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04/06/2007

Nos EUA, programa de rádio "Fair Game" busca geração mais jovem de ouvintes

The New York Times
Stuart Miller
Bill Bradley, o ex-senador, estava na estação de rádio pública discutindo seriamente a forma como os políticos se comunicam com os norte-americanos quando a entrevistadora Faith Salie indagou: "Se Thomas Jefferson tivesse um blog, o que ele estaria escrevendo neste momento?".

Não se tratava de uma tirada no estilo de um H.L. Mencken, um Groucho Marx ou mesmo de um Jon Stewart, mas também não foi aquele tipo de comentário que é o estereótipo em se tratando de um entrevistador de uma estação pública de rádio. A pergunta foi feita com voz calma e dominante, quase solene. E esta é a questão: o programa "Fair Game" não está buscando os mesmos velhos ouvintes, mas uma nova geração de indivíduos entre 25 e 44 anos de idade.

"Havia indicações de que pessoas altamente educadas de mais de 30 anos não estavam sintonizadas na rádio pública", diz Melinda Ward, vice-presidente de conteúdo da Public Radio International, a distribuidora do programa. Uma outra meta era ampliar a audiência à noite, quando a rádio pública é fraca.

"Fair Game", que fez a sua estréia em janeiro deste ano, vai ao ar nas noites dos fins de semana às 20h em Nova York (na WNYC-AM) e em vários outros horários em mais de 20 outras estações.

A criadora e produtora-executiva do programa, Kerrie Hillman, pesquisou clubes de comédia e fitas de vídeo e áudio antes de encontrar Salie.
"Encontrar alguém que fosse engraçada mas ao mesmo tempo inteligente foi realmente difícil, especialmente porque eu queria evitar o cinismo prepotente", conta Hillman.

O currículo eclético de Salie, 36, não inclui o jornalismo. Ela se formou com destaque em Harvard, passou pela Universidade de Oxford como bolsista da Rhodes Scholarship, e a seguir foi para Hollywood para atuar como atriz, tendo participado de trabalhos como "Married With Children", "Deep Space Nine" (como uma cyborg) e "50 Most Awesomely Bad Songs". Mas a sua falta de experiência como entrevistadora não desencorajou a Public Radio International, conta Ward, que afirma: "Salie não tem medo de formular a pergunta inesperada. Ela faz com que pessoas tradicionalmente sisudas, como cientistas e acadêmicos, acabem rindo, e o resultado disso é que eles acabam tendo uma aparência mais humana".

"Fair Game" tem início com Salie e uma sessão na qual são dissecados diversos tópicos sob os mais diversos ângulos. Existem também segmentos como "Thank You, State Department" ("Obrigado, Departamento de Estado"), que revela, por exemplo, que um agricultor filipino que tentava doar um rim a um parente teve a sua entrada nos Estados Unidos negada, devido ao temor de que ele pudesse "gostar demais da América" e permanecer no país.

Mas a sensibilidade do programa é definida, em última instância, pelas entrevistas e pela própria Salie. Entre os convidados que participaram estão jornalistas como Peter Beinart, do "New Republic", discutindo a questão do Iraque. As entrevistas mais memoráveis são atípicas ou focadas em coisas nas quais não se costuma prestar a devida atenção. Por exemplo, uma conversa com um cineasta especialista em documentários que fala a respeito de máquinas de fliperama, ou com um especialista em carência de órgãos para transplante. E Salie é rápida para dar uma resposta rápida ou fazer uma piada (ao fazer um comentário sobre o interminável inquérito parlamentar referente aos juízes federais dos Estados Unidos ela propôs que se rebatizasse o Quatro de Julho de Dia Nacional do Estágio Intermediário da Audiência de Gonzales).

O que faz com que ela se destaque na rádio pública é a sua postura simples. Ela não segura exclamações genuínas (leia-se "não jornalísticas") de assombro ou alegria como "Ah, meu Deus".

"Não quero dizer: 'Sou uma personalidade do universo da rádio pública e, portanto, preciso ser imperturbável. Sou apenas uma intermediária do ouvinte", afirma Salie.

"Fair Game" está consolidando-se no universo altamente tradicional da rádio pública, mas de forma vagarosa. Um porta-voz da WNYC disse que o novo programa aumentou o índice de audiência no horário em que vai ao ar, mas não forneceu números específicos. Na estação KERA, em Dallas, "Fair Game" substitui o "BBC World Service" às 23h, e fez com que o índice de audiência aumentasse 58%. A KERA inicialmente ouviu reclamações de pessoas que sentiam saudade da BBC, conta o diretor de programas da estação, Jeff Ramirez. "Mas agora a principal reclamação é a das pessoas que desejam que o programa seja transmitido mais cedo", diz Ramirez.

Ir ao ar mais cedo - ou simplesmente chegar a ser transmitido - continua sendo um grande obstáculo para "Fair Game", assim como para qualquer novo programa de rádio pública (incluindo um programa matinal que a Public Radio International está desenvolvendo, voltado para o mesmo perfil de ouvinte, e um outro que a National Public Radio também está testando). Em Baltimore, Andy Bienstock, diretor de programação da WYPR, disse que só ouviu bons comentários sobre "Fair Game" e que "adoraria introduzi-lo na sua emissora, mas não tem espaço para ele".

As estações de rádio públicas contam com uma flexibilidade de programação limitada, em parte porque várias delas dedicam horas à música clássica, mas especialmente porque elas detestam tirar do ar programas já consolidados.

"Os ouvintes contribuem financeiramente, de forma que eles têm uma sensação de que são co-proprietários", explica Mark McDonald, diretor de programação da WAMU, em Washington. "Substituir um programa estabelecido por algo de novo e experimental é muito arriscado".

A solução de longo prazo pode ser a rádio de alta definição, que permite que as estações acrescentem canais digitais. Por exemplo, a WABE, de Atlanta, atualmente não apresenta o "Fair Game", mas o novo diretor da estação, Kerry Swanson, diz que o programa está no topo da sua lista para ser acrescentado à sua atual estrutura digital.

Mesmo assim, Swanson diz que demorará pelo menos dois anos até que a rádio de alta definição se torne comum em todos os Estados Unidos. Neste ínterim, "Fair Game" continua evoluindo. Os diretores do programa dizem que os seus criadores os consultam com freqüência. "No início eles estavam colocando tudo o que podiam no ar", conta Ramirez. Agora existem menos segmentos e o programa parece estar mais focado. Salie admite que o fato de adotar uma abordagem cômica em vez de jornalística gera uma certa tensão. Mas ela diz: "Estou aprendendo a deixar os ouvintes escutarem o entrevistado e tomarem as suas próprias decisões". UOL

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