UOL Notícias Internacional
 

01/07/2007

Amor moderno: "quer ser ouvida? Fale a língua dele"

The New York Times
De Lisa K. Friedman*
A simples verdade é que se você deseja ser ouvida pelo seu marido, você deve falar uma língua que ele entende.

Um exemplo: uma amiga minha é casada com um rico perdulário que costumava dirigir feito um maníaco -- colando na traseira dos outros, acelerando, ziguezagueando entre as faixas. Minha amiga expressava repetidamente seu medo em relação aos hábitos perigosos dele, mas ele não mudava seu comportamento; dinheiro era a linguagem que ele falava. Ela lhe deu um último aviso: diminua a velocidade ou algo acontecerá. Ele não mudou, de forma que sem muito estardalhaço, ela sacou US$ 40 mil da conta bancária deles e comprou um conversível de luxo para si mesma. Eu soube que agora ele é um motorista bem responsável.

David Chelsea/The New York Times 


Meu marido é um advogado, logo, a linguagem que ele melhor entende é o de sua profissão legal. Por mais de duas décadas, nós desfrutamos de um relacionamento pacífico de amor, respeito e decência.

Isto é, até seis semanas atrás, quando eu tropecei no meio-fio da calçada no primeiro dia de umas há muito aguardadas férias no exterior, quebrando meu pé e colocando um fim à viagem antes mesmo dela realmente começar.

Foi quando meu marido gentil, brando, com o qual criei dois filhos, o homem que realmente amo e no qual me apoio, se tornou alguém que não conhecia: ressentido, insensível, alguém que não se preocupava. E seu comportamento odioso durou até o pós-acidente imediato e além; de fato, ele continuou até eu descobrir como chamar sua atenção.

Nem meu silêncio em ebulição nem minha raiva aberta o atingiam. Então eu,
Lisa K. Friedman, estando de mente sã e pé quebrado, recorri à linguagem que ele falava: eu apresentei a ele uma queixa simulada, alegando "quebra de contrato" (nosso contrato matrimonial). Eu mesma o redigi, usando todas as convenções padrões, como observei ele fazer tantas vezes. Então contratei um oficial de justiça para entregá-la no escritório do meu marido, identificá-lo e concluir com a afirmação padrão: "Você foi notificado".

O que ele viu quando abriu o envelope foi algo assim:

Queixa
PELO PRESENTE INSTRUMENTO, a querelante, Lisa K. Friedman, e por meio de sua queixa contra o Acusado, seu marido, declara o seguinte:

As partes
1. A Querelante é uma dona de casa cujo principal papel inclui a manutenção geral do lar, serviço de alimentação, transporte e administração do domicílio compartilhando por ambos, seus dois filhos e um cão.

2. Seu marido, o Acusado, é um advogado em Washington, D.C.

Jurisdição e foro
3. O Tribunal do Circuito de Montgomery County, Maryland, lida com importantes casos criminais e civis incluindo quebras de contrato matrimonial impetradas por quaisquer esposas ultrajadas que, após sofrerem ferimentos que encerram férias, são cruelmente culpadas e maltratadas por seus maridos.

Resumo dos fatos
4. Em 29 de junho de 1986, Lisa K. Friedman, doravante designada como
"Querelante" e seu marido assinaram um Contrato de Casamento (o "Contrato").

5. O Contrato contemplava, entre muitas cláusulas, que as partes iriam se
"amar e confortar, na saúde e na doença" pelo prazo descrito no Contrato
como sendo "até que a morte os separe".

Primeiro enquadramento
"Quebra de contrato"
6. O Acusado quebrou o Contrato ao fracassar e se recusar a oferecer ajuda e conforto à Querelante após ela tropeçar no meio-fio diante do hotel, no qual o casal pretendia desfrutar três noites de descanso e romance antes de iniciarem sua altamente antecipada, extremamente cara e meticulosamente planejada excursão de caminhada arqueológica por sítios históricos remotos em Israel e na Jordânia.

A queda fraturou o quinto osso metatársico de seu pé direito. Não é relevante para a queixa que nem a Querelante nem o Acusado tomaram conhecimento de imediato que o pé estava quebrado, apesar do relato da
Querelante de que ouviu um "estalo" quando tropeçou e caiu.

O Acusado rejeitou esta evidência de osso quebrado, alegando, ridiculamente, que devia ter sido a tira da sandália dela se partindo. A Querelante não sentiu o osso partir porque estava consumida no momento por uma dor geral tão intensa que abafou todas as outras sensações físicas.

Portanto, eles não descobriram que o pé estava quebrado até dias depois, quando retornaram aos Estados Unidos, porque nenhum atendimento médico foi procurado para a Querelante em Israel apesar de seu pé, na manhã seguinte, estar tão inchado que ela mal podia distinguir seus dedos, e de todo o pé parecer um legume exótico roxo.

7. O Acusado quebrou o Contrato ao se comportar de forma detestável e degradante em relação à Querelante no pós-acidente, incluindo mas não limitado a comentários sucintos, ridicularização, virar de olhos e ignorar a Querelante ferida. Ele parecia, a certa altura, "quase tendo um acesso" (caracterização da Querelante) enquanto contemplava a miríade de decepções associada ao fim inoportuno das férias dos sonhos do casal. E apesar do Acusado parecer sentir que seu comportamento em relação à Querelante era realmente ruim e imperdoável, ele simplesmente não podia controlar devido ao acúmulo de desprazer e inconveniência causado pelo tropeço inoportuno. Esta inconveniência incluiu mas não se limitou à procura cheia de ressentimento por duas horas pelo Acusado de muletas para a Querelante, que o deixou mudo de frustração -por algum tempo ele não se mostrou disposto a se comunicar verbalmente com a Querelante de qualquer forma sobre qualquer assunto.

8. O Acusado quebrou o Contrato, e todos os códigos aceitáveis de conduta marital (e humana), ao permanecer de nenhuma ajuda quando foi necessário a compra de passagens aéreas para o retorno prematuro do casal aos Estados Unidos.

Na época a Querelante não tinha como saber que o custo destas passagens de última hora totalizariam elevados US$ 6 mil. Mas ele não sabia que este valor seria acrescido aos US$ 4 mil que a Querelante e o Acusado já tinham pago em sua compra original antecipada de passagens (por meio do uso de milhagem acumulada) e não incluiria os vários milhares de dólares de despesas não reembolsáveis que gastaram com guias, hospedagem e transporte.

Assim, talvez tenha sido a conscientização ressentida do Acusado deste pesadelo financeiro que o fez investir contra a Querelante a respeito da compra das passagens: "Este é um problema seu. Cuide disto". O que a
Querelante fez então, do saguão do hotel, em sua cadeira de rodas emprestada, usando um celular internacional emprestado (após o término da bateria do seu próprio).

9. O Acusado quebrou o Contrato ao não se importar com a Querelante durante as 12 horas de vôo de Tel Aviv ao Aeroporto de Newark, apesar de que em sua defesa ele permitiu que ela ficasse no assento na classe executiva que eles compraram (sendo um dos dois únicos assentos disponíveis naquele vôo) enquanto ele suportou a viagem na classe econômica, em um assento do meio, ao lado de um homem que, segundo relatos, cheirava como um bode.

10. O Acusado quebrou o Contrato ao permitir que a Querelante fosse abandonada sem atendimento em sua cadeira de rodas emprestada pelo aeroporto na área de retirada de bagagem enquanto ele visitava agradavelmente outros passageiros, ignorando seus gestos de aflição indicando sua necessidade de ir ao banheiro. Estes gestos incluíram mas não se limitaram ao acenar de braços, assovios e gritos.

11. A quebra do Contrato pelo Acusado se estende aos cuidados e alimentação da Querelante nos dias e semanas subseqüentes, servindo refeições desagradáveis ao paladar, freqüentemente incomestíveis, incluindo carnes exageradamente passadas que ele incinerava na grelha, alimentos pré-embalados à vácuo, e pratos frios com todos os tons de cinza servidos em recipientes de plástico.

12. O Acusado rompeu o Contrato ao se recusar a transportar a Querelante à sua primeira consulta médica, apesar desta contar com uma bota de gesso gigante em sua perna, e por fazer parecer que ela estava arruinando sua vida quando a sugestão dele para que ela dirigisse com o pé esquerdo foi rejeitada.

13. O Acusado quebrou o Contrato ao permanecer de pouca ajuda à Querelante durante sua longa e dolorosa recuperação, até mesmo se comportando de forma prejudicial por meio de atos de negligência no banheiro: deixando o rolo de papel higiênico vazio, deixando suas roupas no chão e espalhando o tapete do banheiro diante da pia de forma tão perigosa que poderia derrubar a Querelante de suas muletas; e ao mostrar desconsideração insensível à Querelante ao não oferecer qualquer mão ou assistência -- especialmente à noite -- enquanto ela se apoiava precariamente em muletas.

Segundo enquadramento
"Imposição intencional de sofrimento emocional"

14. O comportamento notório do Acusado fez com que a Querelante experimentasse recordações de culpa em relação aos detalhes de sua queda acidental e exacerbasse sua ansiedade em relação a viajar ao exterior, causando uma preocupação adicional em relação a quaisquer férias futuras que ela poderá ou não ter com o Acusado ou qualquer ferimento futuro que ela possa sofrer na presença dele.

15. O comportamento hediondo e inexplicável do Acusado causou aflição e miséria indevida à Querelante e a forçou a sentir grande ódio e fúria em relação ao Acusado, um estado emocional indesejado e não saudável ao qual ela não estava acostumada.

16. A Querelante permanece incerta sobre a personalidade e compatibilidade geral de seu cônjuge, o Acusado, em relação ao seu futuro com ele e suas amplas intenções de viajar e desfrutar de sua terceira idade de uma forma agradável para ela.

"Portanto..."
A Querelante exige que seu marido, o Réu, seja sentenciado a uma quantidade indeterminada de pedidos contínuos e repetidos de desculpas, seja servil, ofereça um jantar em restaurante gourmet e sirva de motorista, e posteriormente, caso se perca no caminho, algo que pode envolver grande confusão e estresse, o Acusado dever[a permanecer calmo e de bom humor. Este sentenciamento deve ser aplicado de forma incremental ao longo das próximas décadas, ou como a Querelante achar adequado, e incluirá a cobertura de todos os custos como taxas legais e outros custos que este Tribunal considerar apropriados.

Assinado,

Lisa K. Friedman, Querelante
Elvis Friedman, Cão, Testemunha

***

Quando meu marido aceitou o envelope contendo esta queixa, ele temeu estar sendo processado. Quando começou a ler, ele percebeu que eu estava enviando uma mensagem.

Ele entendeu. Ficou grato pelo meu senso de humor a respeito. Ele pediu desculpas e prometeu se regenerar.

Enquanto isso, no meu tribunal de opinião pessoal, ele permanece sob condicional.

Quanto a mim, minha bota de gesso foi retirada algum tempo atrás e em duas semanas eu deixarei a bota de velcro, o que significa que em breve poderei caminhar normalmente. Mas estive pensando: o verão não seria um bom momento para dirigir um conversível?

*Lisa K. Friedman, autora do romance "Nothing to Lose", vive em Maryland George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,63
    3,167
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    0,87
    65.667,62
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host