UOL Notícias Internacional
 

12/07/2007

Dados recém-divulgados mostram que Nixon fazia manobras de bastidores

The New York Times
Neil A. Lewis
Em Washington
Na quarta-feira (11/07) os Arquivos Nacionais disponibilizaram mais de 11 horas de gravação em fitas de áudio que mostram o presidente Richard M. Nixon fazendo manobras em 1972 para refazer o Partido Republicano à sua imagem, esmagar a oposição sul-vietnamita aos seus esforços para encerrar a Guerra do Vietnã e distribuir auxílio a grupos étnicos com base na quantidade de apoio fornecido por estes à sua reeleição.

Segundo funcionários dos arquivos, as fitas, juntamente com 78 mil páginas de documentos recém-revelados, devem se constituir em uma coletânea fascinante de detalhes e contextos para os historiadores. A Biblioteca Nixon em Yorba Linda, na Califórnia, é atualmente parte dos Arquivos Nacionais, como resultado de um acordo firmado após anos de brigas acirradas entre o governo e a família Nixon pela custódia dos documentos oficiais do ex-presidente.

As gravações mais dramáticas e reveladoras envolvendo abusos do poder governamental foram divulgadas em 1996, e incluíam conversas de Nixon gravadas por um sistema de escuta oculto, quando o escândalo de Watergate o envolveu e acabou fazendo com que ele perdesse o cargo.

As gravações recém-divulgadas possibilitam que um novo ângulo de observação do Nixon político, especialmente nos momentos estonteantes da sua vitória esmagadora na campanha pela reeleição, em 1972, sobre o senador George McGovern, no instante em que as nuvens de Watergate apenas começavam a se formar.

Os documentos abrangem um amplo período, e incluem um memorando que poderá intrigar os estudiosos da personalidade de Nixon. No memorando, escrito em dezembro de 1970 e dirigido a H.R. Haldeman, um assessor graduado, Nixon expressa ao mesmo tempo raiva e angústia pelo fato de os seus assessores não terem sido capazes de criar uma imagem dele como pessoa agradável e gentil. Ele faz várias sugestões a respeito de como tal objetivo poderia ser alcançado, advertindo freqüentemente no documento de 11 páginas em espaço um que era necessário que os exemplos da sua amabilidade fossem descobertos pelos outros, e não promovidos pelos assessores da Casa Branca.

"Existem exemplos inumeráveis de tópicos relativos à gentileza", escreveu ele, afirmando que foi "super-amável para com o seu gabinete, a sua equipe e o Congresso durante o período de Natal" e que tratava os funcionários do gabinete e do sub-gabinete "como seres humanos dignos e não como sujeira sob o meu sapato".

"Com relação à questão da amabilidade", diz o memorando, é importante enfatizar para qualquer pessoa que possa escrever um artigo que o presidente "não conta vantagens sobre todas as coisas boas que faz pelas pessoas".

Nixon é ouvido em uma fita de 19 de novembro de 1972 criticando dois homens que seriam presidentes: Ronald Reagan e o velho George Bush. Ele diz a Charles W. Colson, o seu principal assessor, que o Partido Republicano está em apuros e precisa ser reforçado com uma coalizão de democratas da classe trabalhadora. "Basicamente, a sua liderança nos Estados é péssima", diz Nixon. "Francamente, na Califórnia, o problema é Reagan. Não dá para contorná-lo. Ele conseguiu o que queria, e é um empecilho".

Ele fala na mesma conversa a respeito de substituir Bush como representante dos Estados Unidos nas Nações Unidas, afirmando: "Toda aquela equipe é violentamente anti-Nixon, e Bush não fez nada quanto a isso. Ele está se tornando parte do grupo".

Colson sugere que Bush seja substituído por John Scali, um ex-correspondente de uma rede de televisão que ele descreve como sendo completamente leal a Nixon. Os dois observam que a nomeação de Scali atenderia ao desejo de Nixon de contar com um ítalo-americano no alto escalão do governo.

Uma proposta para nomear para o cargo Walter Washington, o primeiro prefeito negro eleito no Distrito de Colúmbia, é descartada durante a conversa.

"De qualquer maneira, não devemos nada aos negros", diz Nixon a Colson, que observa que os negros pouco contribuíram para a vitória acachapante do presidente.

Nixon responde: "Afinal de contas, bajular os negros não é uma coisa boa. Creio que você apresentou um bom argumento".

Nixon também descarta inicialmente a idéia de nomear alguém para um alto cargo como "o judeu da casa", mas a seguir diz a respeito de Leonard Garment, um advogado da Casa Branca. "Deixemos que ele seja o judeu da casa".

Em conversas ocorridas aproximadamente neste período, Nixon diz a indivíduos que lhe telefonaram, incluindo Hubert H. Humphrey, o concorrente democrata que ele derrotou quatro anos antes, que Henry Kissinger obteve um acordo experimental com o Vietnã do Norte poucos dias antes da eleição.

Nos dias subseqüentes ouve-se Nixon expressando uma raiva intensa devido ao fato de Nguyen Van Thieu, o presidente sul-vietnamita, estar se esquivando de concordar com o acordo firmado em Paris por Kissinger e Le Duc Tho, do Vietnã do Norte.

Em uma conversa, Nixon aventa a idéia de que os Estados Unidos poderiam assinar um acordo bilateral com o Vietnã do Norte, deixando o Vietnã do Sul de fora.

Stanley Karnow, um dos maiores especialistas na Guerra do Vietnã, disse na quarta-feira que Nixon estava profundamente preocupado à época com a possibilidade de o Congresso tomar as rédeas da política relativa à guerra caso ele não contasse com um acordo para demonstrar que controlava a situação.

Allen Weinstein, o arquivista dos Estados Unidos, disse que a fusão da Biblioteca Nixon com os Arquivos fez do governo Nixon "a presidência mais bem documentada da história norte-americana".

A coleção na biblioteca e o material disponível online também incluem preciosidades históricas como uma carta de Nixon para assessores políticos sugerindo em 1973 que John Kerry, então oponente da Guerra do Vietnã, seria um recruta de valor para o Partido Republicano. Ela também inclui uma carta de 1968 do presidente Dwight D. Eisenhower a Nixon oferecendo conselhos a respeito de nomes para a Corte Suprema e um outro memorando de Alexander Butterfield, um assessor da Casa Branca, reclamando das dificuldades para cuidar de King Timahoe, o indócil cão de Nixon da raça setter irlandês. UOL

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