UOL Notícias Internacional
 

15/06/2007

Turbulência em Gaza leva à dissolução do governo palestino

The New York Times
Isabel Kershner e Steven Erlanger*
Em Jerusalém
Os territórios palestinos pareciam caminhar, na quinta-feira (14/6), para uma turbulenta divisão política. Homens armados mascarados do Hamas assumiram o controle da Faixa de Gaza e o presidente do Fatah dissolveu o governo de unidade de três meses, declarando estado de emergência e planos para eleições.

Um assessor do presidente Mahmoud Abbas anunciou os decretos, incluindo a demissão do primeiro-ministro Ismail Haniya do Hamas, em uma coletiva de imprensa na Cisjordânia após as milícias do Hamas terem invadido as fortalezas do Fatah em Gaza, arrastando homens para as ruas e atirando neles.

EFE 
O Hamas assumiu o quartel-general da Segurança Preventiva dirigida pelo Fatah

Os territórios da Cisjordânia e Gaza, que o presidente Bush disse que queria ver se tornarem um Estado palestino independente antes de deixar o cargo, pareciam separados.

Com o Hamas controlando Gaza, não ficou claro se Abbas tem o poder para executar seus decretos. Um porta-voz do Hamas em Gaza, Sami Abu Zuhri, os desdenhou. "O primeiro-ministro Haniya permanece o chefe do governo mesmo se for este for dissolvido pelo presidente", disse Zuhri. "Em termos práticos, estas decisões não valem nada."

Mesmo os simpatizantes de Abbas têm dúvidas. "Um governo de emergência seria sem sentido aqui", disse Mkhaimar Abusada, um cientista político da Universidade Al Azhar, filiada ao Fatah, em Gaza. "Ele não seria capaz de fazer nada. O Hamas está em toda parte."

A cena em Gaza era de celebração devota pelo Hamas misturada com vingança. Os combatentes do Hamas assumiram o quartel-general da Segurança Preventiva dirigida pelo Fatah, partindo em carros cheios de armas, computadores, móveis de escritório e outros equipamentos.

Os transeuntes ficaram chocados. Ghassan Hashem, um funcionário público de 37 anos, disse: "Eu vejo o Iraque aqui. Não há misericórdia. Nós estamos com medo. Viu como esta luta foi feroz? Não há futuro para nós".

Islam Shahwan, um porta-voz da milícia do Hamas, disse de forma triunfante na rádio do grupo: "A era de justiça e lei islâmica chegou".

O primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, disse: "Eu peço a meu amigo Abu Mazen", se referindo a Abbas, que estava em Ramallah, "para aproveitar a oportunidade, agora que quase todo o mundo entende a brutalidade e corrupção do Hamas, para exercer sua autoridade como líder do povo palestino".

Israel fará o que puder, ele disse em uma entrevista para o "The New York Times" em Tel Aviv, para "ser de ajuda e apoiar o povo palestino de toda forma possível, incluindo cooperação econômica e cooperação de segurança".

Olmert viajará para Washington no fim de semana para um encontro com Bush, que se concentrará no colapso do Fatah em Gaza e nas chances de sucesso de Abbas. É esperado que Olmert diga a Bush que Israel é a favor do isolamento da Cisjordânia ocupada por Israel para impedir que seja contaminada por Gaza, impedindo o contato entre elas.

Em termos de segurança, Israel gostaria de isolar gaza da Cisjordânia o máximo possível, para impedir a disseminação do poder do Hamas ali, onde tropas israelenses ainda ocupam o território. Israel também gostaria de confrontar o Hamas com a responsabilidade de governar Gaza - fornecendo empregos, alimento e segurança para seu povo.

Autoridades israelenses sugeriram que Israel trabalharia com Abbas e o governo do Fatah na Cisjordânia, e poderia aos poucos repassar para ele o restante da receita de impostos palestina, cerca de US$ 562 milhões, retida desde que o Hamas assumiu o poder em março do ano passado. "Dar o dinheiro ao governo do Hamas seria imprudente", disse um alto funcionário palestino. "Dá-lo a um governo do Fatah é uma oportunidade."

Os palestinos dificilmente desistirão da idéia de uma nação palestina em ambas as áreas, tendo Jerusalém Oriental como sua capital. E o Hamas também tem um número significativo de seguidores na Cisjordânia, mesmo que seus combatentes estejam menos equipados e permaneçam principalmente escondidos por causa da ocupação israelense.

O Hamas argumenta que purgou as forças de segurança dos "elementos corruptos" que estavam associados a Israel e aos Estados Unidos para prejudicar o Hamas. O grupo deseja a restauração de um governo de unidade no qual as forças de segurança prestem contas ao Ministério do Interior, o que significa na prática que o Fatah perderia grande parte de seu poder restante.

Em Gaza, o Hamas começou a acertar contas. Seus homens executaram um alto comandante do Fatah no norte, Samih al-Madhoun, que prometeu por rádio matar vários membros do Hamas. Ele foi capturado em uma troca de fogo, levado para a casa de um combatente do Hamas morto no tiroteio e executado, disse o Hamas.

Mais evidente foi a falta de líderes ou comandantes do Fatah em solo. O homem forte em Gaza, Muhammad Dahlan, o ex-chefe da Segurança Preventiva que atualmente é o conselheiro de segurança nacional de Abbas, estava no exterior há semanas para tratamento médico. Ele voltou para Ramallah na quinta-feira. Seu aliado mais próximo, o general Rashid Abu Shbak, outro ex-chefe da Segurança Preventiva, também está fora da Faixa de Gaza, e o atual chefe do grupo, Yussef Issa, não foi encontrado em lugar nenhum enquanto o QG caía.

Das poucas figuras proeminentes do Fatah restantes em Gaza, que estariam em uma lista de alvos do Hamas, alguns escaparam de barco para a fronteira egípcia.

A Segurança Preventiva reprimiu o Hamas em 1996, liderada por Dahlan. Muitos dos que foram presos lembram do tratamento cruel e humilhante que receberam. "A Segurança Preventiva tem um significado especial para o Hamas", disse Zuhri. "Nossos combatentes foram torturados e mortos em seu interior."

Ele disse aos repórteres que a queda do QG foi "a segunda libertação da Faixa de Gaza". A primeira, ele disse, "foi quando foi libertada das hordas de colonos", se referindo à retiradas destes e das tropas de Israel de Gaza em 2005. "Desta vez ela foi libertada das hordas de colaboradores", ele disse sobre o Fatah.

A batalha pelo QG da Segurança Preventiva durou 24 horas e os vizinhos disseram ter visto membros da força que se renderam sendo baleados nas pernas. Outros informaram ter testemunhado execuções.

Segundo o dr. Muawiya Hassanein, chefe do serviço médico de emergência em Gaza, 27 palestinos foram mortos na violência de quinta-feira.

Gaza está cada vez mais isolada do mundo e de fornecedores chaves. Todas as travessias de Israel e do Egito foram fechadas devido aos combates, disse Shlomo Dror, falando pela Coordenadoria de Atividades nos Territórios, a agência israelense que lida com os palestinos.

"Este é o início da separação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia", disse Abusada, se referindo aos dois territórios que eventualmente formariam um Estado palestino independente. "Este é o ponto mais baixo em nossa luta. Nós palestinos estamos escrevendo os capítulos finais de nosso empreendimento nacional."

*Taghreed El-Khodary, na Cidade de Gaza, contribuiu com reportagem George El Khouri Andolfato

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