéis do governo americano e das tribos indígenas tivessem sido invertidos ou trocados. O Serviço de Parques tem uma visão quase sagrada do cenário do canyon, como se usasse uma concepção da terra indígena, lutando para protegê-la das pressões econômicas, do barulho e do comércio trazidos por cerca de cinco milhões de visitantes anuais. O serviço não permite nada que se pareça com os pacotes off-road Hualapai; proibiu vôos de helicóptero abaixo da margem do canyon, como os que os Hualapai oferecem. E não permitiria a construção de uma ferradura permanente de vidro e aço sobre o canyon.

Enquanto isso, os Hualapai estão fazendo exatamente o oposto, lutando para aumentar o comércio, explorando a sedução da terra e adotando as táticas cheias de clichê do turismo. Todo pacote de visita ao Skywalk inclui uma visita a uma cidade de faroeste falsa -Hualapai Ranch- completa, com um "saloon" (sem bebida) e uma prisão (vazia), cenas de tiroteio e "cozinha caubói". Perto do Skywalk, há uma nova "aldeia" de índios, que não é de fato uma aldeia, mas um conjunto de moradias indígenas construídas por tribos locais: uma "tenda de suor" Navajo, coberta de lama, uma casa de pedra Hopi e um "wikiup" Hualapi, uma oca construída com madeira de junípero.

Danças folclóricas refletindo várias culturas tribais também são apresentadas, algumas vezes reproduzindo estilos históricos, algumas vezes oferecendo variações modernas em roupas tribais elaboradas. A explicação das danças e de suas funções é mínima, ou da natureza de uma aldeia real, ou da história dessas tribos. O Skywalk revende a natureza; essas exibições revendem as imagens.

A motivação de tudo isso está clara. A tribo Hualapai, com 2.000 membros, controla quase 4.000 km quadrados de terra ao longo do Colorado, garantidos em 1883. Em muitos documentos antigos, é descrita como pobre e desejosa de melhoria, e ambas características persistiram. O jogo fracassou como apelo comercial, já que Las Vegas fica a três horas de distância. Então, o turismo é responsável por 70% do orçamento da tribo.

Antes da inauguração do Skywalk, apenas cerca de 400 turistas vinham ao Grand Canyon Oeste por dia. Agora, segundo um porta-voz da tribo, são cerca de 1.500. Até o final do ano, os planos prevêem a pavimentação de quilômetros de estrada de terra, a expansão da pista de pouso local para acomodar aviões comerciais e a construção de um café, um restaurante, um cinema Imax e um centro de visitantes na entrada do Skywalk. A esperança é de 5.000 a 6.000 turistas por dia. O dinheiro para o Skywalk foi patrocinado por um empresário de Las Vegas, David Jin, cuja empresa de turismo também traz regularmente turistas asiáticos ao local. Maiores desenvolvimentos, entretanto, terão seus desafios: toda a água consumida e o lixo produzido são transportados, enquanto geradores a diesel e painéis solares fornecem eletricidade; essa infra-estrutura frágil será muito mais exigida se o complexo Skywalk atrair grandes multidões.

Todo o empreendimento está coberto de controvérsias. Alguns membros da tribo, inclusive Whatoname, opuseram-se ao desenvolvimento por crer na santidade do canyon. Mas agora ele diz que pode ter valido a pena, se servir para a sobrevivência de longo prazo da tribo.

Mas a que custo - para todos?

A revenda do mundo natural pela tribo parece sem inspiração, apressada e cara. Após pagar US$ 74,95 pelo "Pacote Espírito", com o passeio no Skywalk, o visitante pode pagar outros US$ 125 (ou R$ 250) por um breve passeio de helicóptero pelo Colorado, seguido de uma indizível viagem de 20 minutos em uma lancha e outra breve viagem de helicóptero. Eu fiz o mergulho, sentado na traseira apertada de um helicóptero, tentando ver as paredes do canyon por uma janela que parecia do tamanho de um guichê; abaixo, no nível do rio, o barulho de helicópteros levando outros turistas serviu de acompanhamento constante à aparição das formações rochosas gigantescas talhadas no passado pelo rio hoje lamacento e lento.

Muito dinheiro por muito pouco. E diferentemente das áreas supervisionadas pelo Serviço de Parques, não há trilhas, não há formas de escapar das multidões e do comércio e começar a ver outra coisa.

Talvez isso mude quando este empreendimento iniciante se expandir, mas, por enquanto, a tribo de índios e representantes de seu antigo inimigo trocaram de papéis. Os Hualapai estão guiando as excursões de espetáculo do faroeste, enquanto o serviço está guardando a terra ancestral. Cada um assumindo as formas de pensar o mundo natural associadas ao outro. E isso inspira mais vertigem do que o Skywalk. Deborah Weinberg

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