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24/05/2007

Citando fracasso, Nova York fecha escolas para estudantes grávidas

The New York Times
Julie Bosman

Em Nova York
Uma dúzia de garotas, algumas sentadas desajeitadamente com suas barrigas grávidas nas carteiras, estavam lidando com uma lição de geometria do colégio em uma tarde recente. Sem lápis, sem livros, sem teorema de Pitágoras. Em vez disso, elas costuravam colchas de retalhos.

The New York Times 
Fim das escolas exclusivamente para grávidas pode ser um sinal da mudança dos tempos

Isto é o que passa por matemática em um dos quatro colégios de Nova York para garotas gestantes, esta aqui no Harlem. "Está ligado à geometria", disse Patricia Martin, a diretora. "Elas estão cortando formas."

Criadas nos anos 60, quando adolescentes grávidas eram de tal forma párias que eram forçadas a deixar a escola até o nascimento de seus bebês, as quatro escolas para gestantes da cidade - ou escolas P de "pregnancy" (gravidez), como são chamadas indiretamente - persistiam, com o número de alunas encolhendo de 1.500 no final dos anos 60 para apenas 323 hoje.

Elas apresentam péssimos resultados em provas, baixa freqüência e instalações inadequadas, com alguns de seus próprios administradores dizendo que suspeitam que a maioria de suas estudantes são forçadas a vir para cá por outras escolas. No lugar de bailes e laboratórios de informática, elas têm festas do Dia das Mães e creches.

Agora, em reconhecimento ao fracasso delas, a cidade planeja fechá-las no final do ano letivo como parte de uma ampla reorganização do distrito escolar alternativo, que será anunciada na quinta-feira, que também incluirá uma série de programas vocacionais, técnicos e de evasão escolar para estudantes com dificuldades no ambiente tradicional.

"É um programa separado, mas desigual", reconheceu Cami Anderson, a superintendente cujo distrito inclui o Programa para Estudantes Grávidas, como é formalmente chamado. "As garotas são transferidas por seus colégios originais, elas não vem para as aulas e não progridem em termos de notas."

O fim das escolas, assim como a origem delas, pode ser um sinal da mudança dos tempos. As escolas para gestantes por todo o país parecem estar lentamente desaparecendo, em parte devido ao declínio ao longo de uma década da gravidez entre adolescentes e em parte devido à idéia de que as adolescentes não devem ser segregadas de outros estudantes. Atualmente, cerca de 40 colégios de Nova York contam com creches próprias.

O número de escolas para gestantes em Chicago encolheu para uma. Em Madison, Wisconsin, a matrícula em escolas para gestantes diminuiu cerca de 15% nos últimos cinco anos, disse Ken Syke, um porta-voz das escolas públicas de lá. E nas escolas públicas de Los Angeles, o corpo docente de uma escola para gestantes caiu de 19 para 16 professores em três anos, com o fechamento de uma das cinco escolas.

"O número de alunos definitivamente caiu em comparação há cinco anos", disse Ken Easum, o coordenador administrativo da Opções Educacionais, o programa de escolas públicas alternativas em Los Angeles.

Em Nova York, as garotas no Programa para Estudantes Grávidas correspondem a apenas uma pequena porção das 7 mil adolescentes matriculadas nas escolas públicas da cidade que ficam grávidas a cada ano, segundo estimativas do departamento de saúde da cidade.

A decisão de fechar as escolas ocorreu após um estudo de seis meses encomendado pelo Departamento de Educação ter concluído que as garotas, ávidas em obter o diploma do ensino médio apesar de suas gravidezes, são relegadas a escolas de segunda classe que as tratam mais como futuras mães do que como estudantes curiosas.

Por anos, uma série de grupos também se voltou contra as escolas como vestígios de um passado quase vitoriano, argumentando que eram sexistas, estigmatizadoras, degradantes e que a maioria das alunas que deixam o programa de um ano estavam ainda mais atrasadas academicamente do que antes da gravidez.

O Título IX das Emendas de Educação de 1972 declara que as escolas são autorizadas a criar programas educacionais separados para estudantes grávidas, mas que devem ser de qualidade comparável aos colégios normais.

Dados internos fornecidos pelo Departamento de Educação para uma consultoria privada mostraram os resultados melancólicos produzidos pelas escolas para gestantes. No segundo semestre de 2006, a freqüência média diária das escolas para gestantes era de 47%, bem abaixo da média da cidade. Menos de 50% das alunas de escolas para gestantes conseguem fazer com sucesso a transição para o colégio. E em média as estudantes obtêm apenas quatro ou cinco créditos por ano, menos da metade dos 11 créditos possíveis.

Não é por falta de gastos: o Departamento de Educação gastou US$ 33.670 por estudante neste ano, um custo de mais de US$ 10,8 milhões - mais do que o dobro da média da cidade de gasto por aluno. Anderson, a superintendente que assumiu o cargo há 10 meses, disse que muitas estudantes nas escolas para gestantes não estavam se saindo bem em seus colégios regulares.

Alguns administradores de escola e estudantes dizem que os orientadores, ávidos em transferir estudantes com performance ruim em uma área onde isto pode acarretar sanções, rotineiramente forçam as garotas grávidas a deixarem o colégio e se matricularem em uma escola para gestantes.

Dannette Queen, a diretora assistente de uma escola para gestantes no Harlem, disse que a maioria das estudantes foi encaminhada por um orientador. "As gravidezes fornecem aos orientadores a oportunidade perfeita para se livrarem delas e dizer: 'Você precisa ir para uma escola para grávidas'", disse Queen. "Alguns orientadores lhes dizem que não precisam assistir às aulas quando vêm para cá."

Ainda assim, algumas garotas atualmente matriculadas em escolas para gestantes falam com entusiasmo de seu desejo de obter o diploma do ensino médio, ir para a faculdade e buscar uma carreira. Kyasia Davis, uma garota alta de 18 anos que está matriculada na escola para gestantes do Bronx, disse que deseja freqüentar a faculdade comunitária após se formar.

Sentada na aula de ciência na escola para gestantes no Harlem, Cassandra Gonzalez, 15 anos, que está esperando um menino para julho, disse que planeja ir para a faculdade e se tornar uma advogada. Mas a conversa constante sobre bebês na escola freqüentemente atrapalha os estudos. "Às vezes as garotas vêm com seus bebês", disse Gonzalez. "Quando isto acontece pode esquecer a aula!" George El Khouri Andolfato

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