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10/06/2007

Meu marido é mais mãe que eu

The New York Times
Amy Sohn*
Eu namorei um monte de caras que precisavam ser cuidados, e nunca fui muito boa nisso. Não levava canja quando eles estavam doentes, nem balançava a cabeça enfaticamente quando diziam coisas como "Eu sou um ótimo contador de piadas, não acha?"

AChau Doan/The New York Times 
Relacionamentos modernos: "eu não era um veículo sem emoção; era uma mãe"


Quando conheci meu marido, Charles, percebi que ele nunca me faria perguntas desse tipo. Era o tipo de pessoa que sempre punha em primeiro lugar quem ele amava. Em nosso segundo encontro eu sugeri jantar fora e ele respondeu me convidando para um lugar que fazia tortilhas de frango. A partir daí, nas noites eu que eu ia ao seu apartamento ele cozinhava e quando ele vinha ao meu jantávamos fora, porque, como muitas mulheres de Nova York, não sei cozinhar.

Apesar de eu gostar das refeições caseiras, Charles e eu sabíamos que um dos motivos pelos quais ele preferia cozinhar para mim é que não tinha meios para me convidar a jantar fora. Ele era formado em arquitetura, mas não exercia a profissão há dez anos porque os horários eram puxados e o pagamento, muito baixo. Pensava que já que não ia ganhar muito dinheiro era melhor fazer o que realmente gostava: pintar. Na época em que nos conhecemos, eu ganhava bem escrevendo romances e artigos para revistas e ele vendia seus quadros. Eu ganhava cerca de cinco vezes mais que ele.

Quando minhas amigas perguntavam se nossa diferença de renda não incomodava, eu sempre brincava que de qualquer modo eu era um líder de matilha. Mas depois que Charles e eu fomos morar juntos essa disparidade tornou-se uma fonte de tensão. Eu pagava o aluguel, água e luz, TV a cabo e os cartões de crédito, enquanto ele cozinhava e lavava os pratos.

Em certo nível, a troca parecia justa. Afinal, quantas gerações de homens e mulheres coabitaram dessa forma, mas com os papéis invertidos? Eu não era boa cozinheira, ele era. Ele não era bom para ganhar dinheiro e eu era. Como casal, formávamos um todo.

Mas havia meses em que as contas eram altas e eu me queixava dos telefonemas interurbanos que ele fazia. Ou reclamava em voz alta sobre tantas contas de restaurantes no cartão de crédito, e ele dizia que era eu quem sempre queria comer fora, o que era verdade.

Na época eu freqüentava um psicanalista australiano de 92 anos, e toda vez que expressava preocupação sobre o desequilíbrio financeiro em nosso relacionamento ele balançava a cabeça e dizia: "Para que o relacionamento sobreviva, você precisa ser a mulher, e não o homem".

Mais tarde mudei para um psiquiatra budista de 50 anos e ele disse: "Parece que está funcionando. Alguém tem de cozinhar e cuidar da casa. Fique feliz por ter encontrado um homem que sabe fazer isso".

Eu me senti melhor. Mas ainda havia uma parte de mim que não achava justo esse arranjo. Apesar de eu apreciar a comida e a limpeza, queria que ele contribuísse com algum dinheiro. Sabia que provavelmente Charles nunca ganharia mais que eu, mas queria que as coisas fossem mais equilibradas.

Depois que nos casamos e começamos a falar em filhos, percebi que um filho teria um efeito benéfico para nossa relação. Se Charles cuidasse do bebê em tempo integral, faria um trabalho que, com uma profissional, custaria US$ 25 mil por ano.

Ele não teria de fazer os bicos que detestava, como jardinagem e carpintaria, e eu poderia parar de reclamar das contas do cartão de crédito.

Não precisaríamos deixar nossa filha com uma estranha e eu ficaria segura sabendo que ela estaria com seu pai amoroso. Nessa visão feminista radical, eu era pouco mais que um veículo para o bebê.

O que eu não imaginava era que depois que o bebê chegasse eu poderia realmente sentir algo por ela, querer cuidar dela pessoalmente.

Suportei 30 horas agonizantes de trabalho de parto, mas quando a parteira a colocou sobre meu peito ela me conquistou de vez. Olhando para ela, não senti exatamente amor -isso viria mais tarde-, mas uma ligação próxima. Eu não era um veículo sem emoção; era uma mãe.

Nas primeiras semanas eu amamentava e dormia enquanto Charles fazia compras, cozinhava e lavava roupa. Ele saía para comprar fraldas ou um travesseiro para amamentar, e quando vinham visitas arrumava a casa e servia canapés e vinho. Quando eu a amamentava no meio da noite, ele ao mesmo tempo me dava iogurte e fruta para saciar meu corpo faminto.

Quando minha ansiedade de mãe inexperiente me causou insônia, ele saiu e comprou uma erva chamada "motherwort", indicada para lactantes, e então eu cochilava.

Sem Charles eu não teria sobrevivido àquelas primeiras semanas. Mas uma parte de mim queria lutar sozinha como mãe. Lá fora, nós três passaríamos por outras mães sozinhas com seus bebês, os pais tendo voltado ao trabalho, e eu invejaria a autonomia delas.

Claro, algumas pareciam exaustas ou entediadas, mas outras pareciam orgulhosas de lidar com a mamadeira e o carregador de bebê ao mesmo tempo.

Eu queria sentir esse tipo de orgulho. Também comecei a me preocupar que se o bebê passasse mais tempo com Charles poderia amá-lo mais.
"Tente sair com ela sozinha todos os dias", disse meu psiquiatra budista.

"Precisa fazer isso para conquistar confiança em si mesma como mãe, e se não o fizer agora terá problemas mais tarde."

Quando cheguei em casa, anunciei para Charles que levaria o bebê para passear, só nós duas.

Ele estava pintando na sala e girou sua cadeira. "Foi o analista quem a mandou fazer isso?"

"N-não", eu disse. Ele sempre sabia quando eu tinha ido ao psiquiatra, porque quando chegava em casa o inundava de carinho ou começava uma briga.

"Pode ir. Saia com ela. Ninguém lhe disse para não sair."

Eu precisava trocar algumas coisas numa loja para a qual teria de pegar um ônibus, e achei que seria uma boa desculpa.

O ônibus chegou e eu subi com dificuldade, me arrastei até um banco com minha filha e despenquei. "Você tem de dobrar o carrinho", disse o motorista. Precisei de toda a minha energia para fazer isso com uma das mãos enquanto segurava minha filha com a outra. Não foi uma excursão com mochila pelo Saara, mas ao voltar da loja eu tive uma enorme sensação de realização.

Mesmo que não precisasse, era capaz de cuidar de mim mesma.

Quando comecei a perceber que gostava de ser mãe, Charles começou a ver que precisava ser algo mais que apenas um pai. Algumas semanas depois ele recebeu um telefonema de um amigo, dizendo que sua antiga e excelente babá estava procurando trabalho para dois dias da semana. Estaríamos interessados?

"O que você acha?", Charles me perguntou.

"Pensei que você quisesse ser um pai em tempo integral", respondi. "Isso foi antes de eu saber como era difícil. Além disso, se eu pintar posso vender alguns quadros, mas se não me dedicar não venderei."

Ele tinha razão. Mesmo que parecesse cedo demais, sabia que dali a alguns meses ficaríamos contentes com a decisão. Além disso, eu me vi pensando, se Charles e eu dividíssemos o cuidado com a criança nos dias em que não tivéssemos babá, ela não o amaria mais que a mim.

Pouco depois consegui dois contratos para escrever pilotos de televisão, um drama e uma comédia. Tinha oito semanas para escrever os dois, e para cumprir o prazo precisaria trabalhar intensamente.

Naqueles meses, Charles foi o cuidador principal, vestindo-a, alimentando-me para que eu pudesse alimentá-la e levando-a ao playground no Prospect Park. Em alguns dias meu único contato com o bebê foi amamentá-la, e eu me sentia deprimida por não brincar com ela.

Certa vez cheguei do trabalho e encontrei Charles dando o primeiro banho de banheira em nossa filha. "Eu queria fazer isso", eu disse, e comecei a chorar.

"Querida, ela estava suja e precisava de um banho. Não pude esperar você chegar em casa." Na noite seguinte combinamos que eu o faria, e a partir daí a hora do banho foi minha responsabilidade. (Mais tarde ele admitiu que me havia induzido àquilo para que pudesse assistir aos "Simpsons".)

Na primavera, comecei a passar mais tempo com minha filha e Charles conseguiu um ateliê, onde começou a pintar 30 horas por semana.

Compensou.

Ele conseguiu uma exposição individual e vendeu a maioria dos quadros, exatamente no momento em que eu soube que meus roteiros-pilotos não seriam produzidos.

Agora que minha filha tem quase 2 anos, cuido muito mais dela do que pensei que faria, e me surpreendo ao ver o quanto aprecio isso. Gosto de ir com ela ao jardim botânico do Brooklyn e visitar a iguana na Community Bookstore.

Nosso acordo, é claro, tem todos os estresses dos papéis tradicionais de um casal, apesar de os termos invertido. Como o pai trabalhador arquetípico, eu constantemente sinto a pressão de ser o ganha-pão principal, e temo que um dia meu trabalho seque, tenhamos de vender o apartamento e deixar a cidade, e tudo será minha culpa. Mas o lado positivo desse fardo financeiro é que nunca me sinto culpada por trabalhar. Tantas mães trabalhadoras que conheço são arrasadas pela culpa de não ter tempo para os filhos, porque são casadas com homens que ganham o suficiente para sustentar a família. Mas se eu não trabalhar não comemos.

E deixei de me preocupar que minha filha ame mais Charles. Outro dia, quando ela estava andando pela sala, acidentalmente derrubou uma cadeira pesada sobre seu pé. Eu corri para socorrê-la, mas ela disse: "Papai". Eu a entreguei a ele e olhei-o acariciar sua cabeça, beijá-la e lhe dizer que estava tudo bem.

Um ano atrás eu teria fervido de ciúme. Mas como mãe de um bebê sei que suas preferências mudam e têm pouco ou nada a ver comigo. Charles ficou sentado na poltrona com ela, e eu olhando do chão. Mas alguns minutos depois, estendi os braços, e dessa vez ela veio.

*Amy Sohn é autora do romance "My Old Man". Este ensaio é adaptado da antologia "Blindsided by a Diaper", a ser lançado este mês pela Three Rivers Press. Eu pagava o aluguel, água e luz, TV a cabo e os cartões de crédito, enquanto ele cozinhava e lavava os pratos. Em certo nível, a troca parecia justa. Afinal, quantas gerações de homens e mulheres coabitaram dessa forma, mas com os papéis invertidos? Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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