UOL Notícias Internacional
 

09/06/2007

Um Castro luta para abrir as opiniões da sociedade cubana sobre sexo

The New York Times
Marc Lacey

Em Havana
Cerca de 20 travestis sentados em um círculo discutiam recentemente seus problemas: os maus-tratos, os problemas com namorados, o desafio de depilar as pernas. Conversando com eles estava Mariela Castro Espín, a principal sexóloga de Cuba. "Eu sei, eu sei", ela disse, colocando sua mão em uma de suas próprias pernas para mostrar que os entendia perfeitamente.

Jose Goitia/The New York Times 
A filha de Raul (de camisa) diz que defender sua posição junto ao tio Fidel é o mais difícil

Então a conversa deu uma guinada interessante. Os travestis, que estão recebendo treinamento como conselheiros de Aids no Centro Nacional de Educação Sexual, que é dirigido por Castro, abordaram os relacionamentos que alguns deles mantinham com soldados. Talvez aconselhamento nos quartéis era necessário, disseram os travestis.

Mariela Castro sorriu, ergueu as sobrancelhas, mas não desdenhou a sugestão indevida. A homossexualidade é ilegal nas forças armadas de Cuba. De fato, alguns cubanos evitam o serviço militar alegando serem gays.

O que torna a proposta ainda mais delicada, como sabem todos no círculo, é o fato de Mariela Castro, 44 anos, ser filha de Raul Castro, o comandante das forças armadas de Cuba e, com os recentes problemas de saúde de seu irmão, Fidel Castro, o líder temporário do governo.

Mas, apesar de Mariela pertencer à família mais famosa de Cuba, ninguém parece segurar a língua ao lado dela. Apesar de seu pai ser conhecido pelo aspecto sério e rigidez, Mariela tem um ar mais pé no chão. Mãe de três filhos e casada com um fotógrafo italiano ela fala de assuntos que poderiam fazer outros corar.

"A sexualidade não tem apenas função reprodutiva", ela declarou em uma entrevista na varanda da frente de uma mansão em Havana, notando que o sexo também envolve amor, prazer, descoberta e experimentação. "Os seres humanos são muito mais diversos do que pensamos."

Cuba, como muitas ilhas no Caribe, é um local sexualmente liberal onde os relacionamentos fora do casamento são comuns e parece haver poucos tabus, mas apenas nos relacionamentos heterossexuais. A homossexualidade, o travestismo e a transexualismo, no entanto, fazem parte de outro assunto.

Historicamente, os gays de Cuba experimentaram a ira do governo, com muitos enviados para campos de trabalho. O clima melhorou bastante nos últimos anos, a maioria parece concordar. Ainda assim, os travestis continuam se queixando de maus-tratos pela polícia, e aqueles que têm Aids continuam estigmatizados, o que torna os programas de prevenção um desafio.

"Eu sugiro que você dê uma caminhada por La Rampa para ver quão livremente as pessoas expressam sua orientação sexual", disse Mariela Castro, mencionando o popular ponto de encontro para os gays em Havana. "Isto não significa que não temos que trabalhar na arena política e na educação de toda a sociedade."

Mariela Castro disse que não sentiu pressão para entrar na política. Ela estudou psicologia na faculdade, ela disse, e atualmente está na linha de frente do esforço de Cuba para tornar o sexo, em toda sua variedade, um assunto tão natural de discussão quanto é um ato físico. Seu centro ajudou a produzir uma novela na televisão estatal no ano passado que exibia um homem casado descobrindo ter atração por outros homens. Foi imensamente popular.

Atualmente ela está escrevendo sua dissertação de doutorado sobre o travestismo e também está lutando por uma reforma nas leis cubanas para que, entre outras coisas, o sistema de saúde público dê cobertura à cirurgia para os transexuais e que novos documentos de identidade sejam emitidos após a operação.

Um painel do governo já analisa os casos individuais daqueles que desejam mudar de sexo e encaminha alguns transexuais para terapia e tratamento hormonal. Atualmente, 26 transexuais foram aprovados para tratamento pelo comitê, com outros 50 sob análise, disse Mariela.

Ela se lembrou de seu desconforto há vários anos quando alguns travestis a abordaram para pedir conselhos no centro sobre a dificuldade deles com as autoridades. "No início, eu não os entendia", ela disse.

Mas quanto mais escutava, mais ela começou a acreditar que o Estado comunista de Cuba, no qual ela acredita firmemente, precisava aceitar os travestis como camaradas da mesma forma que todas as demais pessoas.

Nenhum assunto relacionado a sexo está fora dos limites na publicação do centro, "Sexología y Sociedad", que exibe arte e poesia com temas sexuais e artigos acadêmicos que lidam com assuntos como discriminação aos gays, violência doméstica e terapia hormonal para transexuais.

A revista dela publica pesquisa de cientistas de todas as partes do mundo independente da relação de seus países com Cuba. Isto significa que pesquisa americana sobre sexo às vezes encontra espaço nas páginas da "Sexología y Sociedad".

Mariela Castro participou de uma conferência de sexologia na Califórnia há vários anos, que foi sua única viagem aos Estados Unidos. Uma nova viagem parece improvável tão cedo, ela disse com um sorriso e um meneio de ombros, já que não consegue obter um visto.

Ela tem duas irmãs e um irmão e insistiu que seu sobrenome "não ajuda em nada". Pelo contrário, ela disse, pois quando tentou trabalhar com os militares cubanos, os comandantes ficaram tão preocupados com nepotismo que não cooperavam.

Mas Mariela Castro reconheceu ter acesso ao alto escalão da burocracia cubana, o que certamente não atrapalha o esforço de promover sua agenda.

Ela disse que coloca uma cópia da revista de seu centro na mesa de cabeceira de seu pai e o informa sobre seu trabalho sempre que pode. "Ele me disse que me apóia, que apóia os direitos pessoais dos homossexuais", diz ela sobre seu pai, que tem 75 anos e passou sua vida como militar. "Mas ele sempre me diz para avançar lentamente, para não construir barreiras."

Mas defender sua posição junto ao seu tio Fidel é um desafio ainda maior. Ele é conhecido por devolver as perguntas para aqueles que o informam e esperar respostas instruídas. "Eu fiquei apavorada com a possibilidade dele me perguntar algo que não eu sabia", ela disse.

Atualmente ela o atualiza de maneira informal sempre que pode. Mas ele é um homem muito ocupado, e por isso não é nada fácil obter uma audiência com ele.

Mariela Castro considera seu trabalho uma continuação do trabalho de sua mãe, Vilma Espín, que foi líder da Federação das Mulheres Cubanas por quase meio século. O centro de educação sexual, como quase todos os demais grupos em Cuba, faz parte da burocracia do governo. Mas Mariela disse que ela participa da política como uma cidadã comum, não como sobrinha do El Commandante, descrito recentemente por ela como estando em uma condição "estupenda".

Apesar das restrições do governo ao discurso político, Mariela Castro é uma franca defensora de um discurso sexual mais aberto. Quanto mais os jovens aprenderem sobre sexualidade, menos eles aprenderão nas ruas, argumenta ela. E os políticos também precisam ser instruídos sobre o assunto, ela disse, para promoverem uma política pública mais esclarecida.

"Se você suprimir as coisas, elas ficarão escondidas", ela disse. "Foi provado em pesquisas científicas em Cuba e em outros países que quanto mais educação se dá para os adolescentes e adultos, mais as pessoas ficam livres para tomar suas próprias decisões." George El Khouri Andolfato

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