UOL Notícias Internacional
 

18/06/2007

Por trás das bandanas de Che, sombras de milícias potenciais

The New York Times
Simon Romero

Em Caracas, Venezuela
Aqueles que visitam o Coletivo Alexis Vive, um dos grupos pró-Chavez mais radicais que se desenvolveram nas favelas que ficam nas encostas da margem ocidental da cidade, podem ver a escrita na parede - literalmente - à medida que se aproximam. O quartel-general do grupo fica logo depois de murais de Jesus com um rifle de assalto e Che Guevara baforando um charuto.

Michael Stravato/The New York Times 
Antes da eleição de Chávez, a polícia classificava os grupos esquerdistas como criminosos

O coletivo, liderado principalmente por estudantes universitários na faixa dos 20 anos, penetrou na consciência venezuelana nas últimas semanas, após seus membros terem sido filmados pichando a sede da Globovision, a única rede de televisão de oposição remanescente, em meio ao crescente debate aqui em torno da liberdade de expressão.

"Nós somos marxistas-leninistas", disse Robert Longa, 30 anos, o principal porta-voz do grupo, de forma indiferente em uma recente entrevista, como se o Muro de Berlim nunca tivesse caído. "Os contra-revolucionários da Globovision fizeram sua própria pichação nas consciências do povo venezuelano. Nós sentimos que tínhamos que reagir a eles."

O coletivo é um dos mais proeminentes dos mais de 40 grupos, muitos deles armados e organizados em torno de várias escolas de pensamento esquerdista, que funcionam na 23 de Enero, um extenso complexo habitacional entremeado por barracos improvisados, disse Alejandro Velasco, um historiador do Hampshire College em Amherst, Massachusetts, especializado em movimentos esquerdistas venezuelanos.

Os decadentes blocos de apartamento retangulares modernistas, um projeto inspirado em Le Corbusier construído nos anos 50, há muito servem como ninho de subversão e são agora considerados um importante baluarte de apoio para o presidente Hugo Chávez.

A polícia classificava todos os grupos esquerdistas armados na 23 de Enero como criminosos até a eleição de Chávez para a presidência em 1998, principalmente por causa de sua ideologia. Mas estas organizações agora são abraçadas pelo establishment político socialista da Venezuela.

Os críticos de Chávez dizem que ele permite que estes grupos operem livremente - nenhum dos membros do Alexis Vive foi preso pelo ataque à emissora de televisão, por exemplo. E isto provoca a preocupação de que o presidente está na prática formando um sistema de apoio paramilitar ao seu governo em caso de uma crise.

"Estes grupos são encorajados, não apenas tolerados", disse Alberto Garrido, um analista político daqui. "Altos estrategistas militares acreditam que um confronto com os Estados Unidos é inevitável, durante o qual eles prevêem uma fusão entre as forças armadas e as milícias civis semelhante à que vemos no Iraque."

Apesar da deterioração das relações políticas, as autoridades americanas disseram repetidamente que não têm planos de agir militarmente contra a Venezuela. Ainda assim, após o apoio indireto do governo Bush ao golpe que o derrubou brevemente em 2002, Chávez diz regularmente que Washington está tentando desestabilizar seu governo.

Ele insiste, por exemplo, que os Estados Unidos estão por trás dos imensos protestos estudantis que agitaram o país nas últimas semanas, após sua decisão impopular de tirar do ar a RCTV, a maior emissora privada de TV do país e uma forte crítica do governo.

O Alexis Vive, que apóia abertamente a retórica do presidente que tem sacudido com a classe abastada da Venezuela, é contrário aos movimentos de protesto envolvendo principalmente a classe média e aponta para a resistência da base de Chávez, apesar do declínio do seu índice de aprovação, provocado em parte pela decisão da RCTV.

Às vésperas do último mês de transmissão da RCTV, os membros do coletivo, montados em motocicletas e usando bandanas para ocultar suas identidades, picharam as paredes externas dos estúdios da Globovision com slogans a acusando de servir aos interesses dos Estados Unidos e da elite endinheirada da Venezuela.

Logo depois, Chávez ameaçou processar a Globovision, alegando que transmitia imagens com mensagens subliminares que visavam incitar uma tentativa de assassinato contra ele.

O coletivo também pichou a fachada da sede da Fedecamaras, a principal federação empresarial do país, alegando que ela estava conspirando para provocar a escassez de alimentos básicos que atualmente atinge muitas partes da Venezuela.

Em uma entrevista em sua sede, onde o coletivo montou o que descreveu como uma sala de situação para monitorar o noticiário das cinco principais emissoras de TV da Venezuela, os líderes do grupo disseram que uma campanha de desinformação contra eles está em andamento.

Seus membros disseram que os relatos na imprensa local os culpando pela detonação de um pequeno artefato explosivo na Universidade Central da Venezuela eram infundados. Um conflito armado, disseram os membros, só seria empregado caso suas opções se esgotassem.

"A imprensa burguesa passa uma imagem errada nossa como a de fora-da-lei", disse Fausto Castillo, que descreveu o 23 de Enero como um teatro para atividade insurgente. "Nós estamos apenas respondendo aos elementos reacionários, como se aqui fosse Belfast, Gaza ou El Chorrillo", a área no Panamá que viu os primeiros combates pesados durante a invasão dos Estados Unidos ao país em 1989.

Os líderes do coletivo não empunhavam nenhuma arma durante a recente entrevista, apesar de outros visitantes ao QG deles em um prédio de propriedade do Estado terem dito que estão bem armados, assim como fotos dos membros do coletivo que circularam pela Internet os mostram disparando armas nos arredores do 23 de Enero.

Uma organização mais antiga, os Tupamaros, batizada em homenagem a um movimento de guerrilha urbana uruguaio, há muito é o grupo armado mais proeminente no 23 de Enero. Os Tupamaros até contam com seu próprio partido político, dissolvido neste ano para se tornar parte do Partido Socialista de Chávez.

Juntamente com o Grupo de Trabalho Piedrita, uma organização que supostamente tem laços estreitos com as forças armadas venezuelanas, o Alexis Vive é o mais visível dos novos grupos que foram formados e entre os mais radicais em sua ideologia pró-comunista.

Velasco, o historiador do Hampshire College, disse que os grupos viram Chávez como "um ferramenta para atingir as metas estratégicas" de implementação de uma sociedade socialista. "Eles se vêem primeiro como revolucionários e depois como chavistas", ele disse.

Ainda assim, os líderes da Alexis Vive disseram admirar a capacidade de Chávez de liderar uma ampla transformação da sociedade venezuelana e deixaram claro como reagiriam em caso de surgimento de uma resistência mais acentuada ao governo do presidente - tanto fora como dentro do país.

"Nós não somos a polícia nem a guarda nacional, mas se houver um golpe ou um esforço para assassinar o comandante, nós iremos às ruas para defender a revolução", disse um membro de 25 anos como o nome de guerra de Americo Gallego, usando o título militar que os simpatizantes mais ardorosos de Chávez costumam empregar para descrever o presidente. "Se Chávez quiser a nossa reação, nós reagiremos." George El Khouri Andolfato

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