UOL Notícias Internacional
 

16/06/2007

Andrés Izarra: Criando um canal de televisão para esquerdistas

The New York Times
Simon Romero

Em Caracas, Venezuela
Na sede da Telesur, a rede regional em espanhol financiada em grande parte pelo governo da Venezuela, um âncora lê um boletim descrevendo uma manifestação dos sem-terra brasileiros; os produtores recebem um relatório da Bolívia sobre um encontro de líderes andinos; em um programa de atrações, intelectuais discutem tendências no cinema caribenho; um anúncio celebra a transmissão de um documentário sobre a vida de Che Guevara.

Michael Stravato/The New York Times 
Andrés Izarra foi de diretor da RCTV a ministro das Comunicações do governo Hugo Chávez

Com menos de dois anos de idade, a Telesur é tida como a resposta do hemisfério à Al Jazeera, ou como uma rede latino-americana que promove a integração e combate a influência de organizações de notícias como a CNN. O homem guiando esse experimento é Andrés Izarra, uma estrela nascente do projeto ambicioso do presidente Hugo Chávez de vencer as elites na Venezuela e em outras partes na região.

Izarra, 38, era diretor de notícias da RCTV, que recentemente foi tirada do ar quando o governo decidiu não renovar sua licença. Durante o golpe de 2002 contra Chávez, Izarra renunciou, reclamando da cobertura pró-golpe.

Desde então, subiu rapidamente para os mais altos escalões do governo, tornando-se ministro de comunicações de Chávez e agora presidente da Telesur, na dianteira dos esforços de Chávez de conquistar maior controle da mídia.

Enquanto protestos convulsionaram a Venezuela nas últimas semanas pela ação de Chávez contra a RCTV, Izarra surgiu como defensor apaixonado da decisão. "A RCTV praticava uma forma de terrorismo da mídia", disse Izarra em uma entrevista. "As famílias que detêm a RCTV me odeiam por dizer isso, mas a oligarquia que controlava a Venezuela está finalmente se despedaçando."

Enquanto a antiga oligarquia é desfeita, uma nova elite política está emergindo na Venezuela, composta por partidários que apóiam Chávez como antídoto ao governo americano e, não incidentalmente, beneficiaram-se com a mudança de ordem.

Seus críticos chamam Izarra de "apparatchik", alguém que defendeu as políticas de Chávez para obter ganho pessoal, o que ele nega. Izarra diz que admira a capacidade do presidente de enfrentar as políticas americanas de "sabotagem e contenção".

Comendo sushi rapidamente em sua mesa de trabalho, Izarra conta que ele e sua mulher não conseguem mais jantar confortavelmente nos restaurantes. "Tornei-me alvo de violência verbal quando vou a lugares públicos", disse ele, explicando como é difícil andar por Las Mercedes, distrito chique onde mora.

Apesar de projetar uma imagem pessoal intensamente partidária, Izarra diz que é tolerante de opiniões diferentes em sua família ou nos estúdios da Telesur. Ele disse que 120 dos 400 funcionários da Telesur opunham-se a Chávez, admitindo que mantinha as contas usando as listas dos votantes e de suas simpatias políticas, disponíveis em software pirata.

O jornalista diz que nunca sonhou em trabalhar em uma profissão que não girasse em torno de notícias. Mas sua partida da RCTV em 2002 levou-o para outros mundos. Jogado para escanteio no que concernia à mídia privada, ele primeiro voltou à CNN como produtor durante uma greve geral que paralisou a economia, em 2002 e 2003. "Andrés estava longe de ser chavista quando o conheci", disse Lucia Newman, que foi sua chefe como correspondente da CNN para América Latina. "Mas ele se viu em uma posição na qual ele teve que escolher um lado", disse Newman, que atualmente cobre a América Latina para a Al Jazeera International, descrevendo a trajetória de Izarra depois que trabalhou para ela. "De uma forma geral, acho que hoje ele verdadeiramente acredita."

Izarra cruzou para a política definitivamente quando aceitou um cargo de assessor de imprensa da Embaixada da Venezuela em Washington, após seu breve período na CNN em Caracas. Depois, aos 35, ele assumiu o programa de televisão pessoal de Chávez e uma quantidade crescente de outras responsabilidades.

Seu pai, William Izarra, oficial da reserva da aeronáutica e cientista político, é um dos principais teóricos do movimento político de Chávez. Ainda assim, Andrés Izarra é um chavista incomum. Ele teve uma criação privilegiada e estudou na escola de elite Santiago de Leon, em Caracas. Ele fala inglês perfeito, e freqüentou escolas públicas em Newton, Massachusetts, enquanto seus pais faziam pós-graduação em Harvard. Ele passou quase cinco anos trabalhando na CNN e NBC, nos EUA, antes de retornar à Venezuela.

Atualmente, ele está no meio do debate sobre o fechamento da RCTV, enquanto a Telesur planeja expandir para a Europa, o Brasil e talvez os EUA, usando tecnologia de transmissão por Internet. A rede, que tem mais de 10 escritórios no exterior, incluindo Cuba, Nicarágua e Trinidad, está abrindo mais dois em Londres e Madri. No ano passado, a Telesur e Al Jazeera anunciaram um acordo de compartilhamento de conteúdo, que foi descrito por Connie Mack, congressista republicano da Flórida, como "a criação de uma rede de televisão global para terroristas".

Tais declarações, disse Izarra, apenas dão maior legitimidade à Telesur entre seus telespectadores. Comparada com a principal rede de televisão do governo venezuelano, que brutalmente rechaça os críticos de Chávez, a tendência da Telesur à esquerda é mais moderada. A missão da rede, disse ele, é "avançar a integração enquanto retrata os latino-americanos da forma que eles mesmos se vêem". Deborah Weinberg

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