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19/06/2007

Um militante combate de um porão na rua Emergência

The New York Times
Nada Bakri

No campo de refugiados Ain Al Hilme, Líbano
Em uma tarde recente, com a fumaça ainda saindo pelos prédios incendiados em batalha feroz entre militantes islâmicos e o exército libanês, um homem chamado Abu Omar apresentou seu bairro esquálido.

Tyler Hicks/The New York Times 
Abu Omar deixou o Fatah quando sentiu que o grupo estava minimizando a causa palestina

Abu Omar, militante islâmico, está entre os mais carismáticos líderes do campo, amado por seus partidários e detestado pelos que dizem que os militantes não levam a nada além de destruição aos palestinos. Uma senhora o detém. "Graças a Deus o senhor está bem", diz ela, abraçando-o e beijando-o três vezes em cada bochecha barbuda. "Minha casa foi completamente queimada", disse. "Não se preocupe com isso", respondeu o líder enquanto segurava suas mãos. "Vamos consertá-la, ou a senhora recebe uma nova. Não se preocupe, tudo será consertado."

A batalha mostra como o Líbano se tornou frágil. Enquanto o exército libanês combatia militantes no campo de refugiados de Nahr al Bared, no Norte, um tiroteio entre o exército e militantes eclodiu aqui no campo perto de Sidon. Abu Omar diz que o confronto começou após um soldado provocar um "irmão".

"Ele estava dizendo: 'Estamos derrotando vocês em Nahr al Bared, estamos queimando vocês'", disse Abu Omar. "Então, começou a atirar contra o irmão, que foi para casa, pegou sua arma e atirou de volta."

O governo nega essa versão dos eventos, mas, de um jeito ou de outro, o campo é altamente inflamável, e Abu Omar, cujo nome verdadeiro é Chehadeh Jawhar, é um claro símbolo da fragilidade do governo libanês.

Mesmo antes da atual crise política, com facções pró-americanas lutando para conter o poder de partidos pró-síros e pró-iranianos, o Líbano era uma nação sem instituições, um lugar onde o poder era dividido entre seitas religiosas. O Estado dava liberdade aos palestinos de morar em 12 campos de refugiados dentro de suas fronteiras. Nos campos, são imunes às regras, leis, polícia e vigilância do país, mas condenados a uma vida de degradação e a um status de segunda classe.

Para aqueles como Abu Omar, com uma agenda política militante, isso criou 12 locais diferentes para montar suas filiais e 12 bases para esconder-se e conduzir operações. Abu Omar vive na rua Emergência, uma viela cercada de sujeira. Ele leva os visitantes ao seu porão.

Dando de ombros, apontou para um canto na sala escura onde tem armazenado TNT, explosivos plásticos e armas. Ele sorriu, depois abriu caixas e mochilas escolares pretas, revirando uma mistura de munição, minas terrestres caseiras e fios detonadores. Os explosivos guardados em seu porão eram semelhantes aos usados para desestabilizar o Líbano desde o assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Arfik Hariri, em fevereiro de 2005. Não há forma de saber se aquele porão foi a fonte de alguma dessas bombas.

Uma explosão recentemente destruiu uma loja de pneus na rua Emergência, enquanto Abu Omar e outros militantes extraiam TNT de uma bomba de 107 milímetros, aparentemente para usar em outras bombas, de acordo com agentes de segurança libaneses -que falaram sob condição de anonimato, porque não foram autorizados a falar à mídia.

Abu Omar e dois militantes ficaram feridos; dois outros morreram. "A vitória não é exigida de nós, e sim estarmos prontos para a jihad em nome de Deus, prontos para reinstalar o governo islâmico e o califado muçulmano", disse ele em entrevista antes da explosão. "É normal. Se o exército atira contra nós, atiramos contra eles - normal", disse ele.

Abu Omar, 37, foi combatente da Fatah de Iasser Arafat, ex-presidente da Autoridade Palestina. Eletricista que virou contrabandista de armas, ele disse que deixou o grupo quando sentiu que seus líderes "estavam minimizando" a causa palestina. "A palestina não é só para palestinos; Jerusalém não é só para palestinos, é para todos os árabes e muçulmanos."

Ele diz que é procurado pelo governo libanês desde 1991 por uma série de delitos. "Crimes que não podem ser contados", vangloria-se. "É normal, normal."

Um alto oficial libanês confirmou que Abu Omar é procurado em conexão com inúmeras mortes e atentados. Ele não pode deixar o campo - ao menos, pelo portão da frente, à luz do dia. Ele diz que agora é membro do Esbat Al Ansar, grupo considerado terrorista por Washington. No campo, ele construiu uma casa, casou-se e teve oito filhos.

Segundo o oficial, acredita-se que Abu Omar deixou as fileiras do Esbat Al Ansar e agora é membro de uma facção ramificada, chamada Jund as-Sham.

Abu Omar passeia pelo campo como se fosse um astro esportivo, ou o prefeito. Ele pára na casa da mãe que acabara de voltar de uma peregrinação à Meca, na Arábia Saudita. Ele a abraça e beija; ela agradece a Deus por sua segurança. Suas irmãs enchem-no de mais beijos. "Sentimos sua falta", dizem.

Táxis e seus clientes também param para festejar sua sobrevivência à batalha. Mais moradores e vizinhos entraram na fila.

Presos entre o Exército e Abu Omar e seus partidários, estão os que simplesmente lutam para sobreviver e vêem os grupos militantes como sementes de sua própria devastação.

"Eles queimaram as casas, queimaram nossas casas", disse um refugiado palestino que deu o nome de Abu Iyead, por medo de reprimendas. Ele disse que sua loja de perfume e sua casa, as duas na Rua Emergência, tinham sido incendiadas. "Se o exército me der um uniforme, atiro neles agora mesmo", disse ele.

"Queremos nos livrar de todos esses problemas", disse Mustapha Razi, outro refugiado. "Se meu irmão estiver criando problemas, quero me livrar dele."

Mas eles sabem que não podem, e que o exército tampouco. Se a luta for retomada, eles disseram que farão o que fizeram há alguns dias: fugir. Abu Omar diz que é improvável o retorno dos confrontos. Mas se voltarem, disse, os civis fora do campo serão alvos. "Se o exército atirar contra nós novamente, vamos atirar nos civis em Sidon."

E entrou na casa de sua mãe e irmãs. Deborah Weinberg

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