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30/05/2007

A arte em grandes exposições pela Europa em junho

The New York Times
Julia Chaplin
Basiléia, Kassel ou Veneza? Numa recente noite de quinta-feira, colecionadores de arte e curiosos traçavam seus planos de viagem para o verão europeu tomando vinho em copos de plástico em várias vernissages no Chelsea, bairro das galerias de Nova York. Perguntei a David Maupin, co-proprietário da galeria Lehmann Maupin. Ele irá às três cidades européias.

"Ficarei por lá umas três semanas no mínimo", disse Maupin, que chegará em Veneza no sábado para as pré-preliminares da Biennale, depois seguirá em avião particular até Munique para a abertura da exposição do Gilbert and George e na manhã seguinte voará até a Suíça para a Art Basel. "Depois alugarei um carro e dirigirei até Kassel e Munster", acrescentou. "E quanto terminar esse roteiro, se ainda tiver energia, provavelmente ainda irei de férias para Dubrovnik."

Para o mercado das artes é como se fosse um eclipse solar total - as mais prestigiosas exposições estão alinhadas mês que vem na Europa, criando uma sucessiva orgia cultural feita de compras e contatos, num circuito aparentemente interminável de jantares e coquetéis.

Há a Bienal de Veneza; a exposição anual Art Basel na Suíça; a Documenta, que ocorre a cada cinco anos em Kassel na região central da Alemanha; e também os Projetos de Escultura de Munster, evento que ocorre a cada dez anos, transformando ruas e gramados da modorrenta cidade alemã num espetáculo surrealista.

Todo mundo que é alguém no mundo das artes vai comparecer nesse que será o conjunto de eventos nas artes mais importante da década. Todas as inaugurações foram cuidadosamente programadas para acontecerem entre a segunda e a terceira semanas de junho, criando uma maratona onde colecionadores de arte, compradores e os próprios artistas ficarão correndo entre as cidades (e as festas) em aviões, trens, automóveis e gôndolas.

De maneira um tanto audaciosa, o site oficial que conecta os quatro eventos se chama Grand Tour (www.grandtour2007.com), em homenagem aos percursos empreendidos na Era Dourada, onde a high society perambulava pela Europa de um evento cultural para outro.

"Estarei junto com todos os meus artistas favoritos", diz Anselm Reyle, artista conceitual baseado em Berlim, que depois da abertura em Veneza irá até Basiléia fazer a curadoria de um estande para a Almine Rech, uma galeria de Paris.

Mais que a badalação e os drinques, porém, existe a arte. A maratona cultural que ocorre no próximo mês na Europa proporciona uma oportunidade inédita para se pesquisar arte contemporânea do mundo inteiro - tanto pode ser uma performance conceitual da artista chinesa Ai Weiwei com a participação de 1.001 trabalhadores migrantes na 12a Documenta como uma enorme instalação feita pelo grupo Morrinho, um coletivo artístico brasileiro que está construindo uma favela ao estilo do Rio de Janeiro nas aristocráticas margens de canais em Veneza.

Com a exceção dos trabalhos expostos na Art Basel, nada estará à venda.

"É uma ocasião maravilhosa para se ver muita arte, e para poder observá-la de diversos pontos privilegiados", diz Robert Storr, diretor da Yale School of Art, que esse ano é o curador da Bienal de Veneza. "A arte hoje em dia não tem propriamente uma capital, nem duas nem três. Hoje em dia é um fenômeno verdadeiramente internacional."

A farra começa dia 10 de junho com a 52a Biennale de Veneza, com seus prêmios que equivalem aos Oscars do mundo das artes. Na verdade, começa mesmo é dia 7 de junho, pelo menos para os VIPs que voam de Learjet para inaugurações exclusivas e jantares em black-tie. Entre os convites mais disputados estão os que valem para a soirée de Miuccia Prada para o fotógrafo alemão Thomas Demand num palazzo e o jantar de Angela Missoni para a artista britânica Tracey Emin, num iate. (O Harry's Bar e o terraço do Hotel Monaco também são locais privilegiados para se observar as estrelas das artes.)

"Adoro circular e poder ver gente importante, como diretores de museu, ficando perdida no emaranhado", diz Alison Gingeras, curador para Francois Pinault, o bilionário colecionador francês. "A cidade é muito igualitária no que diz respeito a sua topografia. Mesmo que você tenha um motoscafo particular" - ou seja, um táxi aquático, cujo aluguel sai por cerca de U$ 125 a hora - "ainda assim você terá que se desdobrar para encontrar sua saída pelos canais."

A Biennale de Veneza - ela mesmo, a original, fundada em 1895 - acontece entre o Arsenale, conjunto de prédios de tijolos do século 16 arrendados junto à marinha italiana, e o Giardini, frondoso parque onde muitos entre os 76 países participantes estão erigindo pavilhões.

Espalhados pela cidade também estão outras mostras que valem a pena. O Palazzo Grassi, museu aberto no ano passado pelo milionário (François-Henri) Pinault no Grand Canal, irá apresentar uma mostra sob medida para deliciar o ramo - com amostras de raridades de sua coleção particular, incluindo a série "Entertainers" de Richard Prince e trabalhos pregressos de David Hammons.

Após Veneza, os que não têm jatinho particular pegarão um vôo até Zurique e depois um trem-bala até Basiléia, uma arrumadinha cidade-sede de indústria farmacêutica às margens verdejantes do Reno. A 38a Art Basel, maior feira mundial de arte contemporânea, estará exaurindo sua atmosfera de comércio e afetação, com negociantes e consultores se imiscuindo pela cidade em BMWs balançando talões de cheques e cartões de crédito com tarja preta.

Essa feira movimenta muitos negócios entre 300 das maiores galerias de 30 países, todas concentradas no amplo pavilhão de exposições Messe Basel. Se você se cansar de todo esse agito e das negociações, vá para um dos museus-butique nos arredores da cidade. A Fundação Beyeler (Baselstrasse 101; 41-61-645-97 00; www.beyeler.com) é luxo puro com seus jardins e uma impressionante coleção de arte moderna, que vai de Picasso a Calder. Ou então você também pode ir para a Schaulager, outra fundação privada dedicada às artes, abrigada num impressionante galpão com design de Herzog & de Meuron (Ruchfeldstrasse 19; 41-61-335-3232; www.schaulager.org). Por lá acontece uma exposição do escultor americano Robert Gober até 14 de outubro.

Depois de Basiléia, a 12a Documenta quase que irá parecer como um descanso. Acontece a cada cinco anos em Kassel - pitoresca cidade reconstruída nos anos cinqüenta após severo bombardeio dos aliados. A Documenta traz bem o oposto da frenética atmosfera de negócios e dinheiro que ocorre nas duas outras exposições já descritas. Sua abertura de gala, por exemplo, é uma noite de boca-livre nas colinas de um parque com música ao vivo e picnic.

Inaugurada em 1955 para apresentar a arte que havia sido reprimida sob o regime nazista, a Documenta esse ano tem como tema desenvolvido por sua curadoria um assunto político e auto-reflexivo. Em vez de ostentar um título etéreo, a exposição esse ano organizada pelos curadores Roger M. Buergel e Ruth Noack propõe três questões filosóficas, incluindo: "Será que a modernidade é a nossa antigüidade?"

A exposição - que traz 120 artistas, do Congo a Austrália - proporciona a visão de um outsider em relação ao mundo da arte comercial. Para manter um elemento de surpresa, a Documenta não revela a lista de artistas até a véspera da inauguração. Mas ao final de abril já era possível ver a preparação de um parque para o plantio de papoulas afegãs e vários artistas zanzando por lá com seus laminados e cadernos.

Entre os participantes mais conhecidos está Sakarin Krue-On da Tailândia, que está criando um arrozal como os do sudeste asiático numa colina perto de um palácio do século 18, feito uma peça de earth-art em ampla escala retratando um choque cultural.

E tem mais. Acontecendo ao mesmo tempo em que ocorre a Documenta, os Projetos de Escultura de Munster transformam toda uma cidade numa gigantesca galeria.

Os 36 artistas - incluindo Rosemarie Trockel, Jeremy Deller e Hammons - foram incumbidos de criar instalações especificamente localizadas pelos curadores Brigitte Franzen, Carina Plath e Kasper Koenig, que foi um dos fundadores da mostra em 1977. A melhor maneira de se apreciar o espetáculo, incluindo o bíblico zoológico de estimação de Mike Kelley perto da estação de trem, é alugar uma bicicleta, com um mapa na mão, e destrinchar a mostra como se fosse um arqueólogo conceitual.

Um fato bem interessante em relação a essa estação de convergência artística é que, com exceção da Art Basel, as outras mostras vão entrar pelo outono europeu adentro. Então, ao menos que você precise muito comparecer à soirée Prada, não há necessidade de enfrentar as hordas de junho, preços inflados nos hotéis e a obrigação de reservas para restaurantes e aviões.

"Eu sempre fico com inveja desses artistas", diverte-se Stefania Bortolami, dona da galeria Bortolami em Nova York, de partida para a maratona artística européia. "Eles verão todas as mostras tranqüilamente em plenos meses de julho e agosto. Isso é como se fosse o paraíso."

O circuito das artes

A Bienal de Veneza (39-041-521-8828, www.labiennale.org) oficialmente vai de 10 de junho a 21 de novembro. Os passes de um dia valem 15 euros, ou cerca de U$ 21 com o euro cotado a U$1,38 (equivalente a pouco mais de R$ 40).
Como chegar lá: Veneza tem um aeroporto internacional.

Art Basel (41-58-200-2020, www.artbasel.com) vai de 13 a 17 de junho. Os passes de um dia saem por 30 francos suíços, ou cerca de U$ 24.
Como chegar lá: Basiléia conta com um pequeno aeroporto; há o aeroporto internacional de Zurique, que fica a uma hora de trem.

A Documenta 12 (49-561-707270, www.documenta12.de) vai de 16 de junho a 23 de setembro. O passe diário sai por 18 euros.
Como chegar lá: Kassel é acessível saindo de trem da maior parte das grandes cidades alemãs.

Os Projetos de Escultura de Munster (49-251-5907-201, www.skulptur-projekte.de) acontecem de 16 de junho a 30 de setembro. Entrada franca.
Como chegar lá: Munster tem um aeroporto e é acessível saindo de trem da maior parte das grandes cidades alemãs. A viagem de trem entre Munster e Kassel dura duas horas.

O Grand Tour (www.grandtour2007.com) é o site oficial para todos esses quatro eventos. Marcelo Godoy

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