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12/06/2007

Safáris em busca da fotografia perfeita

The New York Times
Denny Lee
A luz dourada já estava caindo sobre o deserto de Mojave, mas isso não fazia diferença, porque, para onde quer que Alberto Zanella posicionasse sua vistosa nova câmera fotográfica, os tanques químicos enferrujados que estão por lá mais pareciam manchas cor-de-laranja. Ele tentou firmar a câmera ajoelhando na areia, mas sem resultado. Depois procurou se movimentar com o foco automático, mas não sabia bem como agir - o manual havia ficado no hotel.

Denny Lee/The New York Times 
Participantes do foto-safári fotografam o local onde foi rodado o filme 'Bagdá Café', em 1987

Felizmente havia um professor de fotografia ao seu lado. "Ele me disse para reduzir a abertura da lente", disse Zanella, 30 anos, morador em Bethesda, estado de Maryland, usando uma câmera digital Nikon D80, com uma lente reflex que havia comprado nas férias. Com o intento de aprender a operá-la, atravessou o país para poder encontrar outros fotógrafos amadores num curso de final de semana. "Foi o que me deu a motivação para fotografar."

Tirar fotos nas viagens costumava dar muito trabalho, assim como encontrar souvenirs nos aeroportos. Mas graças ao boom das câmeras digitais, as fotografias de viagem se proliferaram feito spams. Não se gasta filme, não precisa passar num quiosque Fotomat para revelações e dá para entupir caixas postais de e-mail com tantas fotos. Mas será que as fotos ficam boas?

Um número crescente de fotógrafos amadores acredita que não, e por isso surge uma nova tendência em termos de viagem: os safáris fotográficos. Combinando o apelo de tours guiados a locais exóticos com as instruções práticas, as tais expedições buscam a transformação de corriqueiros usuários do sistema Ofoto em Ansel Adams embrionários.

"É um mercado imenso, que só faz crescer", diz Reid Callanan, diretor da empresa Santa Fe Workshops (www.santafeworkshops.com), escola de fotografia que oferece uma série de tours todos os anos, incluindo um workshop de sete dias na Toscana com fotógrafos da revista National Geographic. "Muita gente mesmo além da maioria das grandes revistas especializadas e vários fotógrafos, todos estão participando."

Os contumazes freqüentadores das oficinas alardeiam o clima de camaradagem. Todos estão lá para tirar fotos e falar sobre isso. E graças ao imediatismo da fotografia digital há sessões diárias com críticas, proporcionando aos estudantes um retorno instantâneo em relação ao seu trabalho. Os alunos não apenas são levados até paisagens prontas para cartão postal como também aprendem a tirar fotos dignas de cartão postal.

Essa era a idéia dominante em janeiro, quando cerca de trinta fotógrafos amadores se reuniram nos arredores de Barstow, na Califórnia, ao longo de uma faixa descendente da Rota 66 no deserto de Mojave. Ao contrário do que ocorre na maioria dos foto-safáris, que ocorre em locais convencionalmente fotogênicos como Paris ou o Butão, o foco aqui estava na arquitetura em decomposição, na planície corroída pelo sal e nas negras crateras vulcânicas que compõem essa paisagem desértica. "Estamos fotografando o desaparecimento da era industrial", diz Dave Wyman, fotógrafo freelancer que orientou o safári de três dias.

Tudo começou sexta-feira na Tom's, loja de máquinas e soldas cercada por um terreno cheio de tralhas industriais, ao norte da cidadezinha.

Chegando numa caravana cheia de utilitários SUVs e minivans, os alunos foram se movendo feito lobos sob a luz do sol que nascia no deserto, voltando suas lentes para carros abandonados, observando sombras na lataria e farejando pelos detritos em busca de fotos. Os alunos vieram preparados. As bolsas com as câmeras estavam repletas de lentes, cartões de memória, vários filtros e baterias sobressalentes. Muitos trouxeram tripés, inclusive um cavalheiro que veio da Inglaterra para fotografar o que ele chamou de a "verdadeira América." Muitos vestiam coletes, como se estivessem numa missão profissional.

Ao contrário de tantos turistas que perambulam alegres com suas câmeras, ninguém ali estava com pressa para ir embora. Eles aproveitavam bem seu tempo, caprichando nos ângulos como se estivessem diante de uma cebola, descascando camadas visuais em busca de uma nova superfície. "A idéia é transformar tudo numa abstração", diz Richard Nolthenius, astrônomo de Santa Cruz, na Califórnia, imerso num estudo sobre um monte de peças de metal enferrujadas.

Enquanto o sol se elevava no horizonte, toda a classe partia em direção à velha estação ferroviária de Barstow, clicando sem parar enquanto vagões de carga estrilavam freando nos trilhos de aço. Instantâneos embaçados ficavam ainda mais abstratos enquanto o sol se punha e a lua se elevava.

Só na hora do jantar, num restaurante mexicano meio fuleiro já na vila, foi que o grupo começou a se socializar e a explicar como foi parar lá. "Eu comprei uma câmera há dois anos, mas não sei como usá-la", dizia Charlene Gerrish, 61 anos, pintora vinda de Carmel, Califórnia. "Eu normalmente só pensava num ângulo e focava, mas agora estou tentando melhorar com essa câmera - uma Canon D20 ou coisa assim."

Outros eram mais eficientes do ponto de vista técnico, até mesmo obsessivos. "É possível aprender através de livros, mas aqui você pode compartilhar suas idéias", segundo Kevin Burke, 56 anos, servidor público aposentado vindo de Las Vegas. "Eu tiro fotos todos os dias, mas aqui a idéia é me juntar aos especialistas."

Por ali ele tinha muita companhia. O papo no jantar era em torno de tópicos como sobre quando clicar em JPEG ou no sistema RAW, como usar um filtro polarizador, se a Canon é mesmo melhor que a Nikon e, o assunto eternamente favorito, "PC versus Mac". A arte da fotografia, "onde todas as aptidões convergem para captar a realidade fugaz", como Henri Cartier-Bresson disse uma vez, não parecia importar tanto quanto o aspecto tecnológico.

Após o jantar, o grupo foi para o Holiday Inn Express, que é o melhor hotel que se pode arranjar em Barstow. Não que os alunos tivessem grandes expectativas quanto à hospedagem. O preço do foto-safári - incluindo a orientação, acomodação, jantar e palestra de um convidado, Ken Rockwell, responsável por um famoso site dedicado à fotografia - saiu por apenas U$ 375 (equivalente a menos de R$ 800).

Claro que existem foto-safáris mais sofisticados. A empresa National Geographic Expeditions, por exemplo, promove um workshop de sete dias em Veneza que custa U$ 4.870, e a Joseph Van Photo Safaris, baseada em Vashon Island, estado de Washington, propõe um workshop de fotografia na Antártida a partir de U$ 11.795, contando com uma equipe de 10 fotógrafos da natureza, naturalistas e biólogos dedicados ao estudo da vida selvagem.

Mas a escolha de um foto-safári não é apenas uma questão de preço. Há uma diferença entre workshops de fotografia, estruturados em torno de lições formais, e tours fotográficos, nos quais o professor basicamente apenas conduz turistas entre vários "momentos Kodak". O safári de Mojave se encaixa mais nessa última categoria.

Como transformar registros instantâneos em verdadeiras fotografias

Os foto-safáris combinam tours guiados pitorescos e lições em campo sobre o uso de câmeras. Os preços normalmente incluem orientação no local, acomodação e algumas refeições. Veja onde se informar:

  • National Geographic Expeditions -www.nationalgeographicexpeditions.com

  • Joseph Van Photo Safaris - www.photosafáris.com

  • Mentor Series Worldwide Photo Treks - www.digitaldaysphoto.com/mentorseries

  • The Workshops - www.theworkshops.com

    Para conhecer outros workshops igualmente especializados:
  • Shaw Guides (www.shawguides.com/photo)
  • PhotoSecrets (www.photosecrets.com/links.workshops.html) Marcelo Godoy
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