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19/06/2007
Arqueólogos buscam reino antigo que será inundado por represa no Nilo

John Noble Wilford

Na periferia da história da Idade Antiga, havia uma terra conhecida como Kush. Eclipsada pelo Egito, ao norte, Kush era uma região de dimensões desconhecidas e estava localizada muito a montante do Rio Nilo; um mistério que chegava à beira do mito.

Courtesy of University of Chicago/The New York Times 

Uma coisa que os egípcios sabiam e registraram: Kush tinha ouro.

Os pesquisadores acabaram descobrindo que a cultura de Kush era mais rica do que se suspeitava. A partir de documentos egípcios decifrados e pesquisas arqueológicas modernas, sabe-se agora que durante cinco séculos no segundo milênio antes da era cristã, o reino de Kush exibiu grande talento político e militar para manter o controle sobre um vasto território na África.

O sucesso do governo de Kush parece ter sido anômalo. Ou então as idéias convencionais a respeito da constituição de um Estado se baseiam muito estreitamente nas experiências de civilizações antigas como a Mesopotâmia, o Egito e a China. Como poderia existir uma sociedade altamente complexa sem um sistema de escrita, uma extensa burocracia ou grandes centros urbanos, coisas das quais Kush evidentemente carecia?

Agora os arqueólogos estão encontrando algumas respostas - ou pelo menos pistas intrigantes - que emergem antes que as águas do Nilo se elevem por detrás de uma nova represa construída no norte do Sudão. Escavações feitas às pressas estão revelando antigos centros habitacionais, cemitérios e centros de processamento de ouro em regiões anteriormente inexploradas.

Em recentes relatórios e entrevistas, os arqueólogos disseram ter encontrado amplas evidências de que o reino de Kush, durante o seu apogeu, de 2000 A.C. a 1500 A.C. , exerceu controle, ou pelo menos influência, sobre um trecho de 1.200 quilômetros de extensão no Vale do Nilo. Conforme comprova um monumento egípcio, esta região se estendia da primeira catarata do Nilo até uma região a montante do rio que fica além da quarta catarata.

A área cobria parte da grande região geográfica de fronteiras indeterminadas conhecida na antiguidade como Núbia. Alguns arqueólogos acreditam que as descobertas demonstram que os governantes de Kush foram os primeiros na África subsaariana a exercer controle sobre um território tão vasto.

"Isso faz de Kush um agente mais importante do que pensávamos na dinâmica política e militar da época", afirma Geoff Emberling, um dos líderes de uma expedição da Universidade de Chicago. "O estudo de Kush ajuda os pesquisadores a fazerem uma idéia melhor do significado de Estado em um contexto antigo fora de centros de poder estabelecido no Egito e na Mesopotâmia".

Gil Stein, diretor do Instituto Oriental da Universidade, afirma: "Até agora, praticamente tudo o que sabemos a respeito de Kush é proveniente dos registros históricos dos seus vizinhos egípcios e das limitadas explorações da arquitetura monumental de Kerma, a capital de Kush".

Para os arqueólogos, o fato de saberem que uma terra cercada de mistérios e praticamente inexplorada será em breve inundada provoca a mesma sensação que, segundo Samuel Johnson, acomete os condenados à forca na noite que antecede a manhã do enforcamento. É algo que se concentra na mente.

Nos últimos anos, equipes arqueológicas do Reino Unido, da Alemanha, da Hungria, da Polônia, do Sudão e dos Estados Unidos estão engajadas em uma corrida contra o tempo para fazer escavações nos sítios que em breve estarão submersos. As equipes ficaram surpresas ao encontrar centenas de ruínas de centros habitacionais, cemitérios e amostras de arte em pedra que nunca haviam sido estudados. Uma das mais amplas operações de resgate está sendo dirigida por Henryk Paner, do Museu Arqueológico de Gdansk, na Polônia, que, só em 2003, pesquisou 711 sítios arqueológicos.

"Esta área é tremendamente rica sob o aspecto arqueológico", afirmou Derek Welsby, do Museu Britânico, em um relatório publicado no inverno passado na revista "Archaeology".

A magnitude do esforço para o resgate não chega a se comparar com a resposta, na década de 1960, à represa Aswan, que inundou uma parte da Núbia que chegava até ao sul do Egito. Templos imponentes que os faraós erigiram em Abu Simbel e Philae foram desmantelados e reconstruídos em locais mais elevados.

No entanto, os kushitas não deixaram nenhuma obra grandiosa de arquitetura para ser salva. O reino deles declinou e finalmente desapareceu, ao final do 16° século anterior à era cristã, à medida que o Egito se tornava mais poderoso e expansionista sob a liderança dos governantes do período conhecido como Novo Reino.

Tradução: UOL

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