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05/07/2007

Trabalhadores civis contratados retornam do Iraque com estresse de combate

The New York Times
James Risen

Em Washington
Trabalhadores contratados que atuaram no Iraque estão retornando para casa com o mesmo tipo de problema de saúde mental relacionado ao combate que atinge os militares norte-americanos, segundo o depoimento dos contratados, das empreiteiras e dos especialistas em saúde mental.

Sally Ryan/The New York Times 
Tate Mallory foi ferido e voltou para casa tão afetado que implorou ao irmão que o matasse

Mas, segundo eles, esses trabalhadores particulares geralmente têm que encontrar ajuda por conta própria, e os seus problemas são freqüentemente ignorados ou inadequadamente tratados.

Um vasto segundo exército de contratados - que chega a até 126 mil norte-americanos, iraquianos e outros estrangeiros - está trabalhando para o governo dos Estados Unidos no Iraque. Muitos trabalham lado a lado com os soldados e estão expostos aos mesmos perigos, mas na maioria das vezes eles têm que se virar por conta própria na hora de percorrer o sistema de saúde mental para civis quando retornam aos Estados Unidos.

Como as avaliações psiquiátricas não são disseminadas, muitos desses trabalhadores não são identificados como portadores de desordem do estresse pós-traumático ou outros problemas, segundo informam especialistas em saúde mental e trabalhadores contratados. E eles acrescentam que a qualidade do tratamento pode variar bastante devido à experiência limitada com o tratamento de doenças relacionadas ao combate em civis.

Somente alguns poucos profissionais do setor de saúde mental se concentraram nesta questão, mas eles advertem que o número de contratados que deixa o Iraque com problemas mentais é grande e está crescendo.

"Creio que o número está na casa dos milhares, talvez dezenas de milhares", afirma Paul Brand, psicólogo e diretor-executivo da Mission Critical Psychological Services, uma firma de Chicago contratada pela Dyncorp International, uma grande empreiteira que atua no Iraque, para avaliar e tratar os seus funcionários. "Muitos não são diagnosticados. Essas pessoas estão lutando contra demônios internos, e não sabem como lidar com isso".

Jana Crowder, que administra o website para trabalhadores contratados que buscam ajuda, diz que todos os dias presencia novas evidências do problema pelos telefonemas que recebe de trabalhadores desesperados. "Nos primeiros anos da guerra, observamos alguns trabalhadores com esses problemas", conta Crowder, de Knoxville, no Estado do Tennessee. "Agora, à medida que os trabalhadores contratados começam a retornar para casa, estamos presenciando uma quantidade bem maior de pessoas em apuros".

Os trabalhadores contam histórias terríveis sobre os seus tormentos psicológicos. Tate Mallory, um policial de Dakota do Sul que trabalhou como instrutor de polícia para a Dyncorp, foi seriamente ferido por uma granada propelida por foguete no terceiro semestre do ano passado. Ele conta que quando voltou para casa estava tão afetado mentalmente que implorou ao irmão que o matasse.

Kenneth Allen, um motorista de caminhão de 70 anos de idade cujo comboio foi alvo de uma emboscada no Iraque, diz que passa por alterações de humor e crises de nervosismo e que freqüentemente passa a noite inteira acordado. E Nathaniel Anderson, um texano cujo caminhão foi atingido por foguetes enquanto ele transportava combustível de aviões a jato, perdeu um amigo que também era contratado. O amigo se suicidou. Embora sofra de sintomas relacionados ao estresse, ele ainda não foi ao médico.

O impacto da guerra sobre os trabalhadores contratados geralmente não é conhecido pela população. Cerca de mil deles morreram desde o início do conflito, e quase 13 mil foram feridos. Embora alguns sejam bem remunerados pelo trabalho no Iraque, um número muito maior recebe salários modestos para fornecer serviços de apoio vitais para as forças armadas.

O governo federal, que pagou bilhões de dólares a corporações pela prestação de serviços no Iraque desde o início da guerra, não examinou a questão dos problemas mentais entre os trabalhadores particulares, segundo funcionários do Pentágono e do Departamento de Questões dos Veteranos.

"Até onde sei, este problema não foi examinado sistematicamente", afirma o médico Matthew J. Friedman, um funcionário do departamento de veteranos que dirige o Centro Nacional de Desordem do Estresse Pós-traumático.

Os trabalhadores contratados que são feridos ou que ficam incapacitados na zona de guerra são tratados em hospitais militares no Iraque e na Alemanha, mas assim que voltam para casa não têm direito a receber tratamento através do sistema das forças armadas nem do departamento de veteranos. E, ao contrário dos soldados, eles não são avaliados rotineiramente ao voltarem do Iraque para determinar se estão com problemas mentais ou de estresse.

Quando soldados e veteranos reclamaram nos últimos meses dos problemas com o tratamento médico que vinham recebendo, autoridades graduadas de Washington prometeram promover melhorias, mas o sofrimento dos trabalhadores civis não atraiu tal atenção. Muitas companhias fazem exames psicológicos antes de enviar os trabalhadores para a zona de guerra, mas fornecem poucos recursos quando esses trabalhadores retornam para casa e freqüentemente deixam as suas folhas de pagamento.

As leis federais exigem que os empregadores forneçam seguro saúde para trabalhadores lotados em zonas de guerra. Esses trabalhadores preencheram cerca de 200 requisições para tratamento de desordem do estresse pós-traumático (PTSD, na sigla em inglês), segundo o Departamento do Trabalho, que monitora os dados. Funcionários do setor de saúde mental dizem que esse número está longe de refletir a magnitude do problema porque muitos trabalhadores afetados não preenchem as requisições.

Dentre aqueles que preencheram, muitos tiveram o pedido recusado e entraram com ações na Justiça. Gary Pitts, um advogado de Houston, diz que as seguradoras contestaram quase todas as requisições apresentadas pelos seus cerca de 50 clientes, ainda que elas tenham pago pelo tratamento médico relacionado aos ferimentos sofridos pelos trabalhadores. "O contraste entre a forma como os militares e os contratados civis são tratados no que diz respeito à PTSD é semelhante ao que existe entre a noite e o dia", acusa Pitts. "Os contratados precisam descobrir por conta própria que têm o problema, e muitas vezes têm que brigar na Justiça com as companhias de seguros".

Os problemas relativos à cobertura fornecida pelas companhias de seguro saúde podem estar parcialmente vinculados à carência de profissionais da área de saúde mental civil equipados para lidar com o estresse relacionado ao combate, afirma Brand, o psicólogo da Dyncorp, e o médico Spencer Eth, que ajudou a redigir as diretrizes de tratamento da síndrome do estresse pós-traumático para a Associação Psiquiátrica Americana.

"A disponibilidade de profissionais de saúde mental especializados nesta área é baixa em todo o país", afirma Eth, um psiquiatra de Nova York. "Existem problema de acesso ao tratamento, obstáculos financeiros, de forma que a maioria dessas pessoas não obterá o tratamento do qual necessita".

A AIG, a grande companhia de seguros que fornece cobertura para várias das maiores empreiteiras que atuam no Iraque, pagou metade das requisições relativas à PTSD, afirma Chris Winans, um porta-voz da empresa. Mas muitos outros trabalhadores tiveram o tratamento postergado ou as requisições contestadas porque os especialistas da seguradora discordam dos diagnósticos, explica Winans.

Pitts, o advogado, diz que vários trabalhadores contratados moram em pequenas cidades ou áreas rurais sem acesso a profissionais de saúde mental de alta qualidade. Mas mesmo quando ele enviou clientes a psiquiatras ou psicólogos respeitados para confirmar os diagnósticos, a AIG contestou os pedidos de tratamento.

A Dyncorp, a firma com sede no Texas que tem um contrato firmado com o Departamento de Estado para treinar policiais iraquianos, estará patrocinando uma conferência sobre estresse pós-traumático para os seus ex-funcionários na sexta-feira e no sábado. A companhia também está tratando os trabalhadores no Iraque após contratar a firma de Brand para determinar a magnitude do problema.

Dentre os instrutores policiais da Dyncorp, 24% demonstraram sintomas de desordem do estresse pós-traumático, afirma Brand. Ele e outros dizem que não conhecem nenhum outro estudo que tenha avaliado formalmente o problema entre os trabalhadores particulares que atuam ou atuaram no Iraque.

Esse número é consistente com um estudo feito pelo exército no início deste ano que revelou que cerca de 17% dos integrantes das unidades de combate no Iraque apresentaram sintomas de PTSD um ano após chegarem à zona de guerra, afirma Charles W. Hoge, chefe do departamento de psiquiatria do Instituto de Pesquisas Walter Reed, do Exército dos Estados Unidos.

Segundo o coronel Elspeth C. Ritchi, consultor psiquiátrico do departamento de saúde do Exército dos Estados Unidos, caso também se levem em conta problemas conjugais, uso abusivo de bebidas alcoólicas e outros problemas de ajustamento, esse número sobe para algo entre 30% e 35%.

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