UOL Notícias Internacional
 

08/07/2007

Ele esqueceu de telefonar? Ah, não faz mal...

The New York Times
Sari Botton
The New York Times 

Vinte anos antes da publicação do manifesto do namoro "As Regras", quando eu tinha 11 anos e apenas começava a gostar de meninos, meu pai me deu o seguinte conselho: "Você tem de fingir que não está interessada, que eles virão atrás de você".
Eu detestei esse conselho, que me fez sentir impotente e frustrada. Então, alguns meses depois, vi uma versão distorcida desse jogo dinâmico entre meus pais.

Minha mãe, uma mulher inteligente, bonita mas dolorosamente insegura, que sempre esteve totalmente à disposição do meu pai, afinal se desinteressara dele e do casamento. Estava cansada do descuido e da indiferença dele e queria cair fora.

De repente meu pai prestou atenção. Suplicou por mais uma chance e se comportou de maneira irreconhecível, numa reinvenção que não a impressionou muito. Ele lhe trazia flores; ela não se importava. Ele era carinhoso; ela o rejeitava. Ele tocava piano e cantava "Let Me Try Again" ("Deixe-me Tentar de Novo"), enquanto as lágrimas escorriam por seu rosto. Minha mãe revirava os olhos e ia cuidar da cozinha.

Esse tipo de comportamento continuou até que eles se separaram e meu pai se mudou para um apartamento de solteiro em outra cidade.

Cerca de 25 anos depois, no meu 35º aniversário, meu pai, que casara de novo havia muito tempo, me deu um exemplar de "As Regras". Como todo mundo próximo a mim, ele estava cansado de me ver sair com idiotas. Pensou que aquele pequeno e prático volume -que aconselhava as mulheres a nunca telefonar para um homem e raramente retornar suas ligações, a ser sempre as primeiras a desligar e a rapidamente dispensar os homens que queriam dividir as contas no restaurante, ou não cumpriam outros critérios rígidos de comportamento principesco- talvez me ajudasse a separar o joio do trigo.

Eu não tinha captado direito a mensagem do meu pai na primeira vez. A dramática inversão de papéis dos meus pais havia me ensinado que o objetivo do jogo era perder muito tempo fazendo concessões ao homem menos interessado e menos atencioso, depois reduzi-lo à servidão, virando a mesa. Eram "As Regras" ao contrário, meu "modus operandi" erroneamente subversivo. Eu insistia em escolher homens bonitos e encantadores, mas que me tratavam descuidadamente, e até mal. Depois de algum tempo, quando eles menos esperavam, eu puxava o tapete.

Não poderia ter feito piores escolhas. Houve o músico beberrão -bonito, talentoso e sedutor, mas dado a acessos de raiva e ciúmes apesar de ser ele quem não queria exclusividade. Houve o fotógrafo alcoólico cujo presente de aniversário para mim foi a oportunidade de ajudá-lo a pintar seu apartamento.

Depois veio o professor colegial mal-humorado, freqüentemente bêbado. (Está notando um padrão? Era como se eu fosse viciada em álcool não pela boca, mas pelo hálito de um homem.) Professando uma admiração pelo Unabomber e sua estética minimalista, o professor só possuía um prato, que tínhamos de dividir quando comíamos em sua casa.

É claro que eu era cúmplice de minha infelicidade. Por pior que os homens se comportassem, eu pedia mais. Continuava sendo a melhor garota de baixa manutenção do mundo, exigindo quase nada. Eu saía do caminho do meu namorado sempre que sentia que ele precisava de espaço -antecipando-me para que ele não precisasse pedir. Eu nunca pedia a nada, segurando as lágrimas quando ele paquerava outra mulher ou esquecia meu aniversário.

Tolerava sua negligência assim como minha mãe tinha feito, acumulando ressentimentos como munição até não suportar mais. Então eu pulava fora, e começava minha parte preferida: recebia flores, cartas de amor e promessas de bom comportamento. Ele suplicava por uma segunda chance, mas quando chegávamos a essa etapa eu já tinha saído pela porta. Às vezes estava de olho em outra pessoa, que sem dúvida se revelaria ainda pior, e o ciclo se repetia.

Com o passar do tempo, eu não podia mais suportar o sofrimento necessário para ter aquela pequena emoção, uma recompensa cada vez menos satisfatória.

Foi mais ou menos nessa época, sete anos atrás, que meu pai me deu o livro de presente. Eu estava cansada e finalmente pronta para alguma coisa real com alguém legal. Fiquei intrigada com "As Regras", mas também em conflito, porque sentia que devia existir uma maneira mais direta e melhor.

Pesquisei entre todas as minhas amigas, e uma delas afirmou que nem sabia o telefone de seu namorado seis meses depois de terem começado o relacionamento. "Eu não telefono para homens", ela garantiu.

A metade de mim desejava experimentar a abordagem "garota difícil", a outra metade achava inatural. Eu me perguntava por quanto tempo seria possível manter isso? Segundo "As Regras" (e o posterior "Regras para o Casamento"), não era seguro tirar a máscara de indiferença. Eu queria um sinal do universo que me indicasse claramente um caminho ou outro.
Entra em cena o Espadachim Terapeuta.

Eu já havia tido outros terapeutas, a maioria dos quais trabalhava lentamente e permitia que eu continuasse do meu jeito. Esse não. Ele não era a versão cinematográfica de um terapeuta -um Judd Hirsch barrigudo, barbudo e paternal. Não; era um quarentão atlético que gostava de escalar rochas.

Ele trabalhava depressa e não economizava palavras. Apelidou-me de a Maravilha Indesejada, por causa do meu jeito de capacho. No final de uma sessão, ele abria a porta do consultório e gritava para a sala de espera vazia: "Lá vai ela, senhoras e senhores, a Maravilha Indesejada, que consegue viver só de ar".

Fiquei nervosa quando ele tentou me convencer a assumir um papel ativo na paquera e a pedir que minhas "necessidade salutares" fossem satisfeitas num relacionamento. Ele não conhecia "As Regras"? Não sabia, como homem, que um menino persegue a menina até que ela o agarra? Que os homens não reagem quando você lhes pede coisas, mas quando você os dispensa?

"Existe um termo para isso", meu terapeuta brincou. "Chama-se 'sadomasoquismo'. Você não quer os homens que reagem a isso."
Na verdade, ao comentar "As Regras" com ele, eu já estava desrespeitando a Regra 31: "Não discuta as regras com seu terapeuta". Então ele quis que eu lhe contasse outras.

Ele me incentivou a reformar totalmente meu estilo de namoro -abordar os homens de quem eu gostava e convidá-los para sair (rompendo a Regra 2); dizer a eles o que eu queria (rompendo as Regras 19 e 20); e telefonar (Regra 5), até ser sensual ao telefone. A idéia de tanto poder me entusiasmou. Mas pôr isso em prática me assustava terrivelmente. "Pare de viver em uma versão do mundo de revista feminina", ele dizia, tentando me motivar para a ação. "Comece a ser real e a ter necessidades. Você não terá um relacionamento satisfatório enquanto não fizer isso."

Discutíamos muito. Ele me explicava que ele, um homem atraente, feliz, "real", na verdade gostava de mulheres que sabiam o que queriam e não tinham medo de pedir, que tinham um prazer pela vida que as inspirava a buscar o que desejavam. Ele apreciava ainda mais aquelas que não desmoronaravam ou esfriavam quando seus homens deixavam de satisfazer, ou prever psiquicamente, todas as suas necessidades -mulheres que não experimentavam uma falha como rejeição.

Eu fiquei animada. Queria muito acreditar nele e me tornar uma dessas mulheres, mas tinha dificuldade para dar o salto de fé. Eu me arrastava até o telefone, preparando-me para ligar para um homem que eu tinha acabado de conhecer, ou para declarar alguma coisa que eu queria, em vez de ser dócil e acumular ressentimentos. Então eu ligava para o Espadachim Terapeuta. "Você tem certeza que está certo eu ligar para esse cara?", perguntava. "Tem certeza?"

Na época eu estava namorando pela Internet. Meu terapeuta me disse para entrar em contato com alguns homens, em vez de esperar que eles me contatassem -num desafio direto, aliás, à Regra nº 1 da última edição de "As Regras do Namoro Online". "O que você tem a perder?", ele dizia.
Um dia avistei "bri-spy", um rapaz bonitão com um sorriso de menino e olhos brilhantes de irlandês que gostava de poesia e de música, mas também não conseguia viver sem suas ferramentas. E ele estava procurando, segundo sua descrição, uma mulher que não fizesse joguinhos.
Fiquei morrendo de vontade de entrar em ação. Mesmo que esse não fosse o meu cara, queria que o terapeuta estivesse certo e os autores das "Regras", errados. De algum modo consegui juntar coragem e lhe mandei uma mensagem.

Com o coração disparado, li sua resposta imediata, e durante alguns dias tivemos uma "conversa" descontraída, mas com certo flerte. Eu sabia que seria apenas questão de tempo para nos conhecemos.
Então ele desapareceu completamente.

Fiquei atônita. Minha fé no meu terapeuta evaporou. Dois meses depois, bri-spy apareceu novamente na minha caixa de entrada, pedindo desculpas por ter desaparecido: sua mãe havia tido um ataque cardíaco, ele explicou. Sinto vergonha de dizer que fiquei aliviada. Continuamos nossa relação por e-mail.

Então ele desapareceu de novo.

Escaldada, decidi desistir do namoro pela Internet e anunciei para os amigos a morte oficial de "rubybaby", meu "alter ego" no ciberespaço. Pouco tempo depois, fui passear pelo East Village e de repente... Não era aquele o cara?

Parado ao lado de um carro? Sim, era o rosto que vi na ficha dele.
Minha mente ferveu com opções: eu o cumprimento, ignorando a Regra nº 2 original? Ou passo direto, com meu amor-próprio intacto?

Ele começou a se afastar. Se eu não agisse logo, perderia a oportunidade.

"Você é o Brian?", eu me ouvi dizer. "Não sei se lembra de mim, mas trocamos e-mails há alguns meses. Como vai sua mãe?"

Na versão dele da nossa história, foi aí que os céus se abriram e os anjos cantaram. "Precisamos conversar", ele disse, com um sorriso aberto.

Assim que cheguei em casa o telefone tocou.

Aceitei o convite dele para almoçar no sábado (contra a Regra 7) e seus convites de última hora para dois outros encontros na mesma semana (uma clara violação da Regra 13). Dividimos a conta todas as vezes (lá se vai a Regra 4). Eu me habituei a telefonar para ele regularmente (sinto muito, Regra 5).

Até puxei o assunto do casamento (adeus Regra 17) depois que estávamos juntos há quase um ano. "Tenho medo de falar sobre isso com você", eu disse, animada com o recente noivado de uma amiga. "Fui ensinada que deve partir do homem." Ele sorriu timidamente e disse: "Estou tentando esperar até o seu aniversário para pedi-la, o que não está sendo fácil, mas..."

Estamos casados e felizes há mais de dois anos, sem necessidade de manuais de relacionamento. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    12h09

    -0,49
    3,153
    Outras moedas
  • Bovespa

    12h10

    2,30
    70.209,86
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host