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22/05/2007

Guerra da cocaína faz de Buenaventura a cidade mais mortífera da Colômbia

The New York Times
Simon Romero

Em Buenaventura, Colômbia
As pessoas que visitam esta cidade podem ser desculpadas por acharem que aqui nenhum lugar é seguro. Tiroteios ecoam com freqüência nas favelas em torno do porto da cidade, o mais importante do país na costa do Oceano Pacífico. Enquanto a situação em cidades maiores se acalmou, Buenaventura emergiu como o centro urbano mais mortífero na prolongada guerra interna da Colômbia.

Scott Dalton/The New York Times 
Policiais patrulham a região de Lleras, uma grande favela controlada pelos guerrilheiros

Soldados vasculham quase todos os carros em postos de revista na estrada sinuosa que leva a Cali. Guerrilheiros recentemente dispararam morteiros contra o quartel da polícia. O majestoso Hotel Estacion, uma jóia neoclássica, construído em 1928, freqüentado por executivos que vêm fechar negócios relativos à importação de automóveis ou à exportação de café, é guardado por dezenas de soldados vestidos com uniformes de combate.

"É como se tivéssemos um pequeno Haiti dentro da Colômbia", afirma o tenente Nikolai Viviescas, 25, um policial transferido de Bogotá, e que aqui chegou seis meses atrás. "A sensação que se tem é de estar em outro país".

Embora Bogotá, a capital, e outras cidades se tenham tornado suficientemente seguras e prósperas para que nelas seja possível esquecer um pouco do conflito civil que consome o país faz quatro décadas, a situação em Buenaventura é diferente.

Os assassinatos nesta cidade de cerca de 300 mil habitantes aumentaram 30% no ano passado, chegando a 408, o que faz de Buenaventura a cidade com maior taxa de homicídios do país, com 144 assassinatos por 100 mil habitantes, o que é mais de sete vezes o índice registrado em Bogotá e quatro vezes o de Medellin. E, segundo a polícia, somente neste ano 222 pessoas foram mortas aqui.

A grande maioria dos assassinatos é motivada por um conflito territorial pelo controle das favelas da periferia da cidade, uma grande área na qual predominam as palafitas. As autoridades policiais e navais dizem que dos cais improvisados dessas favelas partem lanchas rápidas carregadas de cocaína com destino a locais ao norte. A localização geográfica de Buenaventura, crucial para conectar a Colômbia ao fluxo do comércio global, também se constitui em uma vantagem estratégica para os narcotraficantes.

Apesar de ter recebido nesta década mais de US$ 5 bilhões dos Estados Unidos em auxílio para operações antitráfico e de contra-insurgência, o que faz deste país o maior receptor de auxílio estadunidense na América, a Colômbia continua sendo o principal produtor mundial de cocaína e o fornecedor de 90% da cocaína consumida nos Estados Unidos.

Chefes do narcotráfico, rebeldes e as ressurgentes quadrilhas paramilitares recrutam os seus membros entre os moradores das favelas de Buenaventura.

De acordo com a polícia, muitos dos combatentes das facções rebeldes pertencem à Frente Urbana Manuel Cepeda Vargas, uma célula do principal grupo guerrilheiro, as Farc, cuja sede fica em Cali e que se opõe às Autodefensas Campesinas del Pacifico, composta principalmente de ex-combatentes paramilitares que por um curto período depuseram as armas devido a um plano nacional de desmobilização.

"Nada nesta luta diz respeito a ideologia", afirma Antero Viveros, líder de um grupo comunitário em Lleras, uma grande favela controlada pelos guerrilheiros. "Tudo gira em torno das drogas, e os membros das facções matam-se uns aos outros".

Apesar de esta cidade ter se tornado a mais perigosa da Colômbia, as pessoas que ficaram desabrigadas devido à luta no interior do país ainda vêem em Buenaventura um refúgio. Cerca de 42 mil refugiados aqui chegaram desde 1998, a maioria afro-colombianos das áreas rurais, de acordo com o governo federal. Eles fizeram inchar a população daquelas que podem ser as mais miseráveis favelas da Colômbia.

"Quando o indivíduo tem fome, ele faz qualquer coisa imaginável para sobreviver", explica Fernando Nunez, 29, um morador de Lleras que ganha a vida consertando telefones celulares velhos. "Uribe veio a Buenaventura", diz ele, referindo-se ao presidente Alvaro Uribe. "Mas ele não teve coragem de vir até aqui".

Uribe, cujo índice de popularidade permanece superior a 70%, criticou asperamente a violência em Buenaventura e despachou novos comandantes policiais e navais para a cidade no início deste ano. Cerca de 2.000 soldados e policiais, que também usam uniformes de combate e portam armas semi-automáticas, patrulham Buenaventura.

Mesmo assim os críticos dizem que as autoridades há muito negligenciaram os problemas de Buenaventura, em parte porque os afro-colombianos recebem pouca atenção federal. Grupos não governamentais dizem que os afro-colombianos correspondem a um quarto da população do país, de 44 milhões de habitantes, o que de acordo com algumas estatísticas faz com que a Colômbia seja o país de língua espanhola com a maior população negra.

Alguns economistas apontam Buenaventura como sendo um exemplo dos riscos de se expor certas áreas de economias em desenvolvimento às forças de mercado. Maria del Pillar Castillo, economista da Universidade Valle, em Cali, diz que muitos moradores de Buenaventura perderam a segurança econômica quando o porto da cidade foi privatizado mais de uma década atrás, reduzindo a sua força de trabalho e os benefícios trabalhistas.

Como as taxas das importações que entram pelo porto de Buenaventura seguem diretamente para o governo central, a cidade colhe poucos benefícios do comércio internacional, ainda que a economia colombiana cresça a uma taxa de mais de 6% ao ano. Assim, os pobres em Buenaventura, que tem um índice de desemprego de cerca de 28%, recorrem ao narcotráfico.

"Não existe nenhuma outra indústria viável por aqui, de forma que não há nenhum outro emprego viável", critica Ana Maria Mercedes Cano, diretora da Câmara de Comércio de Buenaventura. "Assim, vivemos uma situação na qual a violência está a nossa volta".

A população civil se vê cada vez mais em meio ao fogo cruzado. Os guerrilheiros foram responsabilizados por um ataque no início deste ano no qual cinco pessoas, incluindo um policial, foram mortas quando um morteiro de fabricação caseira foi disparado contra um caminhão da polícia. As autoridades de segurança daqui dizem que as leis que são tolerantes em relação aos indivíduos com menos de 18 anos, que são os perpetradores de grande parte dos ataques, fazendo com que seja difícil reduzir o número de assassinatos.

"Temos um sistema judicial que foi elaborado para a Suíça, mas por aqui não há Suíça alguma", afirma o coronel Yamil Moreno, o chefe de polícia de Buenaventura. Com o mesmo tom de crítica, Moreno, que foi transferido para cá de uma região ao norte que também enfrenta a violência provocada pela persistente guerra colombiana, descreve com palavras duras os combatentes que morrem em Buenaventura. "Esses vagabundos só servem para beber, dançar e matar", afirma o coronel. UOL

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