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27/05/2007

Relacionamentos se desnudam no provador de roupa

The New York Times
Jerome E. Copulsky
Minha namorada estava cansada de me ver com as roupas de sempre —calças cáqui largas com barras desfeitas, suéteres gastos que provavelmente eu tinha desde a faculdade e um velho paletó esporte de tweed— e resolveu me expor às possibilidades do estilo. Eu chamava meu visual de "professoral", o que, considerando que sou um professor, parecia apropriado. Ela o chamava de "démodé".

The New York Times

"Quando somos efetivados no cargo, nos dão remendos de couro para os cotovelos", expliquei.

"Vamos dar um jeito nisso", ela disse.

Então, enquanto caminhávamos pelo SoHo durante uma visita a Nova York, ela anunciou:

"Precisamos fazer compras para você", e me encaminhou para uma loja.

Eu me queixei, mas devo admitir que excursões de compras são realmente muito mais interessantes na companhia de uma bela namorada, especialmente quando ela entra com você no provador, acrescentando uma carga erótica a uma tarefa em geral aborrecida.

Visitamos vários templos da moda naquele dia, e em cada um repetimos o ritual de procurar entre as araras e carregar braçadas de roupas para o provador. As coisas que ela escolhia eram do tipo que eu jamais pensaria em comprar: camisas coladas ao corpo, calças justas com zíperes de finalidade inimaginável que subiam em ziguezague pelas pernas, jeans de US$ 200, paletós vaporosos que não pareciam oferecer qualquer proteção contra os elementos —roupas que supostamente me transformariam em alguém mais "atual".

Apertados no pequeno provador de luz forte, rimos e trocamos beijos furtivos enquanto eu tentava não pensar no que as pessoas lá fora poderiam estar pensando. Satisfeita, ela olhou enquanto eu vestia uma camiseta preta muito justa que acentuava minha ligeira barriga. "É chamada de camisa motivacional", ela explicou, passando os dedos esguios pelo meu estômago.

"Você vai fazer mais flexões."

Ela ficou especialmente entusiasmada com as calças de brilho prateado e zíperes em ziguezague. Eu as vesti e me posicionei diante do espelho. As pernas eram largas e se abriam visivelmente embaixo. Eu parecia o golfinho de Frankenstein. "Não", eu disse.

"Eu adorei!"

"É impossível eu usar isto. Tenho quase 40 anos."

"Não, não tem", ela disse, rindo. "Você tem 35."

"Quase 36."

Apesar de seu entusiasmo, não me convenci. "Vamos perguntar ao vendedor", eu disse, como se seu conselho fosse especializado e imparcial.

Ela saiu do provador e o chamou.

"Você não acha que essa calça ficou ótima nele?"

Ele concordou sem convicção.

"Vou comprá-la para você", ela disse.

"Mas o preço é absurdo!", respondi. "E quando vou usá-la?"

Eu imaginei o olhar curioso dos meus alunos se eu usasse a fantasia de golfinho para dar aulas.

"É um presente de aniversário antecipado."

"Mas faltam quatro meses para o meu aniversário."

Como em muitas coisas nessa relação, eu não tive o direito de opinar. Ela correu até o balcão, apresentou seu cartão de crédito, comprou a calça e a camiseta "motivacional" e me entregou a sacola.

Eu tinha a sorte de ter uma namorada que me levava às compras, pensei, me fazia carícias no provador e até me comprava coisas. Senti a emoção de ser querido, paparicado, e apesar de não entender de roupas acreditei que brilharia na presença dela. Fiquei bastante feliz por ser adotado como seu projeto.

Essa felicidade durou pouco. Semanas depois, após um jantar desastroso em que o namorado da irmã dela tentou ensinar meu cachorro a deitar e meu cachorro reagiu a suas atenções mordendo-lhe a mão, nos sentamos na cama e ela me disse que não estava dando certo. Nós nunca tivemos uma verdadeira ligação, ela explicou, mas de alguma forma eu não havia percebido.

Então nos separamos, sem que eu tivesse a oportunidade de comprar qualquer presente de aniversário antecipado para ela. Senti-me culpado por isso, e culpado pelo fato de ela ter feito essas compras extravagantes de que eu realmente não tinha gostado e que não usaria mesmo que tivesse gostado, porque me lembrariam dela.

Durante uma de nossas longas e desagradáveis conversas telefônicas, enquanto detalhávamos por que não servíamos um para o outro, ou melhor, enquanto ela explicava meticulosamente por que não "combinávamos", eu me ofereci para devolver as calças de golfinho e a camiseta "motivacional" (eu estava muito desmotivado nessa época).

Ela recusou, dizendo que tinha comprado as roupas para mim e queria que eu as usasse. Não quis ouvir que isso era impossível.

Passaram várias semanas e eu ainda não tinha usado a calça ou a camiseta.

Certa noite, sentindo-me solitário, puxei a calça do cabide em meu armário quase vazio. As etiquetas ainda estavam nela, zombando de mim com nomes estrangeiros e preços extravagantes. Eu as vesti de novo. Um rápido olhar para minha imagem confirmou que realmente estava ridículo. Não adiantava tentar parecer um adolescente moderninho. Até meu cachorro pareceu me olhar desconfiado.

Pensei que poderia deixar essas peças penduradas no armário ou doá-las ao Exército de Salvação. Depois de pensar um pouco, decidi que as trocaria por alguma coisa que eu realmente usasse, e pediria a minha antiga ex, com quem muitas vezes eu almoçava quando visitava Nova York, para me acompanhar como conselheira de moda.

Eu me perguntei, é claro, se era adequado recrutar minha antiga ex para me ajudar a trocar um presente que minha ex mais recente havia comprado. Mas como hoje em dia muitas ex continuam próximas, e às vezes até se convidam para seus casamentos, o pedido não me pareceu tão estranho.

Quando chegou o dia de nosso encontro, depois de um longo almoço em Chinatown, passeando pela Mott Street, mencionei casualmente a necessidade de trocar alguma coisa no SoHo. Ela gostaria de ir comigo e oferecer seu bom gosto e sólidos conselhos?

"É claro", ela disse.

Quando entramos na loja, nossos ouvidos martelando com a música tecno, ela perguntou: "Você fez compras aqui?"

"Mais ou menos." Tirei da sacola a estranha calça e a camiseta e lhe mostrei. "O que você acha?"

Ela riu. "Você não pode usar isso", disse. "O que estava pensando?"

"Não foi minha idéia." Fiz uma pausa, e então finalmente confessei: "Ela comprou para mim".

"Bem", ela disse com um suspiro, "está explicado".

Eu a segui enquanto percorria a loja vasculhando as araras e prateleiras, pegando coisas, examinando-as criticamente, mostrando-as para mim e dizendo "não" ou entregando-me para que eu experimentasse.

No provador, coloquei a pilha sobre o banco e comecei a trabalhar enquanto em algum lugar, do outro lado da porta, minha antiga ex esperava que eu saísse. Isso foi menos eficiente do que se ela entrasse no provador comigo, mas você simplesmente não pode ficar num provador com uma ex, especialmente quando ela tem um namorado com quem está vivendo e do qual, acabo de saber, está noiva.

Eu vinha me preparando para essa notícia há dois anos, desde o dia em que ela me disse que estava saindo com alguém, e especialmente desde o início daquele dia, quando percebi o brilho discreto de um pequeno diamante em seu dedo, indicando uma promessa que eu fora incapaz de fazer.

Ela me contou sobre seu noivado enquanto esperávamos a comida, e eu a cumprimentei.

"Isso é realmente ótimo", disse. "Estou muito feliz por você." E estava.

Eu mesmo tinha pouco a contar, a não ser a recente implosão de minha relação.

"O que aconteceu?", ela perguntou.

Eu contei que ela detestava meu cachorro, o que havia sido mais ou menos o motivo principal.

Sozinho no provador, vesti um par de jeans, me agachei e levantei várias vezes, testando o conforto, olhei-me de vários ângulos. Mas não consegui decidir. O negócio era ter uma opinião feminina, por isso abri a porta, espiei para fora e chamei minha antiga ex.

Não houve resposta. Saí, soltando a porta, que bateu atrás de mim e trancou.

De meias, andei até a frente da loja, mas ela não estava mais na seção masculina procurando coisas para mim ou para seu noivo. Fui encontrá-la na seção feminina, parada diante de um espelho segurando uma saia diante do corpo.

"Olhe", eu disse, mostrando a calça. "O que você acha?"

Ela franziu a testa. Eu sempre tinha adorado aquela expressão —a maneira como suas sobrancelhas se juntam, fazendo uma curva de intensa consideração, as pequenas linhas que se aprofundam na testa, os lábios contraídos e o sutil movimento do nariz. Eu adorava todo o seu repertório de expressões.

"Não gostei", ela disse.

"E a calça?"

"Definitivamente não. Experimente as outras coisas."

Voltando ao provador, tentei girar a maçaneta, mas lembrei que estava trancado por fora. Procurei o vendedor perto do balcão da frente, que dobrava roupas distraído, como se estivesse numa meditação.

"Desculpe", eu disse. "Preciso voltar para o provador."

"A porta se tranca quando você sai."

"Percebi", resmunguei, acompanhando-o.

Experimentei uma peça depois da outra até que cheguei ao último artigo da pilha, uma calça simples de linho azul, pernas retas e frouxa no quadril, confortável. Vestido com ela, saí, distraidamente deixando a porta bater mais uma vez.

"E o que acha desta?", perguntei a ela quando a encontrei.

"Dê uma volta."

Fiz isso, e enquanto ela me examinava como costumava fazer, pensei que minhas namoradas sempre tentaram corrigir meus erros, de vestuário e outros, e como a aceitação ou resistência a esses pequenos ajustes (roupas, cabelo, maneiras, hábitos e opiniões) formam a chamada troca nos relacionamentos, em que cada parceiro é modificado e tenta modificar o outro. Às vezes as modificações dão certo, às vezes não. Em outras você deixa de perceber que as coisas realmente se encaixam até que é tarde demais.

Imaginei minha antiga ex agora, esbanjando atenções ao seu noivo, e vice-versa.

Virando-me de frente para ela, reprimi um leve surto de ciúme e arrependimento.

"E então?", perguntei.

"Ficou ótima", ela disse.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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