UOL Notícias Internacional
 

26/05/2007

Uma silenciosa revolução na Argélia: conquistas das mulheres

The New York Times
Michael Slackman

Em Argel, Argélia
Nesta nação ligada à tradição, marcada por uma guerra civil brutal liderada por islâmicos que matou mais de 100.000, uma silenciosa revolução está em curso: as mulheres estão emergindo como força econômica e política sem precedentes no resto do mundo árabe.

Shawn Baldwin/The New York Times 
Denni Fatiha, de 44 anos, é a primeira mulher a dirigir um ônibus urbano pelas ruas de Argel

As mulheres são 70% dos advogados e 60% dos juizes da Argélia. Elas dominam a medicina. Cada vez mais, contribuem mais para a renda familiar do que os homens. Dos alunos universitários, 60% são mulheres, dizem os pesquisadores.

Em uma região onde as mulheres têm um perfil público decididamente discreto, as mulheres argelinas são visíveis em toda parte: estão começando a dirigir ônibus e táxis, trabalham em postos de gasolina e restaurantes.

Apesar de os homens ainda deterem todas as posições formais de poder, e as mulheres ainda serem apenas 20% da força de trabalho, isso é mais do que o dobro da fatia de uma geração atrás, e elas parecem estar ocupando a máquina do Estado.

"Se essa tendência continuar, vamos ver um novo fenômeno, no qual nossa administração pública também será controlada por mulheres", disse Daho Dierbal, editor do Naqd, uma revista de crítica e análise social.

A mudança parece ter surpreendido os argelinos, que durante anos concentraram-se mais na luta entre o partido governante, tentando ficar no poder, e islâmicos tentando tomar esse poder.

Os que estudam a região foram surpreendidos pelos dados, mas sugerem que há uma explicação no sistema educacional e mercado de trabalho.

Os cursos universitários não são mais vistos como rota certa para se ter uma carreira e bem-estar econômico, então os homens talvez optem por sair em busca de trabalho ou simplesmente deixar o país, sugeriu Hugh Roberts, historiador e diretor do projeto da África do Norte do Grupo de Crise Internacional.

Para as mulheres, no entanto, os estudos universitários as tiram de casa e permitem que se posicionem melhor na sociedade, acrescentou. "O dividendo pode ser mais social do que em termos de carreira", disse ele. Essa geração de mulheres argelinas navegou entre o Estado secular e a pressão do islã extremista, os dois pólos da crise nacional dos últimos anos.

As mulheres hoje são mais religiosas e mais modernas do que as gerações anteriores, disseram sociólogos locais. Elas cobrem seus rostos e corpos com as vestes tradicionais islâmicas, oram, vão à mesquita - e trabalham, muitas vezes ao lado dos homens, o que era considerado tabu.

Sociólogos e muitas mulheres trabalhadoras dizem que, ao adotar a religião e vestir o véu islâmico chamado "hijab", as mulheres aqui de fato se livraram dos julgamentos morais e das restrições impostas pelos homens. É raro ver mulheres descobertas nas ruas tarde da noite, mas mulheres cobertas podem ser vistas pela cidade após a prece noturna.

"Eles nunca me criticam, especialmente quando vêem que estou vestindo o hijab", disse Denni Fatiha, 44, a primeira mulher a dirigir um ônibus grande urbano pelas ruas estreitas e tortuosas de Argel.

O impacto foi amplo e profundo.

Em alguns bairros, por exemplo, os índices de nascimento parecem ter caído, e o tamanho das turmas nas escolas elementares caiu quase pela metade. Parece que as mulheres estão adiando o casamento para completar seus estudos, apesar do adiamento do casamento também ser função do alto desemprego. No passado, as mulheres, em geral, casavam-se com 17, 18 anos; agora, casam-se com 29, dizem os sociólogos.

Fátima Oussedik, socióloga, disse: "Nos anos 60, éramos progressistas, mas não conseguimos o que está sendo alcançado por esta geração de hoje." Oussedik, que trabalha no Centro de Pesquisa de Economia Aplicada e Desenvolvimento em Argel, não usa o hijab e prefere falar francês.

Os pesquisadores dizem que a mudança não é movida pela demografia; as mulheres são apenas um pouco mais da metade da população. Eles disseram que é movida pelo desejo e pela oportunidade.

Os jovens argelinos rejeitam a escola e tentam ganhar dinheiro como comerciantes no setor informal, vendendo produtos nas ruas. Outros preferem deixar o país ou até não fazer nada. Há toda uma classe de jovens chamados de "hittistes" - uma combinação de francês e árabe para pessoas que seguram as paredes.

Cada vez mais, as pessoas perderam a fé no governo, que tira sua legitimidade de uma revolução que agora tem 50 anos, disseram analistas políticos. Em eleições parlamentares recentes, o número de votantes foi baixo e houve 970.000 votos de protesto -pessoas que anularam intencionalmente suas cédulas- quase tantos quantos os votos em apoio ao partido governante, 1,3 milhão.

Há protestos regulares e confrontos em todo o país, com pessoas reclamando de corrupção, falta de serviços e desigualdade econômica. Há ataques violentos também: bombas contra a polícia, estrangeiros e membros do governo. Um atentado triplo suicida em abril 11 contra o escritório do primeiro-ministro e a polícia deixou mais de 30 mortos.

Nesse contexto, as mulheres surgiram como a força mais potente para a mudança social da Argélia, com sua presença na burocracia e nas ruas tendo uma influência potencialmente moderadora e modernizadora na sociedade, segundo os sociólogos.

"As mulheres e os movimentos feministas podem estar nos levando à modernidade", disse Abdel Nasser Djabi, professor de sociologia da Universidade de Argel. Deborah Weinberg

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