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12/06/2007

Exames deficientes podem privar mulheres com câncer de mama de medicamento promissor

The New York Times
Andrew Pollack

Em Chicago
O Herceptin, uma droga de combate ao câncer, é considerado o modelo de medicamento do futuro elaborado para cada indivíduo em particular. O remédio só é administrado às 20% das pacientes de câncer de mama cujos tumores possuem uma característica genética específica.

Mas atualmente, quase uma década após a aprovação da droga, surgem evidências de que o exame dos tumores pode ser altamente impreciso ou que são usados valores de corte errôneos para determinar quem deve ser submetido ao tratamento.

Isso pode significar que até 40% das mulheres que têm câncer de mama em estágio inicial poderiam se beneficiar do medicamento, mas não o estão recebendo, alertam alguns especialistas. E outras mulheres podem estar pagando pelo remédio e se arriscando desnecessariamente a enfrentar os efeitos colaterais.

"Isto é algo que tem um grande potencial para modificar as práticas atuais", afirmou o médico James H. Doroshow, do Instituto Nacional do Câncer, após uma apresentação na Sociedade Americana de Oncologia Clínica em Chicago na semana passada. Mas ele acrescentou que os dados são ainda muito preliminares para justificar uma mudança de tratamento.

O Herceptin, também conhecido como Trastuzumab, atua bloqueando a Her2, uma proteína capaz de estimular o crescimento de células tumorais. Ele só é administrado a mulheres cujos tumores possuem quantidades abundantes da proteína. Existem dois exames para determinar isto: um deles determina a quantidade da proteína na superfície de uma amostra de células tumorais, e a outra busca cópias extras do gene que controla a produção da Her2.

Mas os dois estudos discutidos na reunião de oncologia revelaram que pacientes consideradas Her2 negativas, mesmo com a utilização dos dois exames, ainda poderiam se beneficiar do uso do Herceptin. Em ambos os estudos voltou-se a analisar amostras de tumores usadas em avaliações clínicas anteriores que revelaram que o Herceptin, caso utilizado após a remoção cirúrgica do tumor, reduz pela metade o risco de que o câncer retorne. No caso de uma mulher que participou desses testes, o seu tumor foi classificado como Her2 positivo por um laboratório clínico local. Mas os cientistas voltaram a examinar as amostras preservadas do tumor e descobriram que até 20% dele era composto de células Her2 negativas. Mas as mulheres com tais tumores também experimentaram uma redução do retorno do câncer devido ao Herceptin. Em alguns casos esta redução foi tão grande quanto no caso das mulheres Her2 positivas.

"Isto é uma revolução quando comparado àquilo no qual acreditávamos anteriormente", afirma a médica Edith A. Perez, da Mayo Clinic, que apresentou um dos estudos. Ela diz que as descobertas trouxeram à tona uma questão: as mulheres Her2 negativas deveriam ser examinadas novamente?

Alguns especialistas mostram-se céticos, afirmando que o número de pacientes nos dois estudos é muito pequeno para que se chegue a conclusões concretas. Além disso, eles dizem que não está claro se tais mulheres eram realmente Her2 negativas, já que os exames que elas fizeram nos laboratórios locais apresentaram resultados positivos.

O médico Daniel F. Hayes, especialista em câncer de mama da Universidade de Michigan que ajudou a desenvolver os procedimentos para o exame de Her2, disse que não seria uma ação inteligente administrar Herceptin a mulheres Her2 negativas porque a droga é cara e aumenta o risco de insuficiência cardíaca. Mas ele afirma que os estudos chamaram atenção para a inconsistência da qualidade dos exames de Her2 em vários laboratórios pequenos.

Os laboratórios podem usar exames comerciais disponíveis no mercado ou desenvolver os seus próprios exames.

O médico Soonmyung Paik, que apresentou o segundo estudo na conferência sobre o câncer, disse que o problema não reside na má qualidade dos exames, mas sim nos valores de corte utilizados para determinar quais mulheres receberão o Herceptin.

Paik, integrante do Projeto Nacional de Cirurgia Auxiliar de Mama e Intestino, afirmou que 40% das mulheres apresentaram níveis intermediários de Her2. Elas estão neste momento classificadas como Her2 negativas, mas poderiam se beneficiar de alguma forma da droga.

Por outro lado, ele diz que muitas mulheres Her2 positivas não se beneficiam do Herceptin, de forma que são necessárias formas mais eficientes para determinar quem será tratada com o medicamento. "Para mim a mensagem básica disso tudo é que não contamos com um exame perfeito, infelizmente", afirma Paik.

A médica Pamela M. Klein, uma executiva da Genentech, a empresa que fabrica o Herceptin, diz que a companhia continua a procurar uma maneira melhor de identificar as pacientes que se beneficiariam da droga.

O fato de que esta incerteza esteja ocorrendo tanto tempo após a aprovação, em 1998, do Herceptin - o paradigma do "remédio personalizado" -, sugere que não será fácil personalizar outros medicamentos para pacientes com base nos genes ou em exames de proteínas.

O problema deixou alguns médicos presentes na conferência incrédulos e incertos a respeito de como tratar os seus pacientes. "Aqui estamos nós, envolvidos há dez anos com este trabalho", diz Marc L. Citron, oncologista de Lake Sucess, no Estado de Nova York. "E ainda não sabemos como fazer os exames para usar o medicamento". UOL

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