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24/06/2007

Amor Moderno: Minha virgindade deixou de ser uma opção e virou um fardo

The New York Times
Kate McGovern*
do New York Times
"Você está grávida?", Sabrina me perguntou.

"Não", eu disse. Eu estava encostada à divisória plástica na enfermaria da clínica onde eu trabalhava em meio período entrevistando pacientes para um estudo psicológico sobre depressão. Normalmente, meu contato com Sabrina ou com qualquer outra enfermeira era rápido, só para eu localizar os pacientes que haviam apresentado sintomas de depressão.

Naquela manhã, porém, eu tinha desmaiado no trem a caminho do trabalho.
Antes, meus desmaios ocasionais -oficialmente conhecidos como síncope
vasovagal- tinham sido provocados por fontes de dor específicas: uma dor de estômago forte ou um torcicolo.

David Chelsea / The New York Times 
'Eu era meio atrasada, muito seletiva, e quem quer fazer sexo num beliche?'


Eu havia me acostumado a prever esses episódios pouco antes de eles começarem. Mas naquela manhã, no trem, veio sem avisar, quando eu estava me sentindo bem, o que me deixou bastante assustada e me fez procurar Sabrina na enfermaria.

Sabrina era minha enfermeira preferida. Ela usava óculos de gatinho com aros plástico floridos e guarda-pós compridos e acinturados, como os vestidos dos anos 80 que se encontram nos brechós. Às vezes eu a via fazendo o "serviço de cozinha", como ela dizia, esvaziando bacias de instrumentos ensangüentados nas manhãs de quarta-feira.

A manhã de quarta-feira era conhecida como "clínica de procedimentos". Às vezes, "procedimento" significava a remoção de um cisto, a colocação de DIU ou alguma outra coisa, mas geralmente queria dizer aborto.

Naquela manhã, o rabo-de-cavalo de Sabrina estava quase na sua cintura, avolumado por uma extensão de cabelo. Seu guarda-pó era bordô. Ela batucou com as unhas de acrílico no balcão plástico e me olhou de cima a baixo.

"Tem certeza de que não está grávida?", perguntou.

Definitivamente, eu não estava grávida. A gravidez era na verdade uma impossibilidade científica para mim. Não porque eu tivesse tido um ou dois meses muito tranqüilos (mas foi isso que indiquei para Sabrina, revirando os olhos num gesto calculado), mas porque, aos 25 anos, por mero acaso, eu ainda era virgem.

Quando se é uma mulher em idade de ter filhos, a maioria das visitas ao médico provoca algum tipo de pergunta sobre a situação do seu útero. Na clínica da minha faculdade, não importava por que você os procurasse: olhos vermelhos, tornozelo distendido, bebedeira -qualquer coisa parecia um potencial sintoma de gravidez, Aos 19 anos, desejando apenas um analgésico ou um xarope, eu conseguia rir com facilidade dessa pergunta. "Ainda sou virgem", dizia ao médico, enfermeira, recepcionista -qualquer um que perguntasse. Minha virgindade parecia absolutamente normal para mim na época, e era. Muitas de minhas amigas também ainda eram virgens. Eu era meio atrasada nesse aspecto, era muito seletiva, e de qualquer modo quem quer fazer sexo num beliche?

Mas, conforme passavam os anos sem sexo, eu me tornei menos franca sobre os detalhes da minha virgindade. Dois dias depois de completar 24 anos, fui a um gastroenterologista com uma dor tão aguda que eu quase não conseguia ficar em pé.

O médico a quem mostrei meu ventre distendido parecia incrédulo. "Então você está realmente sentindo dor? Tem certeza de que não está grávida?"
Certeza.

"Quer fazer um teste de gravidez só para ter certeza?"

Não, realmente não é necessário.

Três horas depois, tendo passado pelo gastroenterologista, o radiologista e o ginecologista e voltado, eu estava irritada. Sentia dor, tinha sido explorada intimamente por três médicos diferentes com três equipamentos diferentes, e tinha sido lembrada de minha inexperiência sexual pelo menos cinco vezes.

Depois de tudo isso, afinal, era apenas um cisto ovariano rompido que tinha inchado minha barriga e causado a dor que o gastro não acreditava que eu sentia.

Quando voltei ao seu consultório, ele riu -uma risadinha desdenhosa que me fez momentaneamente odiá-lo e a toda a sua espécie desprovida de ovários.

"Bem, acho que você não está grávida!", ele exclamou.

Naquela altura, se eu quisesse cumprir a promessa que fiz para mim mesma aos 21 (de perder a virgindade até os 25), eu só tinha mais um ano. Então, quatro anos pareciam incrivelmente distantes. Mas conforme aquele aniversário crescia no meu calendário mental minha virgindade também parecia cada vez maior, até que entrei num estado de quase pânico e disse a mim mesma que estava na hora de conhecer alguém, qualquer um, e resolver aquilo.

Então procurei -em bares, em festas de amigos, no metrô, em cafés- e conheci muitos homens perfeitamente decentes. Mas continuava virgem. Nunca tomei realmente a decisão de não ser mais.

Para injetar um pouco de humor muito necessário na situação, cheguei a anunciar minha virgindade na Craigslist. Eu não pretendia continuar com "meu pequeno experimento", como eu dizia a minhas amigas, brincando. Mas fiquei curiosa para ler as respostas que chegaram (mais de cem na primeira hora).

Não fiquei tão surpresa com o volume de respostas, mas sim com sua ampla variedade. Previsivelmente, havia os que se ofereciam para "me dar algo especial", "fazer direito" e outras variações do tema. Também havia homens que confessavam ser virgens mais velhos.

Mas as respostas que mais me surpreenderam (e magoaram) foram as de homens que estavam ostensivamente me protegendo. "Se você esperou tanto tempo, não seria melhor esperar até que seja realmente especial?", disse um deles.

Eu era realista demais para pensar que esperaria até encontrar o homem ideal. Mas a turma bem-intencionada da Craigslist tinha razão, em parte. Eu não tinha esperado todo esse tempo só para perdê-la para um sujeito qualquer e me livrar dela.

Infelizmente, essa percepção não ajudou a aplacar minha ansiedade.

Quando minhas amigas me diziam para esfriar a cabeça, que eu era bonita e simpática e que a coisa aconteceria quando chegasse a hora, eu ficava ainda mais maluca. Por que a hora certa ainda não tinha aparecido? E se nunca viesse?

Com o tempo, passei a ver todo o meu sistema reprodutivo como uma afronta pessoal. Todo mês, minha menstruação, que havia sido irritantemente regular desde o dia em que começou, servia apenas como um lembrete de que não havia possibilidade de eu estar grávida. Eu tinha certeza de ouvir risadinhas malvadas saindo da caixa de tampões quando a abria.

Para a maioria das mulheres como eu (que esperamos ser mães algum dia, mas não agora), o desconforto premonitório da TPM vem como um alívio, mais uma evidência de que as pílulas anticoncepcionais, o DIU, a camisinha ou qualquer outra opção contraceptiva funcionou.

Mas, quando eu sentia minhas emoções exacerbadas e minha barriga se contorcer, não havia um suspiro de alívio. Somente um suspiro. Lá se foi mais um mês...

Então, uma semana, duas amigas íntimas me telefonaram com poucos dias de intervalo, ansiosas porque suas regras estavam atrasadas. Eu fingi simpatia.

Provavelmente é só estresse, sugeri; você devia relaxar. De repente, porém, a minha também atrasou. Não um dia ou dois, mas mais de uma semana -coisa especialmente rara para mim, e certamente o suficiente para deixar uma garota preocupada, se tivesse motivos para isso.

Mas me vi cada vez mais enciumada da ansiedade de minhas amigas. Eu não deseja uma gravidez imprevista, é claro, mas sim o medo da possibilidade de isso acontecer.

Não invejava as mulheres que via na clínica toda quarta-feira, esperando seus "procedimentos". Acredito no direito da mulher de fazer essa opção, mas não desejava estar naquela mesa, com os pés para cima.
Mas a possibilidade da concepção (e talvez o medo que a acompanha) faz parte da feminilidade. Sem ela, eu me perguntava -imaginando os óvulos solitários flutuando dentro de mim sem o potencial de fertilização-, eu era uma mulher plena?

Eu sei, eu sei: o sexo e a concepção não estão relacionados para muitas mulheres, seja por causa de sua sexualidade ou de sua fertilidade ou de opções pessoais, e eu jamais questionaria a legitimidade de sua feminilidade. Uma mulher é muito mais que a capacidade de gerar filhos. Sei disso, acredite. No entanto, eu queria essa possibilidade.

Naquele dia na clínica, Sabrina olhou para mim por cima dos óculos, com uma sobrancelha levantada. Eu estava disposta a fazer o teste de gravidez, se ela sugerisse. Pagaria por um teste inútil antes de admitir para esta ou qualquer outro profissional de saúde que ainda era virgem aos 25. Como eu contei a Sabrina a verdade, também me senti obrigada a lhe contar que eu não era pudica, que sentia forte atração por homens, tinha dormido com seu hálito no meu cabelo e sua pele contra a minha, mas só essa coisinha, na verdade esse detalhe técnico -embora eu soubesse que era mais que isso- me havia escapado.

Mas Sabrina não precisava de tanta informação. Minha virgindade não era um grande caso para ela. Ela havia acabado de passar a manhã limpando os pequenos aspiradores que esvaziam os úteros de mulheres que poderiam ser muito parecidas comigo, exceto por essa coisa enorme. No máximo, minha virgindade teria parecido a Sabrina uma opção sábia, ou pelo menos segura.

Mas eu não conseguia vê-la dessa maneira. Minha virgindade tinha me prendido na infância, e aos 25 eu estava disposta a mentir para parecer que estava muito longe dela, mesmo que só por um momento, para uma só pessoa. Estava disposta a mentir, e até a pagar, pela ilusão de normalidade.

Fiquei quase decepcionada quando Sabrina não sugeriu o teste de gravidez. Em vez disso, ela me mandou para um médico que, depois de perguntar se eu estava grávida, garantiu que eu estava bem. Mas a idéia de que eu poderia mentir sobre a virgindade me perseguiu, e pouco depois comecei a tomar pílulas. Disse a mim mesma (e a meu ginecologista, e a minha mãe) que queria diminuir as câimbras que se tornaram cada vez mais incômodas no último ano ou dois.

Isso era verdade, em parte. Mas eu também queria trazer a fantasia para o mais perto possível da realidade. Para tanto, paguei US$ 24 mensais pela prescrição e enchi meu corpo de hormônios de que realmente não precisava.

Loucura, eu sei. Mas menos de três meses depois que comecei a tomar a pílula, como se aqueles pequenos comprimidos tivessem enganado meu corpo de várias maneiras (e, devo acrescentar, no momento em que decidi parar de me preocupar com isso), eu perdi a virgindade.

Meu impulso foi ir correndo até Sabrina e finalmente fazer o teste de gravidez, apesar de ter quase certeza do resultado. Quase certeza, mas não totalmente. E em algum lugar, nessa medida de incerteza, estava a mulher que eu queria ser.

Textos de Kate McGovern estão publicados em "Twentysomething Essays by Twentysomething Writers" (Random House, 2006). Ela vive em Nova York. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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