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12/06/2007

Venezuela dança um ritmo diabólico para promover o turismo

The New York Times
Simon Romero

Em San Francisco de Paula de Yare, Venezuela
Vestindo trajes em cor de sangue e máscaras diabólicas de papel machê que fariam uma gárgula sorrir, centenas de fiéis fantasiados de demônios dançaram pelas ruas daqui na última quinta-feira, em um dos rituais religiosos mais exaltados da Venezuela.

Michael Stravato/The New York Times 

Uma tradição afro-venezuelana em paróquias próximas da costa caribenha do país desde o final do século 18, os "Diabos Dançantes" receberam o apoio do governo do presidente Hugo Chávez enquanto este busca aumentar a divulgação do folclore venezuelano e promover novas formas de turismo.

Esta pequena cidade, fundada em 1718 por donos de escravos que controlavam as plantações próximas de cacau e cana-de-açúcar, atualmente atrai a cada ano milhares de turistas para o feriado católico romano de Corpus Christi. Eles assistem aos diabos se contorcerem ao ritmo dos tambores em um ritual descrito pelos moradores daqui como uma dança de resistência cultural.

"Há muitas histórias sobre como isto se originou, mas nós sabemos que acima de tudo era uma forma de nossos ancestrais participarem da vida da Igreja", disse Pablo Azuaje, 57 anos, o "capataz", ou supervisor da dança.

Historiadores e antropólogos que estudaram os Diabos Dançantes disseram que tradições semelhantes existiam na Europa medieval e ainda podem ser encontradas em países como Bolívia e México. Nas pequenas paróquias venezuelanas, e mesmo em Caracas até o final do século 19, os Diabos Dançantes evoluíram em símbolos da luta do bem contra o mal.

Aqui em Yare, como esta cidade ao sul de Caracas é normalmente conhecida, os diabos dançam ao redor da praça antes de descansarem na entrada da igreja lavada. Após a missa matinal, eles sucumbem em um ato de submissão à Eucaristia, a representação do corpo e sangue de Cristo em hóstia e vinho, antes de dançar por toda a cidade fazendo paradas para rezar em dezenas de altares.

Rafael Strauss, um historiador que estudou os Diabos Dançantes em várias comunidades venezuelanas, disse que eles têm raízes nos esforços dos escravos, marginalizados pelo rígido sistema de castas colonial, para ter um papel importante na vida religiosa. Antes censurados pelas autoridades da Igreja, os diabos passaram a ser tolerados e ao final celebrados.

"Os Diabos Dançantes do século 18 diferiam dos artistas de reggaeton de hoje", disse Strauss, autor do livro "El Diablo en Venezuela", se referindo à música dançante contemporânea com nuances sexuais explícitos que foi popularizada em Porto Rico antes de se espalhar pela América Latina e Estados Unidos.

Apesar da proibição de homens e mulheres dançarem juntos persistir nos Diabos Dançantes, a continuidade de uma tradição que teve início quando o ritual era considerado excessivamente sensual, Strauss disse que a dança evoluiu desde que a Venezuela proibiu a escravidão em 1854. Apesar de apenas negros participarem em algumas cidades pequenas, pessoas de diversas etnias dançam em cidades maiores como Yare, que se gaba de contar com o ritual mais proeminente dos Diabos Dançantes.

Ao promover os diabos, principalmente por meio de propaganda, o governo de Chávez está seguindo o exemplo de Rómulo Gallegos, o romancista que foi presidente da Venezuela em 1948, antes de sua derrubada por um golpe. Os diabos ganharam reconhecimento nacional quando o governo de Gallegos os trouxe para se apresentarem em Caracas, parte de um esforço para chamar a atenção para as tradições folclóricas em uma época em que a crescente receita do petróleo estava modernizando o país.

"Agora estamos tentando criar um turismo de inclusão", disse Teorggeena Pérez, a coordenadora de turismo de Yare, explicando como o encorajamento para que os turistas durmam nas casas dos dançarinos e de outros moradores da cidade se encaixa no plano de Chávez de "desenvolvimento endógeno", um esforço para erradicação da pobreza que visa em parte promover o crescimento econômico em comunidades negligenciadas.

De fato, vermelho não era apenas a cor dos trajes dos diabos, mas também dos bonés e camisetas decorados com slogans pró-Chávez e com as iniciais de seu partido socialista, vestidos por muitas das pessoas que vieram para cá para assistir a dança e vender seus produtos para os demais turistas.

"Este é um belo dia para fazermos negócios e vermos algo novo", disse Irma Romero, 55 anos e membro da Cooperativa Pioneros da la Resurrección, um grupo com sede em Caracas que fabrica roupas e recebe financiamento do Ministério da Economia Comunal para comercializar seus produtos em eventos culturais por todo o país.

As autoridades do Estado de Miranda, do qual Yare faz parte e que é governado por um aliado de Chávez, distribuíram panfletos que listavam os sobrenomes das famílias que já foram donas de escravos aqui e descreviam em detalhes as origens e características dos Diabos Dançantes.

Aqueles que participaram do ritual pareciam alegremente alheios, pelo menos por um dia, das mudanças políticas polarizantes que estão ocorrendo na Venezuela, como a criação por Chávez de um único partido socialista para seus seguidores. Outros vestidos de vermelho eram os funcionários da Brahma, a cervejaria que vendeu quantidades imensas de cerveja na quinta-feira para os turistas de Caracas e outras cidades.

Com pequenas cruzes feitas de folhas de palmeiras presas em suas camisas, os diabos suaram e dançaram até um estado de transe antes de descansarem ao meio dia para uma refeição de mondongo, uma sopa feita com bucho de boi e pé de porco cozidos lentamente. Depois prosseguiram sua dança tarde adentro.

"Eu dediquei toda minha vida aos diabos", disse Juan Vicente Morgado, 53 anos, um dos principais fabricantes de máscaras de Yare, em sua oficina onde dezenas de máscaras estavam penduradas nas paredes. "É uma daquelas coisas na vida em que olhamos para o grotesco para encontrar algo positivo." George El Khouri Andolfato

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