UOL Notícias Internacional
 

30/05/2007

Refugiadas iraquianas em dificuldades recorrem à prostituição na Síria

The New York Times
Katherine Zoepf

Em Maraba, Síria
Na casa em que vivia no Iraque, a filha de Umm Hiba era uma garota devota, modesta em seu modo de se vestir e séria em relação aos seus estudos. Hiba, que atualmente tem 16 anos, usava o hijab, o lenço de cabeça islâmico, e se levantava cedo toda manhã para fazer as orações matinais antes de ir para a escola.

Mas isto foi antes das milícias começarem a ameaçar seu bairro em Bagdá e Umm Hiba e sua filha fugirem para a Síria no ano passado. Não havia emprego e o pai idoso de Umm Hiba desenvolveu complicações relacionadas à diabete.

Desesperada, Umm Hiba seguiu o conselho de uma conhecida iraquiana e levou sua filha para trabalhar em um clube noturno em uma estrada, conhecido pela prostituição. "Nós iraquianos costumávamos ser um povo orgulhoso", disse ela em meio ao alto volume das caixas de som do clube.

Ela apontou para sua filha, dançando entre duas dúzias de outras garotas no palco, usando um vestido rosa de seda com franjas, com seus ombros frágeis banhados pela luz colorida.

Enquanto Umm Hiba assistia, um homem de meia-idade subiu na plataforma e começou a dançar agitadamente entre as garotas. "Durante a guerra nós perdemos tudo", ela disse. "Nós perdemos até nossa honra." Ela insistiu em ser identificada apenas por parte de seu nome - Umm Hiba significa mãe de Hiba.

Para qualquer um que vive em Damasco atualmente, o fato de alguns refugiados iraquianos estarem vendendo sexo ou trabalhando em clubes de sexo é difícil de ignorar. Mesmo no centro de Damasco, homens falam abertamente de terem sido abordados por cafetões à caça de clientes do lado de fora de casas de sucos e bancas de sanduíche, e de mulheres abordando diretamente os homens, um ato impensável na cultura árabe, perguntando em árabe com sotaque iraquiano se os homens gostariam de "tomar uma xícara de chá".

De dia, a estrada que leva de Damasco ao convento histórico em Saidnaya costuma ficar congestionada de peregrinos cristãos e muçulmanos, que esperam por um dos milagres atribuídos a um retrato da Virgem Maria no convento. Mas como qualquer motorista de táxi de Damasco pode dizer, o trecho de Maraba desta famosa estrada de peregrinação está rapidamente se tornando mais conhecido pelo forte movimento de prostitutas iraquianas.

Muitas destas mulheres e garotas, incluindo algumas que mal chegaram à adolescência, são refugiadas recentes. Algumas são enganadas ou forçadas a entrar para prostituição, mas a maioria diz que não tem outro meio de sustentar suas famílias. Coletivamente, elas representam um dos sintomas mais visíveis de uma crise de refugiados iraquianos que explodiu na Síria nos últimos meses.

Segundo o alto comissariado americano para refugiados, cerca de 1,2 milhão de refugiados iraquianos atualmente vivem na Síria; o governo sírio diz que o número é ainda maior.

Dada a deterioração da situação econômica destes refugiados, revelou um relatório da ONU no ano passado, muitas garotas e mulheres passando "necessidades graves" se voltam para a prostituição, em segredo ou mesmo com o conhecimento ou envolvimento de parentes. Em muitos casos, acrescentou o relatório, "o chefe da família traz os clientes para casa".

Por mais de três anos após a invasão liderada pelos americanos ao Iraque, em março de 2003, a prostituição iraquiana na Síria, como qualquer outra, era um assunto proibido para o governo sírio. Assim como o vício em drogas, a prostituição tende a ser tratada pela imprensa local como um ato contra a decência pública. Mas Dietrun Guenther, uma representante do escritório em Damasco da agência de refugiados da ONU, disse que o governo finalmente está rompendo seu silêncio sobre o assunto.

"Nós estamos especialmente preocupados com o envolvimento de garotas jovens e por estarem sendo forçadas, até mesmo contrabandeadas para a Síria, em alguns casos", disse Guenther. "Nós temos realizados reuniões especiais com o governo sírio sobre a prostituição." Ela considerou a nova abertura das autoridades "um grande passo".

Mouna Asaad, uma advogada de direitos das mulheres sírias, disse que o governo foi pego desprevenido pela escala da chegada da população de refugiados iraquianos. A Síria não exige visto para cidadãos de países árabes, e seu governo prometeu ajudar os iraquianos necessitados. Mas este país de 19 milhões de habitantes estava mal equipado para lidar com a repentina chegada de centenas de milhares deles, disse Asaad.

"Às vezes você vê famílias inteiras vivendo desta forma, as garotas sendo exploradas pela mãe ou tia", ela disse. "Mas a prostituição não é o único problema. Nossas escolas estão superlotadas e os preços dos serviços, alimentos e transportes também subiram. Nós não dispomos de uma infra-estrutura apropriada para lidar com isto. Nós não temos abrigos ou centros de saúde para atender todas estas mulheres. E devido à situação no Iraque, a Síria está tendo cuidado para não deportar as mulheres."

Grande parte da prostituição semi-organizada ocorre nos arredores da capital, em clubes noturnos conhecidos como cassinos - um eufemismo local, já que não há jogo.

Mas no Al Rawabi, um caro clube noturno em Al Hami, há até mesmo um show com tema iraquiano. Em uma noite recente, garçons traziam travessas de aperitivos: pedaços de papel alumínio dobrados em formato de diamante e cheios de batatas fritas e corações de frango grelhados. Uma banda de 10 músicos fez o aquecimento e um mestre de cerimônias fez a introdução em árabe: "Eu apresento o mel de todos os palcos, a ladra de todos os corações, a garganta mais dourada, a artista glamorosa: Maria!"

Maria, uma jovem viçosa, subiu ao palco e deu início a uma balada lamuriosa. "Depois do Iraque eu não tenho lar", ela cantou. "Eu estou pronta para rastejar de joelhos de volta ao Iraque." Quatro outras mulheres, todas vestindo variações de pele de leopardo, giravam no palco, balançando o cabelo em círculos. As luzes do palco foram ajustadas com filtros coloridos que davam à pele das mulheres um tom esverdeado.

Os clientes do Al Rawabi assistiam Maria calmamente, recostados em suas cadeiras e bebendo Johnnie Walker Black. O grande salão tinha um odor forte de suor misturado a tabaco de maçã. Quando Maria terminou de cantar, ninguém aplaudiu.

Ela pegou o microfone novamente e iniciou o que chamou de saudação ao Iraque, citando muitas das mulheres iraquianas no clube e, indicando uma das mulheres em pele de leopardo que dançaram com ela, agradecendo "especialmente minha melhor amiga, Sahar".

Após as dançarinas deixarem o palco e se espalharem pelo salão para conversar com os clientes, Sahar disse a um visitante que era do bairro de Dora, em Bagdá, mas que teve que partir "por causa dos riscos". Agora, ela disse, ela deixaria o clube com ele por US$ 200.

Os agentes de ajuda humanitária dizem que US$ 50 a US$ 70 é considerado um bom salário por noite para uma prostituta iraquiana trabalhando em Damasco. E algumas das mulheres e garotas iraquianas que dançam nos cassinos lotados dos subúrbios de Damasco ganham muito menos.

Em Maraba, Umm Hiba não disse quanto dinheiro sua filha leva para casa no fim de uma noite. Notando sua relutância, o gerente do clube, que se apresentou como Hassan, interveio orgulhosamente.

"Nós garantimos que toda garota ganhe um mínimo de 500 liras ao fim de cada noite, independente do movimento", ele disse, mencionando uma soma que vale cerca de US$ 10. "Nós nos solidarizamos com a situação do povo iraquiano. E tentamos dar alguma ajuda extra para as garotas cujas famílias estão em dificuldades especiais."

Umm Hiba balançou a cabeça. "É verdade que os gerentes daqui são bons, que nos ajudam e não roubam o dinheiro das meninas", ela disse. "Mas eu ficou tão furiosa. Você acha que estamos felizes com o fato destes homens do golfo estarem vendo os corpos nus de nossas filhas?" George El Khouri Andolfato

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