UOL Notícias Internacional
 

14/06/2007

Hamas assume amplo controle da Faixa de Gaza

The New York Times
Steven Erlanger*

Em Jerusalém
As forças do Hamas consolidaram o controle sobre grande parte de Gaza nesta quarta-feira (13/6), assumindo o comando da principal estrada norte-sul e explodindo um quartel-general do Fatah em Khan Yunis, no sul de Gaza.

No norte do território e na Cidade de Gaza, os militares do Hamas, muitos deles usando máscaras pretas, avançavam sem obstáculos pelas ruas enquanto os combatentes do Fatah careciam de armas e munição e abandonavam seus postos. O Hamas controlou toda a Cidade de Gaza, com exceção da instalação presidencial de Mahmoud Abbas, do Fatah, e do quartel-general em Suraya das Forças de Segurança Nacional, o exército palestino. O Hamas cercou Al Suraya, pedindo aos ocupantes para que se rendessem.

A ação poderosa do Hamas para exercer autoridade em Gaza e o mau desempenho e motivação das forças de segurança, que são maiores em número e são supostamente leais ao Fatah, levantam dúvidas problemáticas para Abbas e Israel, assim como deixam os Estados Unidos com um número cada vez menor de opções políticas.

Abbas enfrenta o colapso do poder do Fatah em Gaza e um suposto Estado palestino dividido em uma Cisjordânia governada pelo Fatah e uma Gaza "Hamastan", para usar um termo cunhado pelos palestinos.

O primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, alertou sobre as "conseqüências regionais" de um controle completo de Gaza pelo Hamas, um movimento islamita que não reconhece o direito de existência de Israel. A ministra das Relações Exteriores, Tzipi Livni, disse que o controle de Gaza pelo Hamas limitaria a capacidade de Israel de negociar com Abbas, como Washington deseja.

Os porta-vozes do Hamas disseram que o movimento não tinha meta política exceto se defender de um grupo dentro do Fatah que está colaborando com Israel e os Estados Unidos. Eles disseram que desejam colocar as forças de segurança sob controle do governo de unidade, do qual o Fatah concordou em participar até os atuais confrontos.

Algumas autoridades de segurança israelenses disseram que Israel deseja que a Cisjordânia fique isolada de Gaza, ainda mais com esta sob controle do Hamas. Uma autoridade sugeriu que a demonstração de força do Hamas em Gaza aumenta a probabilidade de uma intervenção militar israelense ali em breve para conter o poderio militar do Hamas. Os serviços de segurança israelenses dizem que o Hamas, que é capaz de contrabandear armas e explosivos do Egito, está desenvolvendo um exército sofisticado a exemplo do Hizbollah no sul do Líbano.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mark Regev, disse que Israel considera "a implosão da Autoridade Palestina como sendo do interesse de ninguém". Em Gaza, ele acrescentou, "a simples força que o Hamas está demonstrando em solo é um problema para nós, e um desafio".

"Também é um problema para os palestinos", disse Regev. "Toda nossa política visa trabalhar com os palestinos pragmáticos moderados que acreditam na paz, e a hegemonia do Hamas em Gaza não é boa para Israel, para os palestinos ou para a paz."

Desde a vitória eleitoral do Hamas em janeiro de 2006, os Estados Unidos e Israel têm trabalhado para isolar e minar o Hamas e reforçar o Fatah com reconhecimento e armas. Ao ser perguntado se os ganhos do Hamas representavam um fracasso de tal política, Regev disse: "Eu não acho que Israel ou a comunidade internacional devem desistir dos palestinos moderados. Isto seria uma profecia que se autocumpre."

Mas alguns em Israel estão começando a se perguntar se não faria sentido manter discussões indiretas com o Hamas, que claramente não desaparecerá.

Nos confrontos de quarta-feira na cidade de Gaza, o Hamas tomou o edifício Awdah, um alto complexo de apartamentos onde viviam muitos líderes do Fatah, fazendo com que outro líder do Fatah, Maher Miqdad, fugisse com sua família, após pelo menos oito homens do Fatah serem mortos. O Hamas também tomou e incendiou a principal delegacia de polícia, outro símbolo do poder do Fatah.

No norte de Gaza, o Hamas deu aos combatentes no isolado quartel-general militar do Fatah de Al Suraya até as 19 horas de sexta-feira para que entregassem suas armas.

Em Khan Yunis, o Hamas detonou uma grande bomba em um túnel sob o quartel-general da Segurança Preventiva do Fatah, uma força paramilitar de elite, matando pelo menos uma das pessoas em seu interior e ferindo outras oito.

Sami Abu Zuhri, um porta-voz do Hamas, disse que o movimento estava se defendendo, não buscando o poder exclusivo. "Não há meta política por trás disto, exceto defender nosso movimento e forçar estes grupos de segurança a se comportarem", disse Zuhri em uma entrevista.

Ele insistiu que o "Hamas não iniciou estes ataques, mas foi forçado a fazê-lo para colocar um fim aos crimes cometidos pelas facções dentro do Fatah que defendem um golpe". Ele disse que o Hamas "está fazendo o trabalho que o Fatah deixou de fazer, que é controlar estes grupos", que ele acusou de crimes, caos e colaboração com Israel e com os Estados Unidos.

Zuhri disse que os Estados Unidos deveriam "se sentar com o movimento na mesa de diálogo em uma base de respeito mútuo, respeito às eleições". Miqdad acusou o Hamas de seguir o roteiro israelense. "Este é um plano israelense", ele disse. "Eles querem ligar a Cisjordânia ao Jordão e tornar Gaza uma prisão separada. Isto colocará um fim a um Estado palestino independente."

Abdullah al-Aqad, 28 anos, de Khan Yunis, disse que ingressou nas forças de segurança nacional para ter um emprego. Ele se espantou com a velocidade do avanço do Hamas. "Nós somos 70 mil soldados da Autoridade Palestina, mas onde estão todos?" ele perguntou. "E enfrentando 10 mil soldados do Hamas."

Abbas, em Ramallah, na Cisjordânia, falou com o líder político exilado do Hamas, Khaled Meshal, para tentar conter a crise. "Isto é loucura, a loucura que está ocorrendo em Gaza no momento", disse Abbas aos repórteres.

Pelo menos 13 palestinos foram mortos na quarta-feira e 64 ficaram feridos, segundo Moaweya Hassanein, do Ministério da Saúde palestino. Ele disse que 59 morreram desde segunda-feira.

Entre os mortos estavam dois funcionários da agência da ONU que ajuda os 70% dos moradores de Gaza que são refugiados ou seus descendentes. A agência anunciou que reduzirá suas operações até o término dos combates.

Apesar de o Fatah culpar o Hamas pela crise, um analista israelense de assuntos palestinos, Danny Rubinstein, disse que "o principal motivo para a ruptura é o fato do Fatah ter se recusado a compartilhar plenamente o mecanismo de poder da Autoridade Palestina com seu rival Hamas, apesar da vitória decisiva do Hamas nas eleições gerais de janeiro de 2006".

O Fatah "foi forçado a ignorar os eleitores palestinos porque o mundo inteiro exigiu que o fizesse", acrescentou Rubinstein. "A situação chegou ao ponto em que o Hamas tentou tomar a força o que acredita ser seu por direito."

*Taghreed El-Khodary, na Cidade de Gaza e Khan Yunis, contribuiu com reportagem George El Khouri Andolfato

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