UOL Notícias Internacional
 

31/05/2007

No Eliseu, um novo Camelot

The New York Times
Elaine Sciolino

Em Paris
Para seus admiradores, os Sarkozy são os Kennedy franceses: o presidente gosta do ar livre e é atlético; a primeira-dama é bela e usa vestidos de estilistas; os filhos, sorridentes e fotogênicos.

Para seus detratores, os Sarkozy são mais parecidos com o ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi e seu clã: exibidos, vulgares, consumistas - mais novos ricos do que dinheiro antigo.

Mary DiBiase Blaich/The New York Times 
Imprensa francesa compara os Sakozy ao casal Kennedy

Certamente, a chegada de Sarkozy ao Palácio do Eliseu, há duas semanas, já provocou mudança radical, inclusive no que os franceses chamam de "popularização" da presidência. Foram-se os mais velhos e formais Chirac, com sua discrição, maneiras impecáveis, estilo antiquado e movimentos em câmera lenta. Em seu lugar está um presidente de 52 anos, armado de ambição crua, um estilo hiperativo e amizade íntima com os mais ricos franceses.

A seu lado - episodicamente - está sua mulher um tanto misteriosa, Cecília, de 49 anos, que o deixou por outro homem no verão de 2005 e voltou meses mais tarde. Ela ficou ausente na maior parte da campanha e não se preocupou em votar no segundo turno decisivo das eleições. Depois, tem os filhos: duas meninas (Judith, 22; Jeanne-Marie, 20) do primeiro casamento dela, dois filhos (Pierre, 22; Jean, 21) do primeiro casamento dele e um (Louis, 10) que tiveram juntos.

Ao menos por enquanto, alguns dos críticos mais ferozes de Sarkozy estão impressionados com sua energia e têm esperanças que até cumpra algumas de suas promessas de reformar a França rapidamente.

Paradoxalmente, os franceses estão prontos para dar um viés mais positivo na "normalidade" da família presidencial e ansiosos em fofocar sobre os rumores mais sombrios. Especular sobre os Sarkozy tornou-se uma brincadeira social popular nos jantares parisienses.

"Eles parecem uma família francesa comum -divorciados, recasados- com todos seus problemas expostos", disse Marie-Pierre Lanelongue, editora da Elle francesa. "Antes, quando o presidente era infiel, todo mundo sabia, mas ninguém falava nada. Aqui tem um grande drama de amor com seus altos e baixos. Todo mundo esta falando sobre a primeira-dama: houve tentativas de suicídio? Por que ela voltou? Não sabemos exatamente, mas queremos saber."

Stephane Bern, jornalista e especialista em realeza francesa e sociedade, chama o fenômeno de "dessacralização" da presidência francesa e acrescenta que vai esperar para dizer se toda essa mudança será melhor ou pior para a França.

O ativismo é o "leitmotiv" dessa presidência. Sarkozy foi descrito como o "coelho da Duracell" da política. Talvez uma comparação mais apta fosse "Alice no país das maravilhas", perpetuamente correndo para um encontro muito importante.

Desde que assumiu o cargo, Sarkozy já viajou para Berlim e Bruxelas, visitou um hospital do exército em Dunkirk, comeu com operários no refeitório da Airbus em Toulouse e fez campanha na Normandia para as eleições parlamentares que se aproximam. Ele recebeu dezenas de visitantes, desde líderes sindicalistas até o emir do Qatar. Ele interrompeu sua corrida durante suas duas viagens a Bregançon, residência oficial presidencial de verão, para apertar as mãos dos locais. Na quinta-feira (31/5), fará uma breve viagem a Madri, Espanha.

Fotógrafos que o acompanham capturaram suas corridas em detalhe. Uma das primeiras fotografias icônicas de sua presidência é dele subindo os degraus do Palácio do Eliseu correndo, com shorts da Nike e tênis. A capa da Le Point da semana passada era uma fotografia de Sarkozy com uma camiseta com o logotipo do departamento de polícia da cidade de Nova York e correndo com o primeiro-ministro François Fillon, que também é piloto de corrida e montanhista.

De fato, Sarkozy usa o "tu" informal em vez do "vós" com colegas e jornalistas. Quando usou "tu" com a chanceler alemã Ângela Merkel, em seu primeiro dia no cargo, entretanto, ela respondeu com um formal "sie".

Seus ministros estão se ajustando à nova informalidade. Duas semanas atrás, quando Sarkozy dirigiu-se a Alain Juppe, um de seus principais ministros e ex-primeiro-ministro da era formal de Chirac, com "tu", Juppe ficou tão aturdido que respondeu com uma formulação confusa, evitando ambas as formas de "você".

O estilo de Sarkozy foi traduzido em um índice de popularidade historicamente alto. De acordo com uma pesquisa publicada no domingo no Le Journal du Dimanche, 65% dos entrevistados estão "satisfeitos" com seu novo presidente, o melhor índice inicial desde o princípio da Quinta República, em 1958, de acordo com o instituto de pesquisa Ifop.

Grande parte de sua popularidade é movida pela mídia nacional. "Kennedy voltou", escreveu o Le Point. "Ele se chama Sarkozy. Nunca um presidente teve uma natureza tão relaxada, tamanha ausência de complexos."

Uma reportagem de quatro páginas na edição mais recente da Elle sobre Cecília Sarkozy (que trabalhou ocasionalmente como modelo da Schiaparelli e Chanel) faz a pergunta: "Algo de Jackie?" O artigo colocava lado a lado fotos das duas primeiras-damas, salientando que Cecília, como Jackie, "é adepta do minimalismo", tem um "estilo prima donna", adota esportes como "uma forma de vida" e "sempre foi casual".

"Conheci Jackie, e Cecília é muito mais casual. As duas porém têm a mesma beleza natural, que permite que vistam o que quiserem", disse à Elle a designer Sonia Rykiel.

O jornal conservador Figaro lançou em sua primeira página na sexta-feira uma pesquisa na Internet sob a manchete: "O estilo Sarkozy seduz os franceses". Segundo a reportagem, 91% dos questionados consideraram seu novo presidente dinâmico, 85% chamaram-no de moderno e 75% disseram que era tranqüilo. Somente 29% acharam-no informal demais.

Ostentar dinheiro é considerado culturalmente vulgar na França; a discrição é respeitada. E se a pesquisa do Figaro for parâmetro, 52% dos franceses acham que Sarkozy é "exibido".

Seu primeiro ato após o anúncio da vitória eleitoral foi jantar com Cecília, outros membros da família e amigos no restaurante turístico Fouquet's, no Champs-Elysees, de propriedade de um grupo empresarial conhecido por seus cassinos. Suas mini-férias de dois dias após as eleições com a mulher e o filho Louis, a bordo de um iate de 190 pés de um amigo bilionário no Mediterrâneo, foi impiedosamente criticada, tanto pela elite política quanto pelo homem comum das ruas.

"Você não pode se identificar com o general de Gaulle e comportar-se como Silvio Berlusconi", escreveu o filósofo Alain Finkiekraut, no Le Monde, e acrescentou: "Por três dias, ele nos envergonhou."

Certamente, os dois Sarkozy parecem resistir ao comportamento tradicional e rejeitar o protocolo presidencial. A capa desta semana da revista popular VSD tinha uma foto tirada no verão passado de Sarkozy com um terno escuro e gravata, camisa branca desabotoada o suficiente para revelar uma corrente de ouro. Cecília Sarkozy usava óculos de aviador enormes, mas sem suficientes roupas de baixo para esconder os contornos de seu corpo.

Ele veste ternos de Christian Dior, óculos Ray-Ban, relógios Breitling e jeans com blazer. Nos últimos dias antes do segundo turno das eleições, ele foi visto com um bracelete de couro trançado.

Na noite de eleição, Cecília usou calças brancas e um suéter casual cinza largo da Lanvin, que ela puxava em uma conversa lateral enquanto seu marido fazia o discurso da vitória.

No dia da posse, Sarkozy, como Jacques Chirac, estava com mocassim franjado - apesar de Sarkozy ser bem mais baixo e seus saltos ao menos 1 cm mais altos. Os dois Sarkozy estavam de Prada: ela com vestido de cetin brilhante de US$ 1.950 (em torno de R$ 4.000) com uma fenda parcial nas costas; ele de terno escuro.

Uma das amigas mais próximas de Cecília Sarkozy é Mathilde Agostinelli, relações públicas e porta-voz da Prada na França, que estava ao seu lado no Fouquet's, em Bregançon há duas semanas e fazendo compras em Saint Tropez. "Cecília tornou-se um pouco como Maria Antonieta, levando todas suas amigas aonde vai", disse Alix Girod de l'Ain, colunista da Elle.

Alguns analistas da política presidencial e estilo acham a analogia com os Kennedy exagerada. "Sarkozy adoraria reviver o mito de Kennedy, mas a comparação é completamente falsa", disse Dominique Wolton, sociólogo do Centro Nacional de Pesquisa Científica. "As pessoas disseram a mesma coisa sobre Valery Giscard d'Estaing, em 1974 - que era muito jovem, muito ativo, muito fácil. O povo francês é inteligente demais para isso. O lustre vai embora."

Isso dito, até Jean-Marie Le Pen, líder da Frente Nacional de extrema direita, parece ter suavizado sua opinião de Sarko, com a nova popularidade do presidente.

Em uma entrevista ao tablóide Le Parisien, no domingo, Le Pen acusou Sarkozy de roubar sua mensagem de direita e de usar "assessores americanos que sabem trabalhar as grandes massas populares". Mas depois, Le Pen confessou: "O homem tem seu charme. E é natural." Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,32
    3,157
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    0,56
    63.760,62
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host