UOL Notícias Internacional
 

13/06/2007

Na Suécia, um novo lar para os cristão iraquianos

The New York Times
Ivar Ekman, em Sodertalje

Na Suécia
Caminhando pelo corredor acarpetado da Igreja de São João, em Sodertalje, em uma recente manhã, o perfil corpulento e os cabelos louros de Anders Lago pareciam deslocados em meio à multidão de centenas de iraquianos de luto, vestidos de negro, que participavam de uma cerimônia memorial. Lago é o prefeito desta cidade panorâmica sueca de 60 mil pessoas, que no ano passado recebeu duas vezes mais refugiados iraquianos do que os Estados Unidos inteiro, quase todos cristãos fugindo do expurgo religioso que ocorre em meio à insurgência antiamericana e os embates sectaristas no Iraque.

Dean C.K. Cox/The New York Times 
Iraquianas rezam pelo reverendo Ragheed Ganni, executado a tiros no Iraque

Assim, esses indivíduos em luto fazem agora parte da comunidade administrada por Lago, e a guerra deles está rapidamente se transformando na guerra de Sodertalje - para crescente desgosto do prefeito. Segundo ele, Sodertalje está atingindo um limite, e não consegue mais fornecer aos recém-chegados sequer os serviços básicos que eles têm o direito de esperar.

Cerca de 9.000 iraquianos conseguiram entrar na Suécia em 2006 - quase a metade dos 22 mil que pediram asilo em todo o mundo industrializado. Neste ano, quando os Estados Unidos prometeram receber 7.000 iraquianos, acredita-se que cerca de 20 mil procurarão asilo na Suécia.

Espera-se que muitos deles venham parar nesta próspera cidade que fica cerca de 30 quilômetros a sudoeste de Estocolmo. Em 2006, seguindo uma rota migratória para cristãos do Oriente Médio criada há quase meio século, mais de mil iraquianos chegaram aqui. Neste ano, são esperados até 2.000 novos refugiados.

Atualmente, áreas como Ronna e Hovsjo, com os seus prédios de apartamentos de sete andares em formato de caixotes, versões suecas típicas dos arruinados bairros franceses de imigrantes ou dos projetos urbanos norte-americanos, estão sendo apelidadas de Pequena Bagdá ou Mesopotalie, contando com estabelecimentos que vendem pratos típicos iraquianos, apartamentos lotados e incontáveis histórias de carnificina e perda.

Em um apartamento de Ronna, onde refugiados recém-chegados se reuniram recentemente para se apresentarem à sua nova terra como parte de um programa municipal, histórias trágicas era o que não faltava.

Mariam, uma professora de 36 anos da cidade de Mosul, no norte do Iraque, chegou em Sodertalje no final de março. Ela contou que foi atingida de raspão pela bala de um atirador quando tentava fugir de Mosul com a família, e que viu um dos filhos ser baleado no estômago.

"Deixamos tudo para trás por medida de segurança, e viemos para cá para começarmos uma nova vida", conta Mirian, uma cristã assíria que não quer revelar o seu nome completo porque o marido e os três filhos ainda não conseguiram deixar o Iraque. "No Iraque, somos privados até mesmo do simples direito de freqüentar a igreja, e queremos manter a nossa religião".

A Suécia concede asilo a todos os iraquianos, com exceção daqueles provenientes das áreas curdas relativamente estáveis, e as autoridades de imigração sequer registram a filiação religiosa dos recém-chegados.

Mas Sodertalje tem sido um pólo de atração para os refugiados cristãos desde o final da década de 1960, quando imigrantes assírios do Líbano, da Síria e da Turquia estabeleceram uma próspera comunidade aqui. Após a Guerra do Golfo Pérsico de 1991 e agora, à medida que os extremistas no Iraque intensificam a perseguição movida aos não muçulmanos, um número cada vez maior de refugiados procura chegar a esta cidade.

"Eles vêm para cá para sobreviver", explica Jalal Hammo, diretor da igreja católica caldéia de São João, que veio do Iraque para cá em 1994. "Os terroristas fazem tudo o que podem para que os cristãos deixem o Iraque".

O choque cultural para os iraquianos recém-chegados é bem menor aqui do que em praticamente todas as outras localidades na Suécia - ou, a bem da verdade, em todo o Ocidente. Eles podem falar a língua árabe nativa em quase todos os lugares e têm a opção de frequentar igrejas cristãs de todas as denominações comuns no Iraque: católica caldéia, ortodoxa síria e católica siríaca.

Além disso, os refugiados podem assistir aos jogos de dois times assírios de sucesso no estádio local, bem como na TV Suroyo, uma estação de TV assíria por satélite. Mas ainda que Sodertalje seja a escolha para vários cristãos iraquianos, está ficando evidente que as suas novas vidas enfrentam diversos desafios - em parte como conseqüência da condição de Sodertalje como refúgio preferido desses imigrantes.

A maioria dos que chegam aqui é relativamente afluente - quase todos pagaram entre US$ 10 mil e US$ 20 mil pelos documentos necessários para saírem do Iraque - e eles têm freqüentemente um alto nível de escolaridade. Mas os empregos em Sodertalje são escassos, especialmente para aqueles com pouco conhecimento da língua sueca, e os iraquianos que chegam agora terão que aguardar vários meses para que tenham aulas regulares de sueco.

A moradia também é um problema. Assim como a maioria dos refugiados, Mirian mora com amigos e teme já ter abusado da recepção de boas vindas. "Depois de tudo pelo que passei no Iraque, tenho que sofrer esta humilhação", diz ela. "Quero trabalhar, fornecer o sustento para a minha família, mas o que posso fazer aqui?". Na verdade as próprias autoridades municipais fazem a mesma pergunta. "O sistema sueco para receber refugiados está quebrado", diz Lago. Ele conta que Sodertalje arca com um problema enorme para fornecer moradia, escolas e trabalho.

"Quando as salas de aula de idioma ficam superlotadas e até 15 pessoas compartilham um apartamento de dois quartos em Ronna e Hovsjo, quem sofre mais são os próprios refugiados", afirma Lago.

E mesmo aqui, a 3.200 quilômetros do Iraque, a presença da guerra continua se fazendo sentir, conforme ocorreu com Hazim, um rico empresário de 50 anos de idade que fugiu de Bagdá em março. Recentemente, quando conversava sentado com compatriotas em um apartamento em Ronna, ele recebeu uma ameaça de morte de Bagdá pelo telefone celular. "Para nós, o Iraque é uma história sem fim", conta ele. "Viemos para cá e ainda estamos sendo seguidos pela guerra".

E, além disso, há os suecos como Lago, que ficam sabendo a respeito dos horrores do Iraque como parte de suas funções.

A cerimônia na Igreja de São João, da qual Lago participou como convidado, foi realizada em memória ao reverendo Ragheed Ganni, 35, um padre católico caldeu do Iraque que trabalhava nesta igreja até o outono passado. Em novembro, ele decidiu retornar ao Iraque. Em 3 de junho, Ganni foi executado a tiros, após ter celebrado a missa na Igreja do Espírito Santo em Mosul. UOL

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