UOL Notícias Internacional
 

10/07/2007

Escolas e crianças são alvos do terror no Afeganistão

The New York Times
Barry Bearak

Em Qalai Sayedan, Afeganistão
Com sua professora ausente, 10 alunas foram autorizadas a deixar a escola mais cedo. Elas foram as garotas que os homens armados viram primeiro, 10 alvos fáceis cruzando de mãos dadas o portão de metal e caminhando pela rua sinuosa de terra.

Shukria, 13 anos, recebeu um tiro no braço e nas costas e caiu tremendo em um campo de trigo adjacente. Zarmina, sua irmã de 12 anos, correu para o lado dela, escutando à respiração da garota ferida e tentando ajudá-la a se levantar. Mas Shukria era pesada demais para ser levantada e os dois homens armados, montados em uma única moto, repentinamente aceleraram para mais perto.

Enquanto Zarmina fugia, os homens miraram com mais calma contra aquelas que já tinham alvejado, matando Shukria com balas no estômago e coração. Então os agressores pareceram sucumbir ao frenesi que provocaram, abandonando a moto e fugindo a pé em pânico, duas cabeças redondas - uma usando capacete, outra enfaixada com um lenço - desaparecendo em meio ao trigo.

João Silva/ The New York Times 
Zarmina, 12, cuja irmã foi morta no interior de escola afegã

Seis garotas foram baleadas aqui na tarde de 12 de junho; duas delas
morreram.

A Escola Qalai Sayedan, considerada uma das melhores na província de Logar, na região central afegã, reabriu apenas no último fim de semana, mas mesmo com guardas empunhando rifles Kalashnikov no portão apenas um quarto dos 1.600 estudantes ousaram retornar. Disparos, decapitações, incêndios e bombas: estes são os instrumentos de intimidação usados pelo Taleban e outros para fechar as centenas de escolas daqui. Atacar o ensino representa fazer guerra contra o governo. Os pais se vêem diante de escolhas terríveis.

"É melhor para minhas filhas permanecerem vivas mesmo que devam permanecer analfabetas", disse Sayed Rasul, um pai que decidiu manter suas duas filhas em casa.

Houve algum progresso no desenvolvimento do Afeganistão, mas com freqüência o país parece montado em um deplorável cavalo de balanço, com cada impulso à frente inevitavelmente revertido em um impulso para trás para a dura realidade.

As escolas são um exemplo vívido. O Ministério da Educação alega que 6,2 milhões de crianças estão atualmente matriculadas - ou cerca de metade da população em idade escolar. E apesar das estatísticas no Afeganistão poderem ser falsificadas, portanto não sendo confiáveis, não há dúvida que a freqüência escolar se multiplicou muito mais do que em qualquer época anterior, com crianças uniformizadas podendo ser vistas diariamente em abundância nas ruas, enchendo salas de aula em dois e três turnos.

Um terço dos estudantes são meninas, uma maravilha por si só.
Historicamente, o ensino das meninas não era valorizado na cultura afegã. Pessoas do sexo feminino eram proibidas de freqüentar a escola durante o governo do Taleban.

Mas após 30 anos de guerra, este é um país sem tempos normais para
recuperar; de muitas formas, o Afeganistão precisa começar da estaca zero. A crescente demanda por educação é atrapalhada pela oferta limitada. Mais da metade das escolas não possui prédios, informa o ministério; as aulas são normalmente ministradas em tendas ou sob as árvores, ou ainda ao ar livre sob um sol brutal. Apenas 20% dos professores são minimamente qualificados. Os livros escolares são ultrapassados; centenas de títulos precisam ser escritos, milhões de livros precisam ser impressos.

E há a violência. Nas províncias do sul, onde o Taleban está combatendo mais agressivamente as tropas americanas e da Otan, a educação virtualmente foi suspensa em grandes trechos do território em disputa. Em outras áreas, ataques contra escolas são esporádicos, imprevisíveis e de causar perplexidade. Segundo um levantamento superficial do ministério, ocorreram 444 ataques desde agosto. Alguns foram simples roubos. Alguns foram tendas sendo incendiadas. Alguns foram homicídios audaciosos sob o sol do meio-dia.

"Ao atacarem as escolas, os terroristas querem marcar sua própria
existência", disse Haneef Atmar, o ministro da Educação. "Eles também
querem voltar as pessoas contra o governo mostrando que ele não fornece
segurança."

Atmar é o quinto ministro da Educação do país em cinco anos e meio, mas
apenas o primeiro a contar com o sólido entusiasmo dos doadores
internacionais. Grande parte do governo está tomado pela corrupção e o
favorecimento de amigos. Mas Atmar obteve o cargo após uma passagem louvável pelo ministério do Desenvolvimento Rural.

Ele estabeleceu um ambicioso plano de cinco anos para construção de escolas, treinamento de professores e um currículo modernizado. Ele também está defendendo um caminho paralelo nas madrassas, ou escolas religiosas; os estudantes se concentrariam nos estudos islâmicos, mas ao mesmo tempo aprenderiam ciência, matemática e artes. "Esta sociedade precisa de ensino baseado na fé, e nós o forneceremos alegremente sem o ensino da violência e do abuso de direitos humanos", disse Atmar.

Para ter sucesso, o ministro precisa ser um ímã de dinheiro estrangeiro. E os doadores não costumam ser generosos quando se trata de escolas. Desde a queda do Taleban, a Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional dedicou apenas 5% de seu orçamento ao Afeganistão para a educação, em comparação a 30% para estradas e 14% para energia elétrica.

Virtualmente toda escola afegã é um esboço de destituição extraordinária. "Eu tenho 68 garotas sentadas nesta tenda", disse Nafisa Wardak, uma professora da primeira série da Escola Deh Araban Qaragha, em Cabul. "Passamos calor. A tenda é cheia de moscas. O vento sopra areia e lixo por toda parte. Se uma criança adoece, para onde posso mandá-la?"

A enorme necessidade do país por salas de aula de alvenaria torna os
assassinatos em Qalai Sayedan ainda mais trágicos. A escola recebia garotos até a sexta série e garotas até o ensino médio. Ela era terrivelmente lotada, com 1.600 alunos divididos em dois turnos, distribuídos em 12 classes e um corredor.

Todavia, ela possui um prédio de dois andares de concreto com um telhado de aço galvanizado - e não uma coleção de tendas. Há dois anos, Qalai Sayedan foi apontada como a melhor escola da província. Sua diretora, Bibi Gul, foi saudada por sua excelência e recompensada com uma viagem aos Estados Unidos.

Mas o ataque do mês passado contra a escola fez os pais questionarem se a reputação da escola não a tornou fonte de provocação. Qalai Sayedan fica a 64 km ao sul de Cabul, e apesar de uma dúzia de outras escolas terem sido atacadas em Logar, nenhuma foi visada de forma regular ou maligna. Há três anos, Qalai Sayedan foi atingida por foguetes durante a noite. Há um ano, explosivos arrancaram um canto do prédio.

Nas embaixadas do Ocidente, e mesmo dentro do Ministério da Educação em
Cabul, o Taleban é normalmente discutido como um adversário monolítico. Mas para os aldeões daqui, com as vidas de seus filhos em risco, é simplismo demais presumir que os ataques são apenas parte de uma ampla campanha de terror. As pessoas vêem os inimigos do governo como um grupo variado com queixas diversas, numerosas ligações tribais e muitos mestres. Alguém na escola foi responsável por uma grande ofensa, perguntam os aldeões? Acredita-se que a escola seja antiislâmica? Na mesquita da aldeia, muitos homens culpam Bibi Gul, a diretora.

"Ela não devia ter ido para a América sem consultar a comunidade", disse Sayed Abdul Sami, o tio de Saadia, a outra estudante morta. "E ela foi à América sem um mahram, um parente do sexo masculino a acompanhando, e isto é considerado impróprio no Islã."

Sayed Enayatullah Hashimi, um ancião de barba branca, disse que a escola alardeou demais seu sucesso. "O governador fez uma visita a ela", disse. "Ele trouxe 20 guarda-costas e estes homens estavam por toda parte na escola - mesmo entre as garotas mais velhas."

Além disso, a educação é o caminho mais rápido para a modernidade. E a
modernidade é vista com suspeita.

Fora da estrada principal, a 100 metros por uma rua de terra sinuosa e
atravessando um portão de metal azul, se encontra a escola. Ela foi
construída há quatro anos pelo governo alemão.

Na segunda-feira, Bibi Gul recebeu as crianças enquanto estavam irrequietas sob a luz da manhã: "Queridos meninos e corajosas meninas, obrigado por terem vindo. O inimigo fez seus atos malignos, mas nós nunca permitiremos que as portas desta escola sejam fechadas novamente."

Aqueles eram seus últimos momentos como diretora. Ela já tinha deixado o cargo. "Meu coração está chorando", ela disse privativamente. "Mas eu
preciso partir por causa de tudo o que as pessoas dizem. Elas dizem que eu recebi cartas alertando sobre os ataques. Mas não é verdade. E as pessoas dizem que sou estrangeira porque fui para os Estados Unidos sem um mahram. Éramos um grupo de 12 pessoas. Eu tenho 42 anos. Eu não preciso viajar com um mahram."

Na aldeia em si, ela veste uma burca, coberta da cabeça aos pés em tecido cor de lavanda. Este é um local conservador. Para alguns, a simples idéia de meninas freqüentando uma escola na adolescência é uma quebra da tradição. Shukria, a menina de 13 anos que foi morta, era considerada uma garota educada que estudava reverentemente o Alcorão. Saadia, a outra estudante assassinada, era notável por ser casada e ter 25 anos. Ela se recusava a deixar que a idade a desencorajasse a concluir sua educação interrompida pelos anos do Taleban. Ela estava prestes a se formar.

Uma nova placa se encontra sobre o telhado de aço. A Escola Qalia Sayedan foi rebatizada de Escola Saadia Martirizada. Outro local será chamado de Shukria Martirizada.

Por três dias consecutivos é pedido aos estudantes que voltem às aulas. A cada manhã, mais deles aparecem. As garotas mais velhas são claramente as mais relutantes em voltar.

O lar de Shukria fica a apenas uma curta caminhada da escola. Nafiza, a mãe da garota, ainda está tomada demais pelo pesar para dizer mais que poucas palavras. O tio de Shukria, Shir Agha, assumiu o papel de porta-voz da família.

"Nós temos um ditado que diz que se você vai à escola, você pode se
encontrar, e se você conseguir se encontrar, você pode encontrar Deus", ele disse orgulhosamente. "Mas para uma criança freqüentar a escola, é preciso haver segurança. Quem fornece a segurança?"

Zarmina, a menina de 12 anos que viu a irmã ser morta, foi chamada à sala. Ela disse não estar pronta para voltar à escola. Mesmo o som de uma moto atualmente a faz se esconder. Mas certamente o medo passará, o tio assegurou para ela. Ela precisa se lembrar de que ama a escola, que ama ler, que ama escrever no papel.

Algum dia ela certamente retomará seus estudos, ele lhe disse.

Mas a garota de coração partido ainda não consegue imaginar isto. "Nunca", ela disse. George El Khouri Andolfato

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