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18/06/2007

Do que a África mais necessita? Tecnologia ou ajuda?

The New York Times
Jason Pontin
Acabo de retornar da Tanzânia, no oeste da África.

Durante as manhãs, não dando ouvido às reclamações dos guardas armados na minha pousada próxima a Arusha, fiz minhas corridas por trilhas lamacentas. Após fortes chuvas, e sob um céu enevoado, os campos pareciam tão arruinados quanto um campo de batalha. Agricultores paupérrimos e seus filhos olhavam curiosamente para mim enquanto eu passava por eles.

E durante as tardes, eu participava da conferência Tecnologia, Educação e Projeto (TED, na sigla em inglês) Global 2007, no moderno hotel Ngurdoto Mountain Lodge. O contraste entre as duas experiências me incomodou.

As conferências da TED, em sua maioria em Monterey, na Califórnia, são eventos apenas para convidados, e deles participam a aristocracia do Vale do Silício. As reuniões são conhecidas pela ousadia em aglutinar tendências totalmente díspares em tecnologia, negócios e artes.

Nesta ocasião, Bono, o irlandês que é astro de rock e defensor das causas africanas, persuadiu o organizador da conferência, Chris Anderson, a convidar a multidão de sempre, assim como empresários, ativistas, profissionais do setor de saúde e artistas africanos para esta região tropical e arborizada a meio caminho entre a Planície de Serengeti e o Monte Kilimanjaro.

Abrindo a conferência em 4 de junho, Anderson descreveu os seus objetivos como sendo francamente promocionais. Segundo ele, com muita freqüência as únicas imagens da África vistas pelos ocidentais são de seca, fome, doença e guerra civil. Contrastando com isso, a TED Global 2007 apresentou uma África dotada de um novo caráter empresarial, cada vez mais rica e sensata sob o aspecto tecnológico e em grande parte politicamente estável. "Essa é uma história que está se desenrolando por todo o continente. Uma história que não é muito conhecida fora da África", disse Anderson.

Mas além dessa mensagem panglossiana - por mais que ela tenha funcionado como um corretivo para as imagens comuns da miséria africana e apesar de cultivar o orgulho dos participantes africanos - havia algo que todos os participantes da conferência conheciam (e que eu via todas as manhãs durante as minhas corridas). Tanto pelo critério da renda per capita quanto pelo produto interno bruto das suas nações, a África é o lugar mais pobre da terra. A questão que a conferência estava realmente explorando era a seguinte: como é que podemos tornar todas as famílias africanas mais ricas?

Na TED Global 2007, testemunhei uma pequena rusga que faz parte de um conflito ideológico mais amplo entre aqueles que acreditam que a África necessita de mais e melhor auxílio internacional, e os que pensam que o espírito empresarial e a tecnologia retirarão o continente do estado de pobreza, reduzindo assim as suas misérias.

Como era de se prever, os participantes e palestrantes da TED mostraram-se encantados com a tecnologia e o espírito empresarial e, ao mesmo tempo, desconfiados em relação ao auxílio internacional. "Qual o homem que algum dia ficou rico estendendo uma tigela de esmolas?", questionou Andrew Mwenda, um jornalista e assistente social ugandense, que atualmente é pesquisador da Universidade Stanford, na Califórnia.

Mwenda argumentou que os US$ 500 bilhões em auxílio internacional durante 50 anos não surtiram nenhum efeito na África e que a persistência da pobreza africana pode ser explicada em parte exatamente por tal auxílio. Segundo ele, a caridade "distorceu a estrutura de incentivos" e persuadiu os africanos mais brilhantes a trabalhar para governos corruptos. Ele pediu aos empreendedores africanos que construíssem uma estrutura empresarial africana e aos investidores norte-americanos presentes na platéia da TED que os financiassem.

Concordando com Mwenda, Russel Southwood, o editor da "Balancing Act", um periódico sobre tecnologia na África, implorou aos empresários africanos e aos líderes empresariais do Ocidente que "investissem em carências". Segundo ele, a África poderia "saltar sobre" as tecnologias industriais usadas pelos ocidentais e construir sistemas tecnológicos e redes realmente condizentes com o século 21.

Como exemplo, Southwood apontou para uma quase ausência de linhas telefônicas fixas na África subsaariana. Redes de telefonia celular poderiam proporcionar rapidamente comunicações modernas para centenas de milhões de africanos.

Pelo menos um dos participantes africanos da conferência, Alieu Conteh, diretor da Vodacom Congo, representava o tipo de espírito empresarial preconizado pelo evento.

Conteh está construindo uma rede de telecomunicações onde antes não existia nenhuma. Com 600 funcionários e 5.000 contratados, a Vodacom Congo é uma das maiores empregadoras do país. Se ele também concretizar a sua ambição de criar uma bolsa de valores e oferecer ações da sua companhia, terá criado nova riqueza. Mas a história da Vodacom Congo também ilustra as dificuldades para a criação de novos negócios na África e os limites do espírito empresarial como alternativa ao auxílio internacional.

Conteh aceitou riscos que poucos negócios aceitariam, e durante muitos anos ele percebeu que era impossível atrair mais do que uns poucos investidores excêntricos. E o mais significativo é que Conteh demorou mais de uma década para fornecer serviços de telecomunicações a menos de 10% do país. Embora a existência da Vodacom Congo possa um dia ajudar a construir outros negócios, a pobreza geral do país não é aliviada pela existência da companhia.

Na verdade, a África necessitará tanto de investimentos em projetos empresariais quanto de auxílio internacional, direcionados inteligentemente para educação, saúde e alimentação.

Herman Chinery-Esse, o fundador da Softtribe, uma companhia de desenvolvimento de softwares em Gana, expressou as suas idéias de uma forma mais pessoal do que eu fui capaz de fazer. "Acredito que a dicotomia entre auxílio internacional e espírito empresarial é falsa", disse ele aos participantes da TED. "Se aguardarmos pelo espírito empresarial, isso demorará gerações, e as pessoas precisam de ajuda agora. Por outro lado, somente o espírito empresarial pode nos tornar ricos". UOL

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