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27/06/2007

Comparando as táticas atuais da CIA com as usadas no passado

The New York Times
Scott Shane

Em Washington
Quando a CIA olhou nervosamente para seu passado em 1973, um ato potencialmente ilegal que suas autoridades identificaram foi tratamento dado a um oficial soviético da KGB chamado Yuri Nosenko. Após fugir para os Estados Unidos em 1964, ele foi mantido em uma prisão improvisada por três anos e submetido a um duro interrogatório para determinar se era um desertor genuíno ou um agente infiltrado.

Um documento da CIA divulgado na terça-feira (26/6) disse que as autoridades "ficaram cada vez mais preocupadas com a ilegalidade da agência por lidar com um desertor sob tais condições por um período tão longo". Assim, Nosenko foi transferido para uma casa segura mais confortável, recebeu um tratamento mais amistoso e "não sentiu rancor" em relação à sua experiência após se estabelecer com sua nova esposa, disse o memorando de 1973 que recontava o caso.

Em uma era em que detenções secretas da CIA se tornaram uma constante nos noticiários, a comparação é difícil de evitar. Desde 2002, a agência prendeu quase 100 suspeitos de terrorismo no exterior e sujeitou alguns deles a interrogatórios bem mais duros do que os de Nosenko. O programa não é visto como um lapso da agência, sendo vigorosamente defendido pelos diretores da CIA e pelo presidente Bush.

Comparações entre diferentes eras históricas são sempre complicadas. Com um relato incompleto dos atos indevidos da CIA em seu primeiro quarto de século a partir das chamadas "jóias da família", divulgadas nesta semana com muitas partes censuradas, e um conhecimento presumivelmente ainda mais incompleto das ações da agência desde 2001, tal comparação é inevitavelmente falha.

Mas também é irresistível. E levanta uma questão provocativa: as ações das agências de inteligência na era da Al Qaeda, que incluem grampos domésticos sem autorização judicial, detenções secretas e interrogatórios próximos da tortura, já se equiparam ou até mesmo ofuscam aquelas do período da Guerra do Vietnã?

Em ambos os momentos os americanos enfrentavam uma ideologia global hostil - o comunismo na época, o jihadismo islâmico violento hoje - e temiam células escondidas em seu meio. Diante de tal ameaça, pode não causar surpresa que agências secretas, dispondo de tecnologia poderosa e com um apoio formidável do presidente, às vezes entrem em conflito com os ideais democráticos.

Na terça-feira, o diretor da CIA, o general Michael V. Hayden, tentou prevenir tais comparações em uma mensagem aos funcionários da agência que foi em parte um exercício de líder de torcida e em parte uma explicação para o motivo de a agência ter finalmente divulgado os documentos, requisitados pela primeira vez em 1992, segundo a Lei de Liberdade de Informação, pelo Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington.

"Nós encontraremos na cobertura da imprensa da divulgação de hoje lembranças de coisas que a CIA não deveria ter feito", escreveu Hayden. Mas ele acrescentou: "Eu acredito firmemente que o sistema melhorado da supervisão da inteligência implementado nos anos 70 dá à CIA uma posição bem mais forte em nosso sistema democrático. O que fazemos agora para proteger os americanos, nós fazemos dentro de uma estrutura poderosa de lei e revisão".

Algumas atividades da Guerra Fria, expostas ao longo dos anos, foram além das detalhadas nas 700 páginas de documentos divulgados na terça-feira, incluindo tramas fracassadas de assassinato de líderes estrangeiros e experiências de controle da mente em americanos desavisados e agentes estrangeiros. Ainda assim, historiadores independentes da agência não viram o forte contraste entre o passado e presente descrito por Hayden.

"Nós não sabemos de tudo o que está acontecendo atualmente", disse David M. Barrett, um cientista político da Universidade Villanova. "Mas me parece que já há evidência suficiente para concluir que as coisas não estão tão diferentes hoje."

Barrett, autor de um livro de 2005 sobre a CIA e o Congresso nos anos 40 e 50, disse que a noção de que a CIA já agiu ilegalmente, mas agora segue meticulosamente a lei é simplesmente errada.

Lawrence Houston, o advogado geral da agência em seus primeiros 26 anos, "aprovou muitas coisas que eram de legalidade questionável", disse Barrett. Mas apesar da agência atualmente contar com mais advogados, eles também aprovaram ações que alguns especialistas legais independentes consideram ilegais ou impróprias, ele disse, como o seqüestro de terroristas em países estrangeiros ao uso de uma técnica de simulação de afogamento chamada "waterboarding".

James Bamford, cujos livros sobre a inteligência americana cobrem o período da Guerra da Coréia até a Guerra no Iraque, tem uma visão semelhante. Ele disse que a escala de interceptação de telefonemas e mensagens de e-mail de americanos e outros dentro dos Estados Unidos pela Agência de Segurança Nacional (NSA) nos últimos anos - que levou a um processo pela União das Liberdades Civis Americanas na qual Bamford é um querelante - quase certamente torna pequena a vigilância eletrônica e a análise da correspondência praticada pela NSA e pela CIA nos anos 60.

Se a coleção "jóias da família" detalha a espionagem pelo governo dos manifestantes contrários à Guerra no Vietnã, ela apresenta um eco contemporâneo na confissão do Pentágono de que um banco de dados chamado Talon registrou de forma imprópria as atividades de manifestantes contrários à guerra no Iraque, ele disse.

"Estes documentos supostamente deveriam mostrar o pior do pior no passado", disse Bamford. "Mas o que está acontecendo hoje empalidece as jóias da família em comparação."

As atividades controversas da campanha contra o terrorismo ocorreram apesar das mudanças implementadas após os escândalos nos anos 70.

O governo Bush optou por contornar o Tribunal de Vigilância de Inteligência Estrangeira, criado em 1978 para supervisionar interceptações de comunicações em solo americano. Os Comitês de Inteligência do Senado e da Câmara, criados para assegurar que os abusos do passado nunca mais se repetiriam, fez pouco para conter o programa de vigilância da NSA ou estabelecer limites às práticas de interrogatório até os noticiários causarem furor.

Por outro lado, as recentes atividades de vigilância parecem, até o momento, voltadas em grande parte a pessoas que supostamente representam uma ameaça terrorista, não uma ameaça política. Até o momento não há evidência de qualquer coisa comparável, por exemplo, à caça implacável e abusos cometidos pelo FBI contra Martin Luther King Jr. ou os abusos políticos de Watergate.

"Eu acho que há atualmente um limiar menor para atividades que atingem nossa privacidade e liberdades civis", disse Amy Zegart, autora do futuro livro "Spying Blind: The FBI, the CIA and the Origins of 9/11" (espiando às cegas: o FBI, a CIA e as origens do 11/09).

Mas ela acrescentou a advertência de que a história completa poderá levar décadas para ser conhecida, citando um comentário sobre o falecido William J. Casey, diretor da CIA sob o presidente Ronald Reagan: "A antiga piada era de que Casey não lhe diria que seu casaco estava em chamas a menos que você perguntasse". George El Khouri Andolfato

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