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20/05/2007

O ex está rondando meu casamento

The New York Times
De Kevin Mims*
Minha mulher e eu estamos casados há 27 anos, mas seu primeiro marido ainda a quer de volta. Quando estamos juntos em reuniões familiares, ele diz a todos que está apenas aguardando a minha morte para que ele e Julie possam se casar novamente. Ele age como se estivesse brincando, mas todas suas palavras são verdadeiras.

The New York Times 


Bem, nem tanto. Sou mais jovem (nove anos) e tenho mais saúde que ele, de forma que ele provavelmente sabe que suas chances de viver mais do que eu são pequenas. O que ele realmente torce é para que eu e Julie nos divorciemos.

Frank e Julie eram namorados de colégio de 16 anos quando se casaram, há 41 anos. Foi um casamento às pressas; Julie tinha engravidado. A primeira filha deles, Andrea, nasceu quase um mês antes do 17º aniversário de Julie. Cinco anos depois eles tiveram uma segunda filha, Mary Ann.

Segundo Julie, não demorou para que Frank começasse a se sentir preso àquela vida. Ele só tinha 24 anos e todos os seus colegas do colégio ainda estavam se divertindo enquanto ele tinha esposa e duas filhas. Ele achou que o divórcio seria sua chave para a felicidade. E foi, por algum momento.

Quando conheci Frank, ele não parecia ressentido com o fato de eu ter tomado seu lugar na vida de Julie. Na verdade nós o vimos muito pouco nos primeiros 10 anos de nosso casamento. Mas quando Andrea e Mary Ann tiveram filhos, Julie e eu nos vimos reunidos com Frank com freqüência cada vez maior: nas festas de aniversário e eventos esportivos das crianças, nas festas, nos churrascos de fim de semana, nas atividades escolares.

E todos nos dávamos bem de forma louvável. Mas a certa altura durante os últimos 17 anos, parece que Frank começou a me ver como um tipo de destruidor de lares. Sempre que ele e eu jogamos badminton nos churrascos de família, ele invariavelmente faz questão de me arrasar, apesar dos problemas nas costas e joelhos que ele desenvolveu em quase 30 anos como entregador de produtos panificados em supermercados.

Após testemunhar várias destas humilhações, minha neta Ashleigh lhe
perguntou: "Por que você sempre joga tão duro contra o vovô Kevin? Deveria ser só por diversão".

Frank sorriu para ela e disse: "Eu tenho que descontar por ele ter roubado de mim a vovó Julie".

Apesar de também ter dito isto em tom de brincadeira, eu acho que ele realmente acredita nisto, apesar de na época do divórcio deles eu ter apenas 16 anos, viver em outro Estado e só ter conhecido Julie seis anos depois. Eu posso ser culpado de muitas coisas, mas de roubar minha mulher de seu ex-marido não está entre elas.

O tempo que nós três passamos juntos aumentou com o passar dos anos (Julie e eu, por vários motivos, decidimos não ter filhos). Andrea e Mary Ann prosperaram financeiramente e uma ou duas vezes por ano elas arcam com férias em família na Disneylândia e em resorts como o de Squaw Valley, Califórnia, que incluem não apenas seus maridos e filhos, mas também Frank, Julie e eu.

Toda esta união tem seus benefícios. Eu acho que é bom para os netos verem ex-cônjuges como Julie e Frank convivendo tão bem. Mas às vezes, segundo meu ponto de vista, eles parecem se dar bem até demais.

Na Disneylândia no ano passado, Julie e Frank descartaram vários passeios. Frank temia que alguns minutos no California Screamin' ou na Space Mountain poderiam colocá-lo em uma cadeira de rodas. As juntas e costas de Julie estão bem, mas ela não gosta de montanhas-russas, rodas-gigantes e outras diversões vertiginosas.

Assim eu acompanhei minhas enteadas e netos em um passeio atrás do outro, enquanto Frank e Julie esperavam em um banco próximo e, cercados pelos cata-ventos, souvenires e churros comidos pela metade dos netos, assistiam a tudo. Sentados lado a lado daquela forma, dividindo um saco de pipoca ou tomando sorvete, Julie e Frank pareciam o quintessencial par há muito tempo casado.

Eu os vi da gôndola da Sun Wheel, uma roda gigante do parque temático
California Adventure da Disney. Do alto da Sun Wheel, Julie e Frank pareciam pontinhos minúsculos. Mas mesmo daquela distância, era possível ver o quanto estavam à vontade juntos, como de alguma forma pertenciam um ao outro.

À medida que a gôndola se aproximava do solo e as crianças acenavam e gritavam para o vovô Frank e para a vovó Julie, eu imaginei outras pessoas olhando com inveja para aquele casal que parecia ter sobrevivido ao campo minado do casamento moderno por três ou quatro décadas, tendo chegado a um ponto na vida onde podiam se sentar em um banco de parque de diversões e desfrutar do simples prazer de estarem juntos e assistirem seus netos se divertirem.

Exceto, é claro, que eles não sobreviveram ao campo minado. Eu e Julie sobrevivemos. E que campo minado ele foi: falência, execução hipotecária, uma breve falta de moradia, a retomada de posse de dois veículos, quase 20 mudanças de endereço, várias mudanças de emprego e até mesmo uma separação por um ano.

Mas ainda assim Frank parece confiante de que se esperar tempo suficiente, Julie novamente será sua. E parece que ele está preparado para esperar o tempo que for necessário.

Anos atrás, Julie e eu ocasionalmente víamos Frank na companhia de várias mulheres atraentes. Por vários anos ele até mesmo teve uma namorada que morou com ele. Ele ainda é atraente: magro, 1,90 m, bigode de Omar Sharif e ainda possui grande parte de seu cabelo. As mulheres parecem achá-lo irresistível. Em festas e atividades escolares, eu vi mulheres com a metade da idade de Frank praticamente se atirarem contra ela -sem sucesso.

Garçonetes em especial parecem atraídas por ele. Eu já vi garçonetes por toda a Califórnia lhe dirigindo olhares, tentando puxar conversa com ele, até mesmo lhe trazendo iguarias gratuitas. Eu posso acenar e estalar os dedos para as mesmas garçonetes por 10 minutos para avisá-las que meu copo de água está vazio, mas elas nunca deixam o copo do Frank chegar à metade sem virem correndo para enchê-lo.

Mas Frank não está interessado em garçonetes. Ele está interessado apenas em Julie. Após a viagem à Disneylândia, ela me disse que enquanto eu pairava acima deles na Sun Wheel, ele lhe disse: "Como mãe das minhas filhas, você sempre será a mulher mais importante da minha vida".

Eu tenho simpatia por seus atributos. Ele é um pai e avô excelente. Se ele e Julie não tivessem sido forçados por seus respectivos pais (e seu próprio descuido) a se casarem na adolescência, eles poderiam ter tido uma chance de felicidade juntos.

Em vez disso, perto dos 60 anos, ele espera o momento propício como "marido à espera" de Julie, confiante de que um dia seu casamento acabará e ele terá sua segunda chance. E devo admitir que posso ver algum motivo para seu otimismo.

Toda minha vida em persegui minha paixão -escrever- sem me preocupar demais com nossas necessidades financeiras. Eu consegui isto porque Julie deixou de lado suas paixões -cavalos, jardinagem, fotografia- para ir diariamente ao emprego como escriturária para ganhar nosso pão.

Quando nos casamos, foi com uma compreensão bem-intencionada mas extremamente otimista de que ela apoiaria meu trabalho de escritor até que ele fosse capaz de sustentar a nós dois. E então passei a escrever contos, poemas, romances, ensaios, artigos de jornal e muito mais. Eu gastei milhares de dólares participando de conferências de escritores e contratando editores profissionais para me ajudar a melhorar meus manuscritos. E nunca ganhei mais do que uma ninharia em troca destes esforços literários.

É claro que ao longo do caminho exerci muitas atividades que não envolviam redação para evitar a penúria completa: balconista em livraria, funcionário de cartório, esfregando o chão da Universidade da Califórnia-Centro Médico Davies e trabalhando em empregos de baixa remuneração no setor de seguros (geralmente para a empresa que estava empregando Julie na época). Mas eram apenas temporários e eu os abandonava assim que a crise financeira imediata passava.

Sendo aquele com horário flexível, eu também cuidada das tarefas domésticas: compras, cozinha, a limpeza pós-refeição. Mas tais tividades não contam no extrato da aposentadoria, que indicam que minha renda mensal média ao longo da vida é de US$ 833.

Enquanto isso, Julie está se aproximando da idade em que muitos se aposentam. E apesar de ter trabalhado arduamente durante toda sua vida, grande parte dos amigos dela estão muito melhor financeiramente do que nós.

Todo fim de semana sua melhor amiga, Kay, vai para a casa de férias dela e de seu marido, John, perto do Lago Eagle, nas Sierras. Quando se aposentarem, Kay e John planejam viver lá em tempo integral.

Julie não tem planos para se aposentar. Ela e eu não somos mais pobres, mas seu contracheque é o que nos sustenta. Mesmo se abandonasse meu trabalho como escritor e procurasse um emprego em período integral, eu provavelmente não conseguiria nada melhor do que um subemprego no Wal-Mart. Assim, Julie precisa continuar trabalhando em tempo integral, como tem sido desde que nos casamos há 27 anos.

E é esta realidade financeira que dá para Frank esperança de que algum dia ele recuperará sua mulher. Ele foi filiado ao sindicato Teamsters por três décadas e se aposentará com pensão plena e um bom plano de saúde. Em poucos anos ele poderá se aposentar. Sua casa está quase quitada. Nas últimas duas décadas, ele foi capaz de economizar algum dinheiro. Se Julie estivesse casada com ele, ela poderia deixar de trabalhar e passar seus dias praticando jardinagem, cavalgando, tirando fotos e lendo.

Apesar de Frank não se gabar de sua segurança financeira, ele encontra formas sutis de revelá-la. Quando Julie mencionou recentemente que tinha desenvolvido um apreço pela música de Frank Sinatra, ele comprou para ela uma caixa cara dos maiores sucessos do cantor. Ele também lhe dá
frenqüentemente DVDs dos filmes que ela gosta e outros presentes.

Eu acho que sei exatamente qual é a intenção de Frank, mas é tarde demais para que eu possa fazer algo a respeito. Se eu pudesse voltar para a época em que tinha 24 anos, eu poderia pensar seriamente em buscar uma carreira mais estável e um trabalho melhor remunerado, assim como sinto que se Frank pudesse voltar para quando tivesse 24 anos, ele pensaria seriamente em não se divorciar de Julie.

Mas a esta altura de nossas vidas, não há como voltar. Independente do que aconteça, eu continuarei escrevendo. Julie continuará trabalhando. E
Frank -sempre esperançoso, sua paciência aparentemente ilimitada- continuará esperando.

*Kevin Mims mora em Sacramento, Califórnia. George El Khouri Andolfato

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