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25/05/2007

Turistas são atraídos aos cemitérios históricos

The New York Times
Patricia Leigh Brown

Na Filadélfia
O jantar era de primeira classe, com mordomos servindo aperitivos e "Danúbio Azul" se misturando de forma agradável ao alarido festivo. Esta recriação do último jantar a bordo de um fatídico transatlântico foi o ponto alto do Dia do Titanic no histórico Cemitério Laurel Hill, um entre o crescente número de cemitérios que estão se remodelando como destino para turistas de fim de semana.

RJ Mickelson/The New York Times 
O Cemitério Oakwood tem déficit operacional anual de mais de US$ 100 mil

Os cemitérios históricos, desesperados por dinheiro para custear restaurações altamente necessárias, estão tentando chegar ao público de formas cada vez mais incomuns, com desfiles de cães, aulas de observação de pássaros, concertos de jazz dominicais, brunches com chefs famosos, festas de Dias das Bruxas no crematório e até um calendário de nus.

Laurel Hill, local de descanso final de seis vítimas do Titanic, promove a si mesmo como um "museu subterrâneo". O jantar do Titanic com mesas esgotadas, que incluía um passeio pelos mausoléus, passou a fazer parte dos passeios "Brancos Republicanos Mortos" ("os poderosos da cidade em toda sua glória e toda sua vergonha") e "Observação de Pássaros entre os Mortos", assim como da "Pecadores, Escândalos e Suicidas", uma visita ao túmulo de um "gângster do sul da Filadélfia que foi eliminado quando tentou se infiltrar nos negócios de extorsão de Schuylkill County".

À medida que os americanos cada vez mais optam pela cremação, cemitérios vitorianos como Laurel Hill e Green-Wood no Brooklyn estão se reposicionando para a próxima vida: a deles próprios. Depósitos de tesouros arquitetônicos e esculturais, como os vitrais Tiffany e donzelas de mármore chorando sobre os túmulos, os cemitérios cada vez contam com menos recursos, sofrem com anos de vandalismo e negligência, espaço cada vez menor para novos mortos e uma sociedade que, até recentemente, se distanciava coletivamente deles.

Apesar de suas circunstâncias individuais variarem - Green-Wood no Brooklyn, um recém-nomeado Patrimônio Histórico Nacional, conta com espaço para mais dois anos de enterros no solo, enquanto Laurel Hill já está virtualmente cheio - o que compartilham é um número imenso de túmulos que necessitam de reparos.

Woodlawn, no Bronx, o descanso final de Whitneys, um Woolworth, Jay Gould e grandes nomes do jazz como Duke Ellington e Lionel Hampton, tem 95 mil túmulos. Apenas 9 mil são custeados, disse Susan Olsen, a diretora executiva da Amigos de Woodlawn. "Você é responsável pela manutenção", disse Olsen. "Não dá para colocar alguém limpando um vitral Tiffany com um frasco de (limpa vidro) Windex."

O novo turismo em cemitério -uma versão subterrânea do History Channel- também visa desenvolver uma fidelidade a marca após o que Joseph Dispenza, presidente do histórico Forest Lawn em Buffalo, chamou de "encolhimento da base de clientes".

Chapel of the Chimes em Oakland, Califórnia, um columbário projetado por Julia Morgan, arquiteta do San Simeon, recentemente deu início a concertos "Jazz no Chimes" para atrair entusiastas de cultura que podem se tornar clientes potenciais.

Alguns cemitérios estão apostando no "infotainment" - mistura de informação e entretenimento. No "Dia da Herança" no último fim de semana no Cemitério do Congresso, em Washington, que tem 200 anos, uma banda marcial de 70 membros fez serenata no túmulo do compositor e maestro John Philip Sousa, e donos de cães organizaram um desfile para cães vestidos como personagens históricos do cemitério, incluindo um soldado da União.

Há uma década, cães de rua e prostitutas habitavam o mais antigo cemitério da cidade, que conta com monumentos projetados por Benjamin Henry Latrobe, o projetista do Capitólio. Então a associação de preservação começou a cortejar os donos de cães. Atualmente, o cemitério de 13 hectares serve como parque histórico para cães, onde estes correm pelos campos Elíseos, livres para interagir com as lápides. Os proprietários pagam US$ 125 por ano pelo privilégio, mais US$ 40 por cão - uma política que até o momento rendeu US$ 80 mil. De muitas formas, é um recuo para os tempos antigos, quando cemitérios então rurais como Green-Wood e Mount Auburn, em Cambridge, Massachusetts (1831), rivalizavam com as Cataratas do Niágara como destinos de turismo romântico. Estes "jardins de túmulos" eram cenários silvestres para piqueniques dominicais e precursores do Central Park e outros grandes espaços públicos.

Como muitos cemitérios antigos, Laurel Hill padeceu por anos em um ambiente urbano em dificuldades, à medida que os clientes potenciais se deslocavam para os subúrbios. Apesar de o cemitério contar com uma verba anual de US$ 17 milhões, grande parte deste dinheiro é destinado para túmulos específicos de família e está muito aquém do que é necessário para a manutenção. "Após 170 anos, as pessoas perdem o rastro" de seus entes queridos, disse Ross L. Mitchell, o diretor executivo.

Com apenas 1% dos seus 31,5 hectares disponível para novos enterros, os responsáveis pelo cemitério estão tentando pensar em formas criativas de explorar sua personalidade distinta. O passeio do Titanic foi idéia de J. Joseph Edgette, um professor da vizinha Widener University, que está rastreando os túmulos das vítimas do Titanic - para os quais atribuirá coordenadas de posicionamento global - e planeja documentar todos os 2.200. "Nós estamos nos remodelando como destino de turismo de herança cultural", disse Mitchell.

Para Jason Crabtree, um projetista de software de 33 anos, e sua esposa Melissa, de 29, este local de descanso rural, fundado em 1836, oferece "um perfil da humanidade que você não costuma ver", disse Crabtree, explicando a predileção do casal pelas visitas de fim de semana ao cemitério. Em um brunch no mês passado no Cemitério Oakwood em Troy, Nova York, chefs preparavam omeletes em meio as paredes de mármore e altos vitrais Tiffany, na Capela e Crematório Gardner Earl Memorial. O cemitério, de 1848, conta com espaço para enterros pelos próximos 200 anos e um déficit operacional anual de mais de US$ 100 mil, segundo Theresa Page, presidente do conselho curador.

Seus problemas de conservação são calamitosos: voluntários andam cortando o mato que tornou cerca de 10 mil túmulos invisíveis. O túmulo de Samuel Wilson, o homem por trás do "Tio Sam", o símbolo nacional dos Estados Unidos, está inacessível há anos, desde que canos de água de 125 anos estouraram sob as ruas. O cemitério pediu ao Congresso US$ 1,7 milhão para reconstrução.

Para elevar seu perfil e recursos, Oakwood promoverá uma feira da Renascença no verão, com disputas de justas entre cavaleiros em armadura. Ela foi inspirada em um casamento ao estilo medieval realizado aqui, para o qual o noivo fez sua própria armadura.

"Nós queremos que pensem: 'Uau, eu acho que gostaria de passar minha eternidade aqui'", disse Page sobre os esforços para atrair visitantes. "É uma forma de dizer: 'Nós adoraríamos que vocês ficassem conosco de forma permanente'." George El Khouri Andolfato

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