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20/05/2007

No mundo de '24 Horas', família é a principal vítima

The New York Times
De Ginia Bellafante
ATENÇÃO: o texto a seguir contém citações a trechos ainda não exibidos da série (spoilers). Se você não deseja saber mais sobre episódios futuros, não continue a ler este artigo.

O drama de contraterrorismo exaustivo, frenético e labiríntico de '24 Horas' conclui sua sexta temporada na noite de segunda-feira com uma queda na audiência e revolta dos fãs. Com cada temporada da série transcorrendo ao longo de um único dia, esta aqui, lamentam os detratores, pareceu ter 70. Os próprios produtores reconheceram os desafios para manter a intensidade e foco da trama. Recentemente em seu blog sobre '24 Horas', o humorista Dave Barry expressou o desejo de uma CPI sobre os crimes da série contra a coesão narrativa.

Até duas semanas atrás, eu me incluía entre os dissidentes, me queixando de que as digressões e incursões estranhas na nostalgia da Guerra Fria subordinaram a trama maior e proclamando, para as paredes da minha sala de estar, que '24 Horas' devia se tornar '12 Horas' -ou '8 Horas', até '6'. Mas durante a 21ª Hora, o pai do agente Jack Bauer, Phillip (interpretado pelo talentoso James Cromwell), ressurgiu para submeter os membros de sua família a novos atos de torpe corrupção. E o efeito foi intenso e assustador, um lembrete de que '24 Horas' sempre manteve sua tensão operando em dois gêneros, e não um, ao aplicar as convenções do horror doméstico à linguagem de um thriller apocalíptico.

Desde sua estréia em 2001, '24 Horas' entrelaçou com sucesso os terrores da vida pessoal em sua narrativa dos Estados Unidos enfrentando uma potencial aniquilação. Pais matam filhos. Maridos abusam de esposas. Irmãs tentam matar irmãs. Esposas atiram em maridos -ou os apunhalam, como Martha Logan, a ex-esposa de Charles Logan, o ex-presidente, fez no início deste ano, espetando uma faca em seu ombro como recompensa por suas traições, tanto pessoais como cívicas.

As discussões de '24 Horas' há muito se concentram na forma como retrata a tortura -elaborada a ponto de parecer paródia nesta temporada- como fonte de sua controvérsia. Mas é a forma como a série trata a família como uma ilusão impossível, até mesmo perigosa, que realmente desafia nossa complacência. O desalento aflitivo de assistir '24 Horas' não vem da dúvida sobre se o mundo explodirá (obviamente não vai; Jack Bauer -interpretado por Kiefer Sutherland- é a proteção contra isto), mas em saber que os laços que unem as pessoas acabarão em risco ou destruídos, freqüentemente por perfídia e negligência.

A introdução de Phillip Bauer no início desta temporada estabeleceu rapidamente que Jack não herdou sua retidão de seu pai. Logo após aparecer, Phillip sufocou seu filho Graem, forçou sua nora a colocar em risco as vidas de agentes federais e ameaçou Jack. Quando ele reapareceu, semanas depois, Phillip estava seqüestrando seu neto, Josh, pela segunda vez em um mesmo dia.

A paternidade, intocavelmente sacrossanta em grande parte de nossa cultura, é em '24 Horas' uma instituição grotescamente comprometida. Durante a quarta temporada, nós testemunhamos o secretário de Defesa da série submeter seu filho à tortura por se recusar a fornecer informação que poderia ajudar a rastrear um terrorista. Ao mesmo tempo observamos a diretora da Unidade de Contra-Terrorismo trabalhar para evitar um ataque nuclear apesar da deterioração do quadro de saúde de sua filha mentalmente perturbada em uma sala próxima.

O fato de cada filho ter sido retratado como um incômodo petulante facilitou para que víssemos que os imperativos de segurança do país vinham em primeiro lugar. O brilhantismo perverso de "24 Horas" se encontra, pelo menos em parte, em sua capacidade de obter nossa solidariedade para erros de julgamento hediondos. No final nós sentimos menos pela garota problemática do que por sua mãe sitiada, que afinal estava tomando decisões sérias a cada passo do caminho.

Os relacionamentos mais duradouros em '24 Horas' não são entre pais e filhos, namorados e namoradas, cônjuges ou irmãos, mas entre indivíduos e seus governos e causas. E desta forma a série parece não comprometida com as políticas da esquerda ou direita, mas a um tipo de quase totalitarismo no qual o patriotismo precede a tudo e todos e a vida privada é minada, degradada.

A privacidade nem é um conceito viável em um mundo onde não há barraca de taco, cabine telefônica, laptop ou utilitário esporte que não seja imediatamente acessível aos sistemas avançados de vigilância da sempre atenta Unidade de Contraterrorismo.

A conexão humana é sempre sufocada. O totalitarismo, escreveu Hannah Arendt, "se baseia na solidão, na experiência de não pertencer ao mundo". E acima e além de tudo mais, o universo de "24 Horas" é um local muito solitário.

Amizade mal existe além dos parâmetros da burocracia: os escritórios da divisão de Los Angeles da unidade e os corredores da Casa Branca. E quando homens e mulheres se envolvem, não é apenas um com o outro, mas também com o propósito americano maior. O contato social comum simplesmente não existe. A idéia de que duas pessoas possam se sentar para tomar um café é tão contrária à lógica interna da série quanto a idéia de que ursos polares possam algum dia aprender a cantar.

Em '24 Horas', a escolha de ser privado de tudo isto e responder ao chamado de seu país nunca é a opção errada, não importa quão lamentável sejam as conseqüências pessoais. Cinco temporadas atrás Jack era um homem casado que jogava xadrez com sua filha adolescente. De lá para cá ele perdeu sua esposa (pelas mãos de uma agente infiltrada em sua agência), sua filha (para sua própria desatenção emocional) e várias namoradas para sua inabalável devoção a erradicar os inimigos do Estado, seja qual for o custo. Ele matou colegas que impediram sua busca pela justiça, perdeu sua identidade e adquiriu um vício em heroína no combate a chefões das drogas.

O preço de um mundo seguro é considerável, nos diz '24 Horas': amor e o restante ficam hipotecados para alguma outra vida. George El Khouri Andolfato

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