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18/06/2007

Clínicas de reabilitação para celebridades cobram caro, mas resultados são incertos

The New York Times
Sharon Waxman

Em Los Angeles
As colunas de fofocas observaram ofegantes neste mês que Lindsay Lohan, refugiada em uma clínica de reabilitação para a classe alta em Malibu após ter batido com o seu Mercedes na Sunset Boulevard, deixou as instalações da clínica para ir a uma academia de ginástica.

Teria ela violado as regras? As regras foram modificadas para atender à vontade dela? De qualquer forma, a idéia de que ela possa em breve vencer a batalha contra o uso de drogas parece indevidamente otimista, tendo em vista as evidências. Não tendo feito ainda 21 anos, ela está a meio caminho rumo a uma nova internação em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos.

Mas acontece que o otimismo é um dos principais produtos oferecidos em centros de reabilitação como da Promises, a luxuosa clínica de Malibu para os pacientes que sofrem de dependência de álcool e drogas, e na qual Lohan atualmente reside.

Muito mais difícil é obter indícios de que tais programas dão resultado. A verdade não verbalizada que está no topo da indústria de reabilitação de dependentes químicos e alcoólatras é que US$ 49 mil mensais compram muita coisa - incluindo belas vistas do Oceano Pacífico, terapia de massagem e chefs famosos. Mas ninguém sabe ao certo se essa cifra compra sobriedade.

Estatísticas confiáveis a respeito da reabilitação de viciados em drogas e em álcool são, de forma geral, difíceis de se encontrar, e é quase impossível isolá-las em se tratando dos programas de reabilitação de luxo que atraem tanta atenção da mídia. Além da Promises, existe a Wonderland, onde Lohan ficou internada anteriormente; a Crossroads, em Antígua, que por um breve período recebeu Britney Spears de braços abertos, e quase uma dezena de outros locais ao longo de um trecho de 16 quilômetros em Malibu. Estudos governamentais sugerem que o tratamento da toxicomania de fato reduz o abuso das drogas - uma expressão ampla e vaga para o vasto catálogo de doenças relacionadas ao uso de substâncias entorpecentes - entre 40% e 60%.

Mas esses estudos também sugerem que 80% dos viciados voltarão a usar as substâncias após o tratamento. E os especialistas da área parecem concordar que o índice de sucesso dos programas de reabilitação, a maioria dos quais se baseia na terapia de 12 passos criada pelos Alcoólicos Anônimos, chega no máximo a 30% e no mínimo a 10%.

"A comunidade terapêutica alega que o índice de sucesso é de 30%, mas eles só contabilizam as pessoas que vão até o fim do programa", explica Joseph A. Califano Jr., que fundou o Centro Nacional de Pesquisa de Vício e Abuso de Substâncias Entorpecentes na Universidade Columbia. "Sabe-se que 78% dos pacientes abandonam o tratamento após um período de três a seis meses".

"Não existe uma grande quantidade de pesquisas a respeito da eficácia do programa de 12 passos", afirma Timothy P. Condon, vice-diretor do Instituto Nacional de Abuso de Drogas, que faz parte do Instituto Nacional de Saúde. "Criar um programa, torná-lo luxuoso, usando métodos que não foram rigorosamente testados... não sei qual é o benefício disso. Se eu fosse gastar muito dinheiro, gostaria de saber qual é o resultado desse investimento".

Mas é difícil descobrir esse tipo de coisa. Isso se deve em parte aos diferentes tipos de vício, e aos diferentes tipos de programas elaborados para tratá-los. Também não há muito consenso a respeito do grau de sucesso desses programas. Os exames de urina, a forma científica de determinar se alguém voltou a usar as substâncias tóxicas, não se constituem em um recurso prático para que os centros luxuosos de reabilitação acompanhem os seus clientes ("Oi, Britney! Você enviou a amostra de urina?").

Quando perguntado a respeito do índice de sucesso da Promises, o seu proprietário, Richard Hogg, responde: "Não existe uma maneira de medir efetivamente os índices de sucesso. Qualquer programa que se gabe de um índice de sucesso não está dizendo a verdade".

Quando lhe indagam como é possível avaliar a eficácia de um programa sem uma forma objetiva de medir o seu sucesso, Rogg diz: "Eis uma grande questão", Mas então, como é que ele mede esse sucesso? Após uma longa pausa, o dono da clínica responde: "Constatando o vigor e a eficácia do nosso programa para internos".

Howard C. Samuels, diretor da clínica Wonderland, que cobra US$ 40 mil dólares para um período de internação de 30 dias, foi similarmente impreciso, embora tenha concordado que as estatísticas aceitas não são encorajadoras. "Se eu acreditasse em estatísticas, não estaria sentado aqui conversando com você", disse ele. "Mas qualquer centro de tratamento que lhe forneça altos índices de sucesso é, a meu ver, muito arrogante. Estamos falando de um processo".

O processo em Wonderland, uma clínica de 12 mil metros quadrados que paira acima de Beverly Hills, envolve uma nutricionista, instrutores de ioga, orientação espiritual e bastante flexibilidade. "O processo de recuperação não requer que o paciente fique isolado dos seus amigos, dos seus familiares ou da sua carreira", diz o website da clínica. "Reconhecendo as necessidades inerentes aos compromissos satisfatórios pré-existentes dos pacientes quando estes necessitam de tratamento, a Wonderland desenvolveu uma solução funcional para este problema bastante familiar".

Logan saiu para fazer compras quando esteve internada na Wonderland no início deste ano. Assim como ocorre na Promises, os pacientes que saem da clínica são acompanhados.

Samuels, que é psicólogo, diz que a Wonderland reconhece que a integração das pessoas de volta às suas vidas normais é parte importante da recuperação. "Se você passar o seu tempo integral em um centro de tratamento, quando sair não estará preparado para os estresses e ansiedades do mundo exterior".

Mas outros especialistas dizem que a atitude mais permissiva dos programas residenciais mais luxuosos é basicamente um reflexo das demandas de uma nova geração de viciados afluentes, mais mimados e menos inclinados a suportar a abordagem dura do passado. Há também um reconhecimento de que as cercas de quatro décadas de abordagem baseada nos métodos da AA resultaram em pouco sucesso.

"Não se trata de afirmar se o método é bom ou ruim. Estamos falando de um território desconhecido", diz Clare Waismann, diretora-executiva da clínica Domus Retreat, referindo-se à atual leniência encontrada nas clínicas. "Eles estão fazendo experiências com novas abordagens. Não dá para dizer a Lindsay Lohan que ela nunca mais poderá tomar uma cerveja pois, caso contrário, fracassará. Se fizermos isso ela vai de fato fracassar".

"Esses centros de tratamento funcionaram da mesma forma durante 40 anos, e o índice de sucesso foi extremamente baixo", diz ela. "Por razões empresariais, a maioria desses centros de reabilitação estão procurando se adaptar às novas celebridades e às suas necessidades, permitindo que elas trabalhem e retornem, que façam compras e usem os seus telefones celulares. Tudo isso é uma novidade para o mundo do programa dos 12 passos. Essas celebridades podem ser vistas como as cobaias da mudança no universo das clínicas de reabilitação".

A Domus Retreat não utiliza o modelo de 12 passos, com a sua ênfase no reconhecimento da dependência como um problema para a vida toda que pode ser controlado por meio de reuniões com outros viciados. Waismann adota uma abordagem médica para o problema do vício, baseada, segundo ela, em pesquisas israelenses com soldados viciados. A sua equipe usa drogas para ajudar os viciados durante o processo de abandono do vício, revertendo aquilo que seria um desequilíbrio químico no cérebro. A clínica cobra US$ 28 mil por mês.

Na Passages, Chris Prentiss, que criou o centro com o seu filho, também rejeita o método dos 12 passos. Alegando com convicção que conta com um índice de sucesso de 84,4% desde a inauguração da clínica em 2001, e ainda mais convictamente cobrando US$ 67.550 por mês, Prentiss diz que descobriu uma cura para o vício. Ele começou rejeitando a idéia, há muito aceita, de que o vício é uma doença.

Prentiss diz que o problema com a AA é o fato de a organização abordar os sintomas do vício - o desejo de beber ou usar drogas - em vez de se concentrar nas razões subjacentes pelas quais o indivíduo usa essas substâncias, algo que poder ter uma origem psicológica, ser causado por traumas pessoais ocorridos no passado ou situações da vida atual difíceis de suportar.

"Eles acreditam que o alcoolismo é uma doença, e uma doença incurável, e encaram a toxicomania da mesma forma", diz ele, referindo-se ao programa de 12 passos. "Isso é um truque sujo. Na Passages nós reforçamos a capacidade do indivíduo de se curar completamente da dependência. A primeira coisa que damos a ele é esperança: 'Você ficará bem'".

A abordagem da Passages envolve intensa supervisão terapêutica e médica individual, até 20 sessões pessoais por semana, a fim de descobrir por que motivos a pessoa busca uma realidade alterada. Ele diz que os pacientes geralmente não deixam as instalações da clínica. "Ao final do dia eles não desejam ir ao cinema, e sim dormir". Prentiss conta que foi chamado depois que Lohan bateu com o carro e que lhe pediram uma vaga para ela. "Mas eles queriam que ela trabalhasse dois dias por semana", recorda. "Então eu respondi que desse jeito ela não poderia participar do nosso programa".

A alegação de um índice de sucesso de 84,4% se baseia, de acordo com Prentiss, em entrevistas feitas por telefone com mil ex-pacientes da Passages, sem incluir os 12% com os quais houve perda de contato.

Ao ser indagado sobre isso, Rogg, da Promises, fala com ironia: "Isso é ridículo", diz ele. "Acredite, eles não têm um índice de sucesso de 84%. Ninguém tem. Parte do problema ao se falar sobre um índice de sucesso é que você está conversando com um alcoólatra para coletar tal informação, e ele está pronto para mentir e não apresentar os fatos de forma precisa". Um porta-voz da AA World Services, em Nova York, disse que a organização não coleta dados sobre os participantes e não é capaz de citar qual o nível de sucesso do seu programa de 12 passos.

Califano, do centro nacional de dependência, que se concentra em pesquisas e políticas públicas, diz que todo o sistema de tratamento é administrado com uma falta de padrões profissionais que seria inaceitável em qualquer outro campo da medicina. Ele tentou fazer com que os centros de reabilitação fornecessem dados ao seu grupo a fim de analisar a eficiência desses centros. "Uma análise objetiva exigiria que soubéssemos tudo que é feito com o paciente no centro de reabilitação, e que o acompanhássemos por um período de seis meses a um ano, fazendo exames de urina e cabelo", diz ele. "Mas ninguém nos deixa fazer tal coisa". UOL

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