UOL Notícias Internacional
 

28/05/2007

Com ajuda governamental, o etanol poderia se tornar a próxima Internet?

The New York Times
Daniel Gross

The New York Times News Service
De Nova York a Washington, o governo parece ter realmente se engajado na tarefa de promover as energias alternativas. O prefeito de Nova York, Michael R. Bloomberg, anunciou na semana passasa que os táxis da cidade serão convertidos em híbridos até 2012. No seu discurso deste ano sobre o estado da União, o presidente Bush pediu que o país substitua 20% da gasolina consumida nos Estados Unidos pelo etanol dentro de dez anos.

E o discurso do governo tem sido acompanhado de ações e políticas. O governo federal oferece um crédito fiscal de 51 centavos de dólar por galão (ou 13,5 centavos de dólar por litro) aos produtores e mantém uma tarifa de 54 centavos de dólar por galão (14,3 centavos de dólar por galão) sobre o etanol importado do Brasil. Mais de 20 Estados contam com os chamados padrões renováveis, que exigem que as indústrias fornecedoras de serviços públicos obtenham uma porcentagem fixa da sua energia das fontes renováveis.

O setor privado está respondendo com euforia, acelerando a construção de instalações eólicas, painéis solares e usinas de produção de etanol. A Associação de Combustíveis Renováveis, uma associação comercial da indústria do etanol com sede em Washington, afirma que os 85 projetos relativos à produção de etanol que estão sendo agora construídos mais do que dobrarão a capacidade existente de seis bilhões de galões (22,7 bilhões de litros) por ano até o final de 2008. Muitos dos mesmos investidores que financiaram as promissoras empresas da Internet com sede na Califórnia na década passada estão agora financiando os promissores projetos californianos de energia alternativa.

"Existe um grande boom nos setores de energia alternativa renovável e novas tecnologias, e isso não estaria ocorrendo se não fosse pela mistura de incentivos, regulamentações, subsídios e outros ingredientes do gênero", explica Daniel Yergin, presidente da Cambridge Energy Research Associates.

É claro que os booms às vezes se transformam em bolhas, especialmente quando os investidores de risco entram em áreas economicamente aquecidas. Será que o governo está encorajando o surgimento de uma bolha econômica na área de energia alternativa? E, se este for de fato o caso, isto seria algo tão negativo assim?

Os subsídios e regulamentações dão a impressão de se constituírem em um caso nítido de distorção de mercado. E os argumentos econômicos contra isso são simples.

"Acreditamos que a confiança nas forças de mercado é a melhor forma de satisfazer quaisquer exigências de aumento de necessidade de ombustível, e que qualquer política precisa proprocionar um campo de ação igualitário para todas as opções", afirma Rayola Dougher, analista econômico do American Petroleum Institute, em Washington, que acrescenta que muitos dos membros da associação comercial estão respondendo aos incentivos governamentais com investimentos em projetos para a utilização das energias eólica, solar e outras formas de energia alternativa. "Simplesmente não achamos que neste momento o governo devesse escolher vencedores e perdedores".

É claro que o governo, por meio de várias políticas industriais, há muito tempo encoraja o setor privado a investir em novas tecnologias. O Congresso aprovou a construção da primeira linha de telégrafo na década de 1840, concedeu às ferrovias milhões de hectares de terra pra a construção de redes ferroviárias e financiou as pesquisas que culminaram com a criação da Internet.

"Para mim o apoio governamental ao etanol é similar à eletrificação rural dos Estados Unidos e ao auxílio à contrução das ferrovias transcontinentais, ambos projetos que contaram com o apoio governamental", diz Matt Hartwig, diretor de comunicação da Associação de Combustíveis Renováveis. "O governo ajudou a montar essa estrutura. E assim que tal estrutura se encontrou instalada, ela foi assumida pelo setor privado".

Alguns especialistas dizem acreditar que o governo deveria encorajar a energia alternativa porque o campo competitivo está longe de um equilíbrio. "O setor inteiro de energia alternativa ainda é uma indústria incipiente que compete com a consolidada e bem capitalizada indústria do petróleo", alerta John M. Urbanchuk, diretor da firma de consultoria LECG, com sede em Wayne, no Estado da Pensilvânia.

"Como as tecnologias de enegia solar e eólicas se constituem em grande parte em 'tecnologias de nichos', seria difícil para elas ingressar no mercado sem o auxílio de regulamentações específicas", afirma Michael Toman, economista da Rand Corporation, que elaborou um estudo sugerindo que os Estados Unidos poderiam obter 25% da sua energia a partir de fontes renováveis até 2025.

Padrões governamentais para o uso da energia alternativa poderiam ajudar a criar um mercado ao obrigar as companhias fornecedoras de serviços públicos a firmar contratos de longo prazo para a compra de, por exemplo, energia elétrica gerada por usinas eólicas. "Se um grupo de investimentos conta com um contrato de 20 anos para o fornecimento de eletricidade gerada por usinas elétricas a uma prestadora de serviços, é muito mais fácil para esse grupo fazer o financiamento do projeto", diz William B. Marcus, economista da JBS Energy, uma empresa de consultoria com sede em West Sacramento, na Califórnia.

A principal crítica à energia alternativa é que, mesmo sem assistência governamental, ela ainda é mais cara do que muitas fontes tradicionais de energia. Mas os seus defensores argumentam que não se deve apenas comparar os custos de geração de eletricidade por meio da queima de carvão e da utilização de painéis solares.

O uso da energia implica em custos sociais - aquilo que os economistas denominam de "externalidades negativas" - que são difíceis de se quantificar. Por exemplo, o uso da gasolina, em vez do etanol, significa que os Estados Unidos exportam dólares para governos hostis, como o da Venezuela.

Ao mesmo tempo, um relatório recente do Barclays Capital sugere que o impulso para a adoção dos biocombustíveis está fazendo com que as companhias adiem a construção de novas unidades refinadoras de petróleo. A falta de capacidade extra de refinamento é um dos fatores responsáveis pelo aumento do preço da gasolina.

No entanto, os empresários e consumidores estão percebendo cada vez mais que as energias alternativas e as novas tecnologias eficientes em termos energéticos podem resultar em dividendos econômicos reais. Bloomberg diz que um taxista poderá economizar milhares de dólares ao dirigir um veículo híbrido. "Levando-se em conta a tendência de longo prazo de declínio da produção doméstica de petróleo e de demanda pela gasolina, a economia fica a cada dia mais favorável para a produção de combustíveis renováveis, mesmo que o apoio governamental diminua", afirma Fred Seamon, economista da Associação de Diretores Administrativos de Chicago.

É claro que a história nos ensina que as bolhas econômicas podem deixar atrás de si uma grande quantidade de infra-estruturas e inovações comerciais úteis. Companhias como a Global Crossing e a WorldCom podem ter fracassado terrivelmente, mas os cabos de fibras óticas instalados por elas ajudaram companhias como o Google. Várias usinas de etanol e fabricantes de painéis solares poderão fracassar como investimentos, mas as suas inovações poderão beneficiar a economia.

Uma outra coisa importante ocorre durante essas explosões de entusiasmo dos investidores. O dinheiro gasto em publicidade e promoção cria consciência pública e estimula a demanda do consumidor. Isso já está começando a ocorrer à medida que os clientes das companhias prestadoras de serviços se inscrevem para consumir energia verde e a Wal-Mart exibe nas suas prateleiras milhões de lâmpadas fluorescentes compactas.

Um número maior de pessoas cujas carreiras nada têm a ver com a enorme indústria de energia está pensando nas emissões de carbono.

"Eu estava no consultório do minha médica, em meio a uma consulta, e passamos a metade do tempo conversando sobre o novo automóvel híbrido que ela comprou", conta Yergin.

* Daniel Gross escreve a coluna "Moneybox" para o Slate.com UOL

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