UOL Notícias Internacional
 

26/06/2007

Na Antuérpia, uma rua onde pechinchar faz parte do charme

The New York Times
Andrew Ferren
A cidade de Antuérpia acorda tarde e languidamente num domingo. Às dez da manhã em uma agradável manhã de abril, os garçons estavam por ali arrumando as mesas ao ar livre ao longo da normalmente agitada Hoogstraat, que vai do Grote Markt até a Sint-Jansvliet. Por aqui o pequeno mercado de pulgas das manhãs de domingo estava ainda no começo, com os vendedores desembalando artigos que poderiam ser atraentes para qualquer um com certa inclinação para a taxidermia (uma raposa arrogante com o dorso proeminente destacava-se facilmente) ou então uma primeira edição, em holandês, do livro "Der Dochter van Mistral", de Judith Krantz.

Herman Wouters/The New York Times 
Kloosterstraat tem quase dois quilômetros de antiquários exóticos, cafés e restaurantes

Burguês na melhor acepção do termo, o movimentado cais de Antuérpia há muito tempo tem sido território fértil para os amantes de antiguidades. Muitos fatores beneficiaram a cidade nesse aspecto, como os séculos de interseção do comércio próspero, o gosto refinado e o acesso ao que há de melhor pelos mercados do mundo.

Mas agora com o dólar americano praticamente afundando em relação ao euro, o charme das sofisticadas lojas de antiguidade desta cidade flamenga pode parecer um tanto fora de alcance. Graças a Deus existe a Kloosterstraat, com seus quase dois quilômetros de antiquários exóticos (e muito mais em conta que os outros), cafés abertos durante 24 horas e restaurantes étnicos que conectam física e metaforicamente o congestionado centro tradicional da cidade com a zona sul da cidade, mais aristocrática.

O melhor de tudo é que a Kloosterstraat vai além de simplesmente ficar aberta aos domingos - quando fica fechada a maioria de estabelecimentos de varejo além de bancas de jornal e lojas de lembranças. A rua se transforma numa festa que dura o dia inteiro, atraindo tanto os residentes como os visitantes.

Como as lojas só abrem no altamente civilizado horário das duas da tarde, as horas restantes podem ser bem aproveitadas para recarregar as sensibilidades estéticas no acessível museu Koninklijk voor Schone Kunsten (que em holandês quer dizer museu de belas artes). O museu ocupa a praça que fica na extremidade sul da Kloosterstraat, e se considerarmos que ao longo dos séculos o talento local incluiu artistas como Rubens, Van Dyck e Jordaens, este é um "desvio de rota" que vale a pena.

De volta à rua por volta das duas da tarde, as lojas não apenas estavam abertas, mas com calçadas fervilhantes, onde muitos negociantes haviam colocado algumas de suas cadeiras mais cômodas para fazer negócios na rua. Tomando um sol enquanto folheavam revistas de design, as amigas e teoricamente empresárias concorrentes Anita e Rita rapidamente explicaram o comportamento tranqüilo - e o charme - da rua.

"Naturalmente 'os verdadeiros antiquaires' estão lá em cima, na Leopoldstraat," segundo Anita, cuja loja, Docks for Antiques, no número 64, parece vender de tudo, de lustrosos móveis em mogno a esculturas de jardim e alguns excêntricos manequins dos anos trinta. Só pelo jeito especial dela pronunciar antiquário em francês dá para imaginar tesouros exóticos por preços excessivamente elevados, a alguns quarteirões ao sul.

"Nós somos brocanteurs, vendendo peças que talvez não sejam tão antigas mas que freqüentemente são muito, muito boas", disse. "Agora mesmo, você pode conferir por aqui maravilhosos representantes do design dos anos 50, 60 e 70." Rita, da loja igualmente eclética Delphic, no número 60, acrescentou: "É uma grande mistura - temos tudo, do kitsch às belas artes. Aos domingos, este é o lugar para se freqüentar. Cada um encontra alguma coisa que combina com seu gosto."

No mundo tão cuidadosamente delimitado dos antiquários europeus, brocante é um termo prático que abrange tudo que vá das roupas de brechó ao bric-a-brac, passando pela boa mobília e pela prata fina, tudo tipicamente com menos de 100 anos de existência.

Na Tita Flying Carpet (número 86), o brocante quer dizer que os kilims (tapetes turcos) bem vintage voltaram redesenhados em composições gráficas mondrianescas que ressaltam harmonias sutis de cores em seus fragmentos de lã de carneiro tingidos em tinta vegetal. Se fosse uma pintura, o deslumbrante tapete de quase dois metros de altura por mais de três metros de largura, em vários tons de vermelho na parede ao fundo da loja, bem poderia ser intitulado de "Ode à Sopa de Tomate."

Uma loja relativamente nova no pedaço é a Old and the Beautiful, no número 54, que se especializa em antiguidades suecas. A estrela da exposição, disposta como num museu, era um ambiente composto por uma poltrona barroca elegantemente esculpida com tinta azul original acompanhada por uma rara e enorme mesa "bockbord" do século 17, que em vez de ter quatro pernas é apoiada em dois troncos rusticamente lapidados, que o negociante Geert de Bruuycker chamou de "a mãe de todas as mesas suecas" e com o preço devidamente estipulado em 12.500 euros (U$16.828, com o euro cotado a U$1,37).

Depois de uma mostra tão arrumada e compacta da asséptica prudência escandinava, a porta seguinte, na abarrotada t'Koetshuis ao número 52, é como uma liquidação pan-cultural com um pouco de tudo - de um moderno jogo de jantar francês dos anos 30 à prataria pesada de hotel e uma pilha de aproximadamente 1.000 guardanapos de linho, aposentados recentemente por uma empresa local fornecedora de restaurantes. Sua cor original caramelada foi suavizada por sucessivas lavagens e passadas, se transformando no que somente pode ser descrito como tom de trigo perfeito. Por 0,50 euro cada, eu comprei 50 e assim resolvi uma eventual e constante aflição pré-jantar que possa ocorrer num futuro próximo.

Comemorando todo esse evento com revigorante café e sanduíche de panini com queijo feta e tomate no Take 5 Minutes in Paris (no número 50 da mesma rua Kloosterstraat), eu tirei uns 15 minutos para um banho de sol no pátio dos fundos, de vegetação exuberante. Numa mesa vizinha, típicos personagens do mundo das artes se aglomeravam sob um enorme guarda-sol cheio de franjas decorado com padronagem de rosas centifolias; parecia um flagrante extraído de uma foto de Diane Arbus.

Em termos musicais, as lojas da Kloosterstraat parecem estar mancomunadas umas com as outras para só tocarem hits "pra cima" de décadas atrás, tipo "Vamos a la Playa" - e sem dúvidas aumentam as vendas com essa áudio-nostalgia. Entre faixas de discos das irmãs Andrews Sisters na Erik Tonen Books (número 48), um cãozinho galês corgi suspirou enquanto afundava no sono, como se dando conta que seu dono iria realmente ler o livro inteiro por ali.

Dentro de sua loja iluminada à moda teatral no número 36, a negociante Barbara Annaert estava ocupada cumprimentando tanta gente em meio ao fluxo de caras novas e familiares, pessoas atraídas pela maravilhosa mesa em cavalete que ela delicadamente combinou com a janela e o jogo levemente decadente de cadeiras Windsor dos anos 50. As vendas aconteciam, mas o papel de Barbara parecia mais com o de uma hostess do que com o de uma vendedora, sendo ela uma anfitriã que alegremente sobe nas cadeiras para medir seus candelabros ou então para tirar fotos digitais que manda por e-mail para os clientes. Não estava à venda - mas gerava muitos comentários- um deslumbrante arranjo de tulipas ultraflorescidas da cor de um drink tequila sunrise, o que tudo tinha a ver com o clima de coquetel reinante.

Mas nem tudo são flores. Ao final da tarde, a massa de visitantes pode aumentar e os temperamentos podem engrossar. Em minha segunda visita à superlotada loja dedicada aos utensílios de mesa, a Cru, no número 19 da perpendicular Sint-Michielstraat, meu interesse e o manuseio excessivo de um reluzente jogo de pratos vermelhos anos 70 fizeram com que o proprietário da loja dobrasse o preço que me havia sido cotado na manhã daquele mesmo dia. Alertado sobre a discrepância, ele riu sem graça e voltou à sua leitura nos fundos da loja estreita. Eu, que já estava próximo à porta, aproveitei e saí.

O lado mais selvagem da Kloosterstraat também ficou evidente para Els Jansen, uma nativa de Antuérpia vivendo agora na vizinha Ghent, e que volta a Kloosterstraat em muitos domingos ensolarados. "Nós um dia tolamente negociamos umas cadeiras, e ainda estamos procurando pelas suas substitutas", disse Els. Nada forte o bastante para provocar remorsos num comprador - ou no caso dela numa não-compradora- adicionou rapidamente, "já que a maior diversão por aqui é mesmo sair por aí caminhando, beliscando alguma coisa e bebendo com os amigos."

Qualquer um que queira seguir esse conselho depois de um longo dia na straat precisa ir ao Chez Fred (número 83), onde mesas simples de pinho e alguns tamboretes ao ar livre oferecem rústico contraponto aos óculos de sol de 300 euros e tops da griffe Ann Demeulemeester vestidos pelo povo fashion sentado por ali. O cardápio também varia na mesma escala - de suculentos stoofvlees (saboroso cozido de carne) ao steak de atum servido mal passado com pesto de menta. E assim seguia um dia perfeito, enquanto na trilha sonora Norah Jones animadamente dava lugar a Randy Crawford, cuja "Street Life" provocava passos em bem-calçados pés e balanços em ombros bronzeados, dizendo:

"You dress, you walk, you talk. You're who you think you are." ("Você veste, você anda, você fala. Você é quem você pensa que é.")

Pelo menos os guardanapos eram perfeitos. Marcelo Godoy

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