UOL Notícias Internacional
 

03/06/2007

Quando a China se abriu, eu entrei depressa demais

The New York Times
Gretchen Dykstra*
Eu esperei por ele naquela tarde em uma grande sala fria, vigiada por um guarda sentado no alto de uma plataforma de madeira. Quando a porta abriu e ele entrou, seu rosto estava na sombra, mas era muito conhecido. Fazia 15 anos que eu não o via, mas teria reconhecido seu jeito em qualquer lugar.

Ele não levantou os olhos enquanto caminhou em direção à mesa metálica e às quatro cadeiras fixadas ao chão.

"Olá", eu disse nervosamente, estendendo a mão. "Está em forma. Seu cabelo está um pouco grisalho e agora você usa óculos, mas, olhe para mim. Bem, talvez os óculos não sejam novidade. Como posso saber?" Eu tagarelava.

"Você é minha primeira visitante", ele disse finalmente, com voz monótona.

Ele tinha sido um dos meus melhores alunos, um membro da famosa primeira classe de estudantes chineses que se matriculou na faculdade desde que a violenta e retrógrada Revolução Cultural havia fechado faculdades em todo o país, uma década antes. De 1979 a 1981 eu ensinei literatura moderna americana e britânica em uma faculdade de magistério no centro da China, como uma das primeiras americanas convidadas a lecionar quando as faculdades reabriram.

A maioria dos meus alunos era pouco mais jovem que eu, na faixa dos 20.
Depois de se formarem em vários colégios, a maioria deles tinha sido mandada para o campo durante dois, três anos ou mais, para viver com os agricultores, e depois fora designada para trabalhos em fábricas nas cidades. Alguns deles eram mesmo camponeses. Alguns juraram fidelidade ao Partido Comunista. A maioria era cínica, mas todos obedientes.

Ele me intrigou desde o momento em que entrou em meu apartamento certa tarde, com um grupo de estudantes, para me dar as boas-vindas logo depois de minha chegada. Muitos eram risonhos e infantis, nervosos na minha presença, mas ele era silencioso e atento, mais alto que a maioria, e bonito. Alguns cantaram, outros recitaram poemas. Ele tocou violino, e eu, para minha própria surpresa, cantei "The Streets of Laredo". Só Deus sabe por quê. Ele não riu de mim.

No curso, ele era inteligente, com uma sagacidade seca, fazia perguntas profundas, geralmente tentando provocar seus colegas com seu amplo leque de interesses, ou me desafiar, eu pensava. Ele me questionava com intensidade sobre religião ocidental, política americana, costumes estrangeiros, música ocidental e peças esotéricas. Escutava constantemente a BBC e a Voz da América. Gostava das peças de Edward Albee, por sua assimetria, mas detestava Holly Golightly de "Bonequinha de Luxo", que achava imoral e frívola. Havia passado três anos em uma fazenda de chá. Nunca tinha andado num carro particular.

Com o tempo, ele começou a vir sozinho ao meu apartamento, não para me cortejar, mas com uma curiosidade faminta. Eu, no entanto, estava sozinha e me vi lutando contra sentimentos românticos, sabendo que eram inadequados e temendo que lhe causassem problemas. Mal sabia eu quantos.
Havia outra americana no campus e éramos prisioneiras do privilégio em nossos apartamentos de quatro cômodos. Tínhamos os únicos aquecedores do campus, os únicos colchões ocidentais, os únicos ar-condicionados e quatro auxiliares que viviam no andar de baixo e vigiavam estreitamente quem entrava e saía. Nunca tivemos permissão para sair do campus com alguém.

Os líderes do partido começaram a chamá-lo à noite para reuniões a portas fechadas no departamento de línguas estrangeiras. Eles o advertiam sobre o "demônio estrangeiro", sua "influência burguesa", "a sedutora americana".

Chamaram seus pais, ambos membros do partido em uma cidade distante, e lhes falaram sobre sua intransigência e seu envolvimento com uma estrangeira. Eu soube disso por outros. Ele nunca falou a respeito.

Começamos a nos encontrar clandestinamente, tomando ônibus separados para a desolada biblioteca da cidade ou o conservatório musical, onde os alunos tocavam pianos desafinados. Em uma cidade de 5 milhões de habitantes, eu pensava que não seria notada. Eu, um dos sete estrangeiros que viviam na cidade na época -como fui tola! Mais tarde, na primavera, nos encontrávamos à noite nos caminhos entre os arrozais atrás dos dormitórios, acariciando-nos desajeitados. Eu me acostumei ao cheiro da terra à noite.

Quando voltei aos EUA, no verão, consegui arranjar duas bolsas de estudos para meus alunos em faculdades americanas, as primeiras bolsas dadas a professores ou estudantes daquela pequena faculdade pouco conhecida. Meu amigo, como o melhor aluno de inglês, seria um candidato provável se não se metesse em problemas. Eu imaginei que poderíamos testar a profundidade de nossa relação sob as condições muito mais tolerantes da América.

E assim, no outono, quando voltei à China, temendo as fofocas e como elas poderiam prejudicar as probabilidades de ele estudar no estrangeiro, inventamos subterfúgios. Eu menti e disse aos líderes da faculdade que havia me casado no verão, dando detalhes sobre um casamento simples e um marido triste mas compreensivo que não pôde deixar seu emprego.

Nas aulas, ele e eu nos ignorávamos e não íamos mais tanto para o meu apartamento. Mantínhamos distância para que pudéssemos ficar juntos no futuro. Nos fins de semana, nos encontrávamos em um pomar longe da faculdade onde ninguém nos via, exceto alguns camponeses, que, como ele explicou, não se importavam muito com os regulamentos estatais.

Mas as lacunas culturais entre nós começaram a surgir. Eu queria ser franca e contar aos líderes sobre nosso relacionamento, pensando que poderíamos combater o sistema. Ele queria continuar com os encontros furtivos e correr os riscos.

Por eu não saber dos problemas que já tinha causado, por sermos idealistas e sabermos tão pouco um do outro, nosso relacionamento começou a fraquejar. Eu temia que sua obediência bloqueasse sua paixão. Preocupava-me que o relacionamento não suportasse a liberdade do Ocidente. Temia que a paixão fosse só minha.

Os líderes do partido permitiram que ele se matriculasse e aceitasse a bolsa que eu havia conseguido, e eu parti acreditando que ele viria para os EUA.

Mas fazia apenas algumas semanas que eu havia voltado para Nova York quando comecei a receber cartas de ex-alunos, contando que os líderes me criticavam e ao meu amigo nas reuniões semanais de estudos políticos. Então soube que não lhe haviam dado permissão para tirar um visto, afastando-o da bolsa.

No verão seguinte voltei à China por dez dias para ver meus ex-alunos e virar de vez a página da China.

Os líderes da faculdade ficaram surpresos ao saber que eu estava de volta, pois estrangeiros não tinham permissão para viajar sozinhos à China naquela época. Através de meu antigo intérprete, eles me convidaram para o campus certa tarde, insistindo em me apanhar com o único carro da faculdade.

Enquanto nos deslocamos diretamente para a porta da sala de aula, percebi com inquietação que o campus estava vazio. Perguntei-me se todos teriam recebido ordem para não sair naquele dia. Quando andei até a sala, que havia sido construída especificamente para mim, fui recebida por um grupo de autoridades de alto nível da faculdade e do partido, que sorriam educada mas rigidamente. A escassez de refrescos revelou a história toda -eles não estavam contentes em me ver.

Dez minutos depois a porta lateral se abriu e meu amigo entrou. O reitor, fingindo surpresa, o cumprimentou e me perguntou com hipocrisia se eu me lembrava dele. Meu amigo e eu nos demos as mãos, trocamos gentilezas inexpressivamente, e então ele pediu desculpas, dizendo que precisava voltar ao trabalho.

As autoridades sorriram, claramente satisfeitas com sua demonstração de poder sobre nós.

Eu não esperava vê-lo novamente. Às vezes ouvia falar dele por outros alunos. Depois que ele se formou, foi nomeado professor de inglês na faculdade e galgou a hierarquia do departamento. Casou-se e teve um filho.

Depois de dez anos recebeu autorização para estudar na Inglaterra.
Eu estava casada e trabalhando em Nova York quando recebi uma carta de meu antigo intérprete, dizendo que meu amigo estava preso na Inglaterra por ter assassinado sua mulher. Incrédula, enviei-lhe um bilhete aos cuidados do superintendente das prisões britânicas, e logo recebi uma carta de resposta, cheia de referências a raiva, culpa, Deus, confusão e enfermeiras solícitas.

Meses depois, estando a negócios na Inglaterra, procurei-o numa prisão de baixa segurança ao norte de Londres, e de repente lá estávamos nos cumprimentando, evitando estranhamente o único tema inevitável.
Começando do começo, ele me contou sua versão do que havia acontecido.

Sua mulher chinesa, que não falava inglês, sentia-se perdida e entediada na Inglaterra. Ela se preocupava com a falta de documentos permanentes e armou um plano pelo qual eles se divorciariam e ela se casaria com um inglês que morava no andar de cima, tornando-se cidadã, se divorciaria de novo, casaria novamente com ele e tudo ficaria bem.

Na verdade, ela já estava dormindo com o vizinho de cima, e zombou do meu amigo quando ele descobriu, atormentando-o com histórias sobre outros amantes que tivera na China, rindo de sua inocência. Eles lutaram, e ele a estrangulou com uma corda que usavam para brincar com seu filho, que estava dormindo no quarto ao lado.

Ele foi considerado culpado de um crime de paixão e condenado a três anos de prisão. Ao explicar a pena curta, disse: "Eles não se importam que um chinês mate uma chinesa".

"Por que iriam sustentá-lo na prisão?", perguntei. "Você será deportado e eles se livrarão de você."

Eu estava enganada. Ele serviu menos de dois anos e não foi deportado.
Escreveu-me quando foi libertado, agradecendo pela visita. Eu havia sido a única.

Hoje nos comunicamos por e-mail. Ele ainda vive na Inglaterra, onde trabalha como cozinheiro em um restaurante chinês barato. Conheceu e se apaixonou por uma jovem chinesa que sabe de seu passado, e juntos tiveram uma menina. Seu filho, hoje com 22 anos, foi criado pelos avós maternos na China e em breve se formará numa das universidades de elite do país. Eles se correspondem.

Gosto de ter notícias dele, e penso sobre minha indiscrição juvenil e a ingenuidade americana. Penso nas incompreensões entre Oriente e Ocidente e nos intermináveis cismas, os gestos incompreendidos e a divisão cultural e política que nos afastaram. Penso como fui rápida para amar e quão pouco sabia sobre ele.

E lembro de quando me despedi naquela tarde na prisão do homem com quem eu quis me casar, o homem que eu temia não fosse apaixonado o suficiente, meu amigo que assassinou sua mulher.

*Gretchen Dykstra vive e trabalha em Nova York Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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