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01/07/2007

F430: a máquina é um sonho; a espera, um pesadelo

The New York Times
De Ezra Dyer

Em Boston
A Ferrari faz cada dia mais sucesso. Hoje consideramos normal que os entusiastas por automóveis com bolsos fundos façam fila para qualquer coisa que a fábrica de Maranello queira produzir, mas nem sempre foi assim. Veja o rejeitado modelo 348, do fim da década de 1980 e início de 90, tão depreciado que um homem de família irresponsável poderia se perguntar: "Eu compro a Honda Odyssey toda equipada ou a Ferrari usada?"
Vou arriscar um palpite de que a F430, o carro mais simples da linha Ferrari, nunca se depreciará a ponto de cair no campo das minivans. Na verdade, por enquanto não está depreciando nada.

Ferrari/The New York Times 
Equipado com propulsor V8, F430 é o modelo 'básico' da lendária montadora italiana


Enquanto a F430 nova é vendida por cerca de US$ 175 mil, minha pesquisa no site de leilões eBay descobriu que as F430 usadas estão valendo cerca de US$ 300 mil. Isso deve causar congestionamentos no servidor central. Avaliação de carros usados? Não compute!

O incrível valor da F430 no mercado de carros usados se resume a dois fatores. Primeiro, é um carro brilhante, como vou explicar. Talvez o mais importante seja que a Ferrari se recusa a construir carros suficientes para satisfazer a demanda. Como nada enlouquece tanto os ricos quanto lhes dizer que não podem ter uma coisa, a fila para possuir uma F430 é como a de espera em um parque de diversões como a Disney World -- assim que você vira uma esquina e pensa que chegou lá, descobre que a fila continua.

No último verão, o dono de uma Ferrari da área de Boston, Dennis Liu, me contou que está na lista de espera para uma F430. "Estou nessa lista desde 2004", disse Liu, que continua aguardando.

Vale a pena citar que Liu é o presidente da filial da Nova Inglaterra do Ferrari Club da América. Nem ele consegue uma F430. "E ainda faltam nove meses para a data de entrega."

Se a Associação Americana dos Produtores de Carne adotasse a abordagem de produção da Ferrari, um filé custaria tanto quanto uma TV de plasma, e você teria de encomendar com dois anos de antecedência.

A Ferrari recebeu mil encomendas do modelo Enzo, de US$ 650 mil, depois que o carro foi revelado em 2002, mas a companhia manteve sua decisão de só construir 399 unidades (e mais uma para o papa).

Pela minha matemática, isso significa que deixou US$ 390 milhões na mesa em nome da exclusividade e da todo-poderosa demanda. Com esses 600 exemplares da Enzo que nunca foram construídas, a Ferrari basicamente investiu US$ 390 milhões em sua própria lenda.

"Não é o caso de podermos produzir tantos carros quantos quisermos", disse Maurizio Parlato, presidente e principal executivo da Ferrari América do Norte. Isto é, a Ferrari poderia produzir mais carros do que produz. "Existe uma relação mágica entre volume e preço", afirma.

"Temos uma inteligência de mercado muito sofisticada trabalhando para nós." Essa inteligência diz que a Ferrari precisa encontrar seu crescimento em mercados inexplorados.

"A Ferrari aumentou a capacidade de produção para os mercados emergentes -- China, Cingapura, Austrália -- enquanto mantém a exclusividade", disse Parlato.


'O Carro'
Você precisaria ser um tanto esnobe se morasse em Palm Beach e se importasse que algumas F430 a mais estivessem rodando em Xangai. É claro, alimentar a demanda com produção limitada não faz sentido a menos que exista demanda, em primeiro lugar.

Com toda a sensação em torno desse carro, você pensaria que seria quase impossível ele satisfazer as expectativas. Mas a F430 satisfaz, apesar da bagagem inerente à sua posição de 'O Carro' da marca do cavalinho rampante.

Esse carro atua no reino em que os números de desempenho são tudo, e nessa frente ele devidamente se equipara ao Porsche 911 Turbo e ao Corvette Z06 (como deveria, considerando seu preço).

Mas a F430 é mais que um mero gerador de força G. É uma experiência total, que afeta todos os receptores de prazer do seu cérebro com uma embriaguez automotiva. Alcançar essa meta abstrata é sempre mais difícil do que atingir metas concretas de desempenho -- chame isso de alquimia do desejo.

Você tem a impressão de que no projeto da F430 todas as decisões da Ferrari foram conduzidas pela pergunta: "Como podemos fazer esse carro mais parecido com um Fórmula 1?"

Por isso o modelo recebeu um motor V-8 de 4.3 litros e 479 cavalos, com um ronco agudo e cortante que é diferente de qualquer outra coisa que você ouvirá de um carro com placas. Aquele motor gritante é montado atrás do compartimento de passageiros e à frente do eixo traseiro, como num carro de Fórmula 1.

Ferrari/The New York Times 


A transmissão manual seqüencial elimina a embreagem -- em seu lugar, o motorista tem abas de mudança dos dois lados do volante, como em um Fórmula 1 (mas os tradicionais podem encomendar um câmbio manual de seis velocidades).

A direção apresenta o "mannetino" da Ferrari, um pequeno botão giratório com seis modos para regular a agressividade eletrônica do carro, desde o modo neve-gelo ao de corrida -- e além da posição de corrida, que o pessoal da Ferrari educadamente me pediu para não experimentar, pois desabilita todo o controle de tração e estabilidade e poderia facilmente levar a uma situação de 'jornalista em código vermelho'. Felicite-se se você conseguir adivinhar o que também tem um "mannetino": um Fórmula 1 da Ferrari!

(O câmbio de F-1 tem até a função automática, mas orgulho-me de dizer que não sei como funciona, porque não experimentei. Se você for preguiçoso demais para mexer os dedos para trocar de marcha, não deveria dirigir uma Ferrari.)

Em alguns veículos -- lembro-me de um Chevrolet Dale Earnhardt edição Monte Carlo-, arremedos de carros de corrida parecem uma bobagem de marketing. Aqui você tem a idéia de que eles não são apenas uma ligação concreta com o verdadeiro, como melhoram o desempenho da F430 e a experiência de dirigi-la.

De certa maneira, este carro é incrivelmente civilizado -- considere o interior em fibra de carbono e forrado de couro, a qualidade do banco que é incrivelmente macio, o prático porta-malas na frente.

Mas a fera está sempre logo abaixo da superfície. Um toque no acelerador lembra a fala de Russell Crowe em 'Gladiador': "Quando eu der o sinal, abram as portas do inferno".

A F430 parece ainda mais rápida do que sugere seu tempo de 0 a 100 km/h, em cerca de 4 segundos, porque tudo o que ela faz, faz dramaticamente. O sistema de escapamento tem aletas que rodeiam o silencioso, basicamente ligando aquele ronco marca-registrada em um megafone gigante.

Um hábito que adquiri com a F430 foi pisar fundo no acelerador e depois tirar o pé para reduzir a alguns milhares de rpm antes da marca vermelha. Isso parece fazer o computador do motor despejar litros de combustível nos injetores, prevendo uma aceleração para 8.500 rotações, porque quando a transmissão de Fórmula 1 faz a mudança é acompanhada de uma explosão de rifle, um estalido supersônico do escapamento que o faz olhar no espelho para ver se o carro de trás está envolvido num rastro de chamas.

Alguns de meus colegas na imprensa automobilística me contaram que numa pista a F430 pode voar, no limite da aderência. Eu posso dizer que na estrada sua condução dá uma sensação de invulnerabilidade que faz você se perguntar por que todos os outros estão se arrastando, quando é claro que estão numa velocidade perfeitamente negociável a 130 km/h.

A direção tem uma proporção rápida, mas não é nervosa -- você não fica constantemente corrigindo o curso, mas se decidir mudar de pista basta olhar na direção certa que já está lá. O carro mostra claramente uma engenharia cuidadosa para alimentar essa personalidade dividida, feroz, mas sociável.

Por exemplo, isto pode parecer tão tolo quanto indicar que não há porta-copos, mas também passei a apreciar realmente o círculo de giro acentuado. Quando você está estacionando uma Ferrari vermelha de US$ 200 mil, é bom colocá-la numa vaga sem fazer manobras vaivém durante meia hora. Porque, acredite-me, tem gente olhando.

Duas críticas: no lado do consumo a F430 é realmente cara. E com a transmissão de F-1 é difícil estacionar numa ladeira, porque você tem de pisar no acelerador e adivinhar até onde a marcha vai levá-lo. E isso é tudo.

A F430 pode ser discreta o suficiente para um motorista cotidiano, mas quando você a tira do cabresto há poucos carros por aí que provocam mais emoção. Tenho a impressão de que quando Dennis Liu finalmente conseguir sua F430 não se decepcionará. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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