UOL Notícias Internacional
 

09/06/2007

Na Bienal de Veneza, arte dura com um centro doce

The New York Times
Randy Kennedy

Em Veneza, Itália
O artista Felix Gonzalez-Torres, que morreu de Aids em 1996, aos 38 anos, não tinha exatamente um perfil de agente secreto, infiltrado nas fileiras inimigas. Ele era um homem generoso, com um rosto belo de querubim, e um ótimo senso de humor. Ele adorava gatos. E algumas de suas obras mais conhecidas são feitas de balas, montes delas, que as pessoas podem pegar e são repostas infinitamente, uma visão Willy Wonka do pós-minimalismo.

Librado Romero/The New York Times 
As piscinas de Gonzalez-Torres refletem expressões de afinidade e união homossexual

Gonzalez-Torres, entretanto, também acreditava firmemente que toda arte é política, quisesse ou não. Ele sabia que a sua era e que, para que fosse eficaz, não queria pregar demais ou se expor demais. "De todas as medidas políticas, as mais bem sucedidas são as que não parecem 'políticas'", disse certa vez.

Tal estratégia poderia ser chamada de subversiva. Também se pode dizer que funcionava em muitos níveis: do doce como doce, como objeto de arte, como questionamento de objetos de arte, como metáfora da mortalidade e da degradação na era da Aids, como meio de sua arte e de suas idéias serem literalmente disseminadas, como um vírus - ou talvez como alegria - por todos que pegassem um pedaço.

Independentemente de como é vista sua arte, Gonzalez-Torres sem dúvida teria considerado uma enorme vitória que fosse exibida aqui, a partir deste domingo (10/5), como representante oficial dos EUA na 52ª Bienal de Veneza. Esse era o tipo de golpe no status quo que ele apreciava. E como seu trabalho freqüentemente lidava diretamente com a realidade da morte, inclusive a sua, talvez ficasse contente por ter conseguido tal feito sem nem estar vivo, dizem as pessoas que o conheceram. (Ele é apenas o segundo artista a representar os EUA postumamente na Bienal em sua história moderna; o trabalho de Robert Smithson foi escolhido para a mostra de 1982, nove anos após sua morte).

"Fiquei chocada por ele ter sido escolhido, francamente", disse Nancy Spector, principal curadora do museu Solomon R. Guggenheim, cuja proposta foi selecionada em uma competição aberta no ano passado por um comitê de curadores, diretores de museus e artistas que assessoram o Departamento de Estado.

Gonzalez-Torres, que nasceu em Cuba e foi criado em Porto Rico antes de mudar-se para Nova York, tinha um amor complicado, mas declarado, pelos EUA e os ideais que representava. Seu trabalho era freqüentemente uma forma de expressar seu desapontamento amargo quando sentiu que o país estava fracassando nesses ideais, durante os primeiros dias da Aids, a Guerra do Golfo e as presidências de Ronald Reagan e do primeiro George Bush, uma época em que ele temia que as liberdades civis e outras proteções democráticas estavam sendo erodidas.

Spector, curadora da mostra do pavilhão americano de estilo paladino, disse que escolheu Gonzalez-Torres como seu candidato da Bienal em parte porque seu trabalho tinha se tornado mais influente desde sua morte, inspirando muitos jovens artistas proeminentes como Pierre Huyghe, Rirkrit Tiravanija e Tino Sehgal.

E o trabalho parece mais relevante hoje, disse Spector, com a guerra no Iraque e batalhas internas sobre a espionagem do governo, casamento gay e concentração de renda nos EUA.

As obras que Spector escolheu incluem muitos de seus principais sucessos: uma cachoeira de doces; pilhas de papel em formatos de cubos, que também podem ser levados e são repostos até a altura ideal; fios de luz de 15W em cascata, que podem ser arrumados da forma que o curador preferir. Entretanto, muitas das peças também são duras, entre as suas mais estridentemente polêmicas.

Uma pilha de papéis, com pedaços brancos de margem preta como anúncios de funerais, é chamada de "Sem título (Anos Republicanos)", de 1992. Duas outras pilhas, de 1989, trazem as palavras digitadas "Memorial Day Weekend" e "Veterans Day Sale" (final de semana do dia do memorial e liquidação do dia dos veteranos) (Gonzalez-Torres, que pensava nessas pilhas como antimonumentos, disse que a idéia das duas frases surgiu quando leu o jornal e pensou que: "Em nossa cultura não celebramos mais eventos históricos em praça pública -vamos às compras").

Enquanto algumas de suas cachoeiras e pilhas são compostas de chocolates cobertos de prata ou balas duras coloridas alegremente, o carpete que cobre o chão em uma ala do pavilhão americano, chamado "Sem Título (Opinião Pública)", é feito de pedaços de alcaçuz cinza com formatos vagos de mísseis.

A maior obra nesta exibição, concebida por Gonzalez-Torres durante sua vida, mas que nunca tinha sido feita, não parece ter tons políticos. Dominando o jardim na frente do pavilhão, estão duas piscinas circulares rasas que se tocam, formando um oito. As piscinas, de 8 a 10 toneladas cada uma, são feitas de peças inteiras de mármore Carrara, o mesmo tipo usado por Michelangelo. (São as maiores peças tiradas intactas de uma pedreira específica no norte da Toscana desde 1523, de acordo com o fornecedor de pedras da mostra.)

As piscinas chegaram ao pavilhão na segunda-feira, presas em um trânsito caracteristicamente italiano e atrasadas por problemas burocráticos em seu caminho a Veneza. "Estávamos começando a ficar preocupados", disse Spector.

Enquanto ela e os assistentes faziam os últimos ajustes da exibição na tarde de terça-feira, as piscinas foram enchidas pela primeira vez, e a água quase transbordando refletia a luz do sol, enquanto flores amarelas de uma árvore caíam na superfície.

As piscinas, porém, são mais do que simplesmente belas, ecoando outros objetos duplos que Gonzalez-Torres fez como expressões de afinidade e união homossexual, como um par de espelhos redondos ou um par de relógios sincronizados, também se tocando, chamado "Sem Título (Amantes Perfeitos)" ele achava esses trabalhos mais poderosos porque se recusavam a entrar na discussão nos termos dos críticos.

"Dois relógios lado a lado são muito mais ameaçadores aos poderes do que a imagem de dois homens" fazendo sexo oral, escreveu (apesar de usar uma expressão muito mais crua.)

É claro que muitos dos peregrinos da arte e turistas que passarão pelas piscinas até o dia 21, quando terminará a Bienal, não pensarão em sexo ou política. "São bonitas e acho que as pessoas provavelmente vão jogar moedas nelas, ou até entrar dentro delas se estiver quente", disse Spector rindo. "Eu não me incomodaria." Deborah Weinberg

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