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07/06/2007

Menopausa deixa de ser tabu em conversas sociais

The New York Times
Elizabeth Hayt

Em Nova York
Eram 8 horas da manhã de uma sexta-feira e Deb Caruana, 51, uma "personal trainer" em Manhattan, tinha terminado os exercícios com dois clientes, Jackie Greenberg, uma decoradora na faixa dos 30 anos, e seu pai, Ronald Greenberg, 59, um negociante de arte. Os três estavam conversando quando Caruana, que está na menopausa, de repente declarou: "Estou sentindo um calorão!"

Tony Cenicola/The New York Times 
Produtos são lançados no mercado para tentar discutir a menopausa com bom humor

A conversa murchou até parar, seguindo-se de risos sem graça.
"Foi estranho, mas depois foi engraçado", disse Greenberg. "Eu tive uma reação retardada: 'Ela realmente disse isso na frente do meu pai?'" Mas Caruana não sentiu vergonha. "Por que esconder?", ela disse mais tarde sobre o episódio, que aconteceu em março. "Eu chamo minha menopausa de meu 'distintivo vermelho de coragem'. As pessoas riem. Nunca ficam ofendidas."

Trinta e cinco anos atrás, os telespectadores ficaram chocados com um episódio de "All in the Family", quando a normalmente tímida Edith Bunker causou uma confusão para todos ao seu redor por causa de um estado que eles delicadamente chamavam de "mudança de vida". Mas hoje em dia, entre pessoas de certa idade, as referências à menopausa têm tanta probabilidade de surgir durante um jantar quanto comentários sobre o buquê do vinho.

"Cinco anos atrás as mulheres guardavam isso para si mesmas", disse Greenberg, que ficou surpresa com Caruana. "As mulheres que se sentiam inibidas não se sentem mais. Elas são honestas sobre coisas que antes não falavam."

Mais que isso, porém, muitas mulheres estão ostentando seus sintomas de menopausa. Se não estão em erupção no calor do momento, literalmente, estão fazendo piadas, adotando uma gíria de gênero composta de comentários bem-humorados e pontilhada por piscadelas e gestos. "A reação de pisca-pisca é uma maneira de dizer: 'Eu sei o que é isso, amiga'", disse Jeanie Linders, 58, compositora e letrista de "Menopause: The Musical". A peça cômica, com canções como "Ficando acordada / Suores noturnos" e "Pingando e despencando", estreou em Nova York em 2001 e desde então foi produzida em 150 cidades de nove países, com um público de 8 milhões de pessoas.

E as brincadeiras não se limitam aos amigos. Em dezembro passado, Beverly Mahone, 49, de Durham, Carolina do Norte, teve um surto de calor em uma longa fila de supermercado. Puxando loucamente a frente de sua blusa para se refrescar e reclamando em voz alta sobre a lentidão do caixa, Mahone disse que exclamou para a mulher atrás dela: "Menina, estou tendo um momento aqui, e ela precisa se apressar para eu poder sair desta m...!" "Eu sei o que você está sentindo", disse a mulher com compaixão. Então duas outras que estavam à frente de Mahone perceberam que ela estava se abanando freneticamente e riram com simpatia.

Mais tarde no estacionamento, ela disse, o grupo discutiu a terapia de reposição hormonal em comparação com remédios de ervas, e Mahone, autora de "Whatever! A Baby Boomer's Journey into Middle Age" [Sei lá! A jornada de uma 'baby-boomer' para a meia-idade], distribuiu seu cartão de visita para as mulheres, que prometeram comprar o livro.
"Isso abre todo um diálogo", disse Mahone. "Estamos rindo e fazendo as mulheres que se sentem menos confortáveis saberem que está tudo bem. É nosso clube exclusivo."

Em Nova York em fevereiro passado, uma sessão semelhante de amizade instantânea ocorreu no consultório do cirurgião plástico Alan Matarasso, na Park Avenue. Quatro mulheres na casa dos 40 e muitos a 50 e poucos, todas estranhas, estavam sentadas em silêncio na sala de espera, até que uma delas, Joanna Bonaro, 42, uma atriz, foi chamada para preencher sua ficha.

Ela começou a conversar com a gerente, Lisa Holderby, 46, que mencionou que recentemente havia passado por uma histerectomia, o que pode provocar a menopausa. Coincidentemente, Bonaro também havia passado por isso. Em poucos minutos as duas outras mulheres entraram na conversa.
"Começamos a falar sobre os calores e ter de levar camisetas extras por causa do suor", disse Holderby. Ela se lembrou de quando essas conversas eram tão inéditas que nem as mães falavam sobre o assunto com suas filhas.

Mas, segundo o Departamento do Censo dos EUA, cerca de 21 milhões de mulheres estão entre as idades de 45 e 59, faixa em que a menopausa geralmente começa e termina. Elas formam quase 20% das mulheres americanas e quase 7% da população total.

Por isso é muito comum escutar uma mulher de meia-idade reclamando sobre a falta de ar-condicionado num restaurante em pleno inverno.
E diante da abertura e até do exibicionismo atuais - incluindo livros de memórias que contam tudo, blogs diários e o YouTube - uma condição pessoal que é comum e natural não é motivo para discrição, segundo muitas mulheres.

De fato, enquanto assuntos muito mais privativos - disfunção erétil, próstatas inchadas, doenças sexualmente transmissíveis - são comentadas em novelas e comerciais, não parece ousado falar sobre os lapsos de memória da menopausa.

Cerca de 15 anos depois de "The Silent Passage" [A Passagem silenciosa], de Gail Sheehy, ter-se tornado um best-seller, algumas mulheres estão desafiando as convenções sociais e no trabalho e tornando-se totalmente desinibidas.

Na biblioteca North Suburban em Illinois, cerca da metade das 40 funcionárias mulheres estão no que elas chamam de "zona quente". Na filial da biblioteca em Roscoe, algumas tomaram conta de uma sala de computador que é refrigerada a 18 graus e a apelidaram de "Sala dos Calores".

"Todas achamos engraçado", disse Melody Newton, 56, uma funcionária. "É uma coisa de grupo. Todo mundo é realmente aberto sobre isso."
Recentemente, Diane Jacobson, 48, outra funcionária, colocou na porta da sala um cartaz do livro "The Hot Flash Club", de Nancy Thayer [O clube dos calores], sobre quatro amigas na menopausa.
O tema hoje não conhece limites, mesmo em ambientes menos prováveis.

Para que não haja dúvida, considere isto: no outono passado, no serviço memorial para Ann Richards, a ex-governadora do Texas, sua amiga Liz Smith, a colunista de fofocas, contou para uma platéia de luminares -incluindo o casal Clinton- sobre a noite em 2005 em que Richards mencionou a palavra "m" em uma festa de gala.

Em uma mensagem eletrônica, Smith disse que o evento inaugurou a Women's Voices for Change [Vozes de Mulheres por Mudanças], uma organização que promove atitudes positivas em relação às mulheres de mais de 40 anos e à menopausa em particular. Entre os poucos convidados homens na festa, apelidada de "baile da menopausa", estava Vernon Jordan, o poderoso corretor e advogado. "Não acho que Vernon tenha manifestado qualquer interesse por mulheres na menopausa antes daquela noite", Smith lembra que disse em seu discurso.

Milhões de pessoas que assistiam à TV C-Span "caíram da cadeira de tanto rir", escreveu Smith, lembrando a reação à sua anedota. "Elas não estavam rindo da menopausa. Estavam rindo porque a menopausa saiu do armário e estava causando riso em pessoas como Vernon Jordan. Isso é um verdadeiro progresso!" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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