UOL Notícias Internacional
 

17/06/2007

Medicamento de origem chinesa volta a provocar mortes, agora no Panamá

The New York Times
Walt Bogdanich
Após um ingrediente de um medicamento da China ter matado dezenas de crianças haitianas, há uma década, uma alta funcionária de saúde americana enviou um cabograma aos seus investigadores: descubram quem produziu o ingrediente venenoso e por que uma empresa estatal da China o exportou como glicerina farmacêutica segura.

Os chineses foram de pouca ajuda. Os pedidos para encontrar o fabricante foram ignorados. Os registros de negócios foram retidos ou destruídos.

Os americanos tinham motivo para alarme. "Os Estados Unidos importam bastante glicerina chinesa e ela é usada em produtos que são ingeridos como pasta de dente", escreveu Mary K. Pendergast, na época a vice-comissária da Food and Drug Administration (FDA), a agência americana de controle de alimentos e medicamentos, em 27 de outubro de 1997. Saber como dietileno glicol, um líquido viscoso venenoso usado em alguns anticongelantes, foi parar em um medicamento haitiano para febre poderia "impedir que esta tragédia aconteça de novo", ela escreveu.

A missão da FDA acabou fracassando. Quando um agente da FDA finalmente visitou o fabricante suspeito, a fábrica estava fechada e as empresas chinesas disseram não ser responsáveis pelo envenenamento em massa.

Dez anos depois aconteceu de novo, desta vez no Panamá. Dietileno glicol de fabricação chinesa, mascarado como glicerina, sua prima química mais cara, foi misturado em um medicamento, matando pelo menos 100 pessoas naquele país no ano passado. E, recentemente, pasta de dente chinesa contendo dietileno glicol foi encontrada nos Estados Unidos e em sete outros países, levando à retirada do mercado de dezenas de milhares de tubos.

Os esforços da FDA para investigar os envenenamentos haitianos, documentados em memorandos internos da agência obtidos pelo "The New York Times", demonstram não apenas a intransigência das autoridades chinesas, mas também as mesmas falhas regulatórias que permitiram que um envenenamento virtualmente idêntico ocorresse 10 anos depois. Estes casos ilustram ainda mais o que acontece quando os países fracassam em policiar a linha de suprimento global de ingredientes farmacêuticos.

No Haiti e no Panamá, o envenenamento foi rastreado até empresas químicas chinesas não certificadas para produção de ingredientes farmacêuticos. Exportadores estatais então enviaram o solvente tóxico para comerciantes europeus, que o revenderam sem a identificação de seu proprietário anterior - uma tentativa de impedir que os compradores os contornassem em futuras encomendas.

Em conseqüência, a maioria dos compradores não sabia que o ingrediente tinha vindo da China, conhecida por produzir produtos falsificados, nem demonstrou ter muito interesse em descobrir.

A própria China foi vítima de envenenamento por dietileno glicol no ano passado, quando pelo menos 18 pessoas morreram após a ingestão de medicamento envenenado produzido lá. Após as mortes, e relatos de rações para animais e outros produtos contaminados por ingredientes perigosos provenientes da China, as autoridades de lá anunciaram que reformariam o controle de alimentos, medicamentos e produtos químicos.

Além dos três incidentes ligados ao dietileno glicol chinês, ocorreram, nas últimas duas décadas, pelo menos cinco outros envenenamentos em massa envolvendo produtos químicos rotulados de forma errada - em Bangladesh, Nigéria, Argentina e duas vezes na Índia.

"Este problema continua recorrendo", disse Joshua G. Schier, um toxicologista dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC). E não é de se estranhar: os produtos falsos raramente são identificados, muito menos processados judicialmente.

Encontrar uma forma de manter o dietileno glicol longe de medicamentos, particularmente em países em desenvolvimento, tem escapado há décadas das autoridades de saúde. "É algo que pode ser prevenido e temos que encontrar uma forma de impedir que isto aconteça de novo", disse Carol Rubin, uma autoridade dos CDC.

Em uma economia globalizada, ingredientes para medicamentos são freqüentemente comprados e vendidos muitas vezes em países diferentes, às vezes sem a devida documentação, o que aumenta o risco de fraude, disseram as autoridades.

O veneno do Panamá passou por cinco mãos, o veneno haitiano por seis. Em ambos os casos, o certificado original de análise da fábrica, atestando o conteúdo da carga e sua proveniência, não acompanhou o produto enquanto percorria o mundo.

"Onde há uma brecha no sistema, uma fragilidade no sistema, existe a possibilidade de um distribuidor inescrupuloso pegar material de uso industrial ou técnico e revendê-lo como sendo de uso farmacêutico", disse Kevin J. McGlue, um membro do Conselho Internacional de Excipientes Farmacêuticos.

Descobrir a fraude pode ser difícil. "É impossível fazer com que todos façam o rastreamento", disse Michael L. Bennish, co-autor de um artigo de 1995 para uma revista de medicina sobre os casos de envenenamento em Bangladesh.

Um motivo, disse Bennish, é a força dos fabricantes locais. "Nós tentamos rastreá-los como investigadores, Sherlocks amadores, mas não dá para ir ao atacado e começar a fazer perguntas", ele disse. "Seus dedos acabam queimados."

As recomendações dos especialistas

Os Estados Unidos podem não ter obtido o que queriam da China, mas a crise do Haiti uniu grupos de saúde em busca de formas para impedir envenenamentos por dietileno glicol. Em um workshop em Washington em fevereiro de 1997, especialistas em saúde recomendaram que certificados de análise fossem melhorados para permitir aos usuários o "rastreamento do produto por cada intermediário, corretor e reembalador até o fabricante original".

Os participantes do workshop também pediram por um melhor teste dos ingredientes dos medicamentos e pediram aos governos para reforçar a supervisão dos fabricantes de medicamentos.

No ano seguinte, a Organização Mundial de Saúde (OMS) ofereceu muitas das mesmas recomendações. E um artigo de 1998 para o "Journal of the American Medical Association" (JAMA) alertou que um fracasso em seguir rigidamente as orientações poderia causar envenenamentos "mesmo em países onde o controle de qualidade costuma ser rigidamente aplicado".

Muito disto já foi dito antes, mas os envenenamentos continuam.

Ao mesmo tempo em que o artigo no "JAMA" era publicado, três dúzias de crianças começaram a morrer por falência renal em dois hospitais de Nova Déli, Índia. Um laboratório farmacêutico local misturou inadvertidamente dietileno glicol no paracetamol, como fez o laboratório farmacêutico haitiano.

O laboratório foi processado, mas segundo as entrevistas e registros governamentais, nenhum progresso foi obtido na identificação do fornecedor do veneno.

"Minha experiência como investigador me diz que muitas destas coisas não serão solucionadas", disse M. Venkateswarlu, o controlador geral de medicamentos da Índia.

Encontrar falsificadores freqüentemente envolve seguir pistas que cruzam fronteiras e nenhuma autoridade internacional tem poder para fazer isto. Howard Zucker, que ajuda a supervisionar questões de medicamentos para a OMS, disse que os países devem conduzir individualmente suas próprias investigações.

David Mishael, um advogado de Miami, conhece a dificuldade de atribuir culpa nestas mortes. Por 10 anos, Mishael tenta processar sem sucesso nos Estados Unidos e na Europa os comerciantes europeus que participaram do envio do produto tóxico ao Haiti. "Você pode imaginar o custo", disse Mishael, que representa os pais haitianos cujos filhos morreram com o medicamento para febre.

Ele disse que as autoridades holandesas lavraram uma multa de US$ 250 mil para a Vos, que testou o produto falso, o considerou impuro e não alertou ninguém no Haiti. Mas dado quantas pessoas morreram, ele considerou o valor da multa "uma piada". Um advogado que representa a Vos, Jeffrey B. Shapiro, se recusou a comentar.

Algumas poucas crianças sobreviveram após serem levadas por grupos humanitários de avião para os Estados Unidos. Uma delas, Faika Jean, tinha 2 meses na época e quase morreu no trajeto. Atualmente com 11 anos, ela tem problemas de aprendizado devido ao envenenamento, disse o pai dela, Wislin Jean.

Pendergast, atualmente uma advogada e consultora privada, disse que a China é quem tem mais a responder. "Tudo mais é apenas uma conseqüência da falha inicial", ela disse. "É preciso medidas para proteção não apenas de seus próprios consumidores, mas também de consumidores de todo mundo."

Após o "Times" ter noticiado em maio que o veneno no Panamá foi produzido e exportado por empresas chinesas como glicerina 99,5% pura, reguladores chineses disseram que reabririam a investigação do incidente. Três semanas depois, as autoridades reconheceram "conduta indevida" na forma como as empresas chinesas rotularam o produto tóxico.

Mas grande parte da culpa, elas disseram, era do importador panamenho que mudou a documentação para fazer o produto parecer mais seguro do que realmente era.

A FDA discorda, dizendo que o logro teve início com as empresas chinesas rotulando falsamente um produto venenoso como glicerina. "Se o produto fosse glicerina 99,5%, as mortes no Panamá nunca teriam ocorrido", disse a FDA em uma declaração. George El Khouri Andolfato

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