UOL Notícias Internacional
 

13/07/2007

Bush distorce a verdade ao falar sobre vínculos entre grupos que integram Al Qaeda

The New York Times
Michael R. Gordon e Jim Rutenberg
Em Bagdá
Ao recusar os pedidos para que traga as tropas norte-americanas no Iraque para casa, o presidente Bush empregou na quinta-feira (12/07) uma defesa radical e sinistra. "Os mesmos indivíduos que estão lançando atentados a bomba contra pessoas inocentes no Iraque foram os que nos atacaram nos Estados Unidos no 11 de setembro, e é por isso que aquilo que ocorre no Iraque tem importância para a segurança aqui na nossa casa".

Este é um argumento que Bush tem apresentado com grande freqüência nos últimos meses, à medida que aumentam as contestações à continuidade da guerra. Somente na quinta-feira, ele se referiu pelo menos 30 vezes à Al Qaeda e à presença do grupo extremista no Iraque.

Mas as suas referências à Al Qaeda no Iraque, e a sua afirmação de que esse é o mesmo grupo que atacou os Estados Unidos em 2001, simplificou demasiadamente a natureza da insurgência no Iraque e das relações desta com a liderança da Al Qaeda. Os críticos de Bush dizem que ele exagerou a conexão da Al Qaeda em uma tentativa de explorar o mesmo tipo de emoções que emergiram após o 11 de setembro e que ajudaram-no a princípio a obter apoio para a invasão.

A Al Qaeda na Mesopotâmia não existia antes dos ataques de 11 de setembro, e ela prosperou como um pólo de atração de recrutas e uma força fomentadora da violência em grande parte devido à invasão norte-americana do Iraque em 2003, que trouxe uma força estadunidense de ocupação composta de mais de 100 mil soldados para o coração do Oriente Médio.

Brendan Smialowski/The New York Times 
Bush durante entrevista na quinta-feira em que citou a Al Qaeda pelo menos 30 vezes

As forças armadas e as agências de inteligência norte-americanas caracterizam a Al Qaeda na Mesopotâmia como sendo um grupo brutal, liderado por estrangeiros, que é o responsável por uma parcela desproporcionalmente elevada dos ataques suicidas com carros-bomba que alimentam a violência sectária. O general David H. Petraeus, o principal comandante norte-americano no Iraque, disse em uma entrevista que considera o grupo "a principal ameaça de curto prazo ao Iraque".

Mas embora as agências de inteligência norte-americanas tenham relatado que existem vínculos entre a Al Qaeda na Mesopotâmia e a alta liderança da Al Qaeda, o grupo militante é, sob diversos aspectos, um fenômeno iraquiano. Elas acreditam que os membros do grupo sejam em sua grande maioria iraquianos. A organização é financiada com recursos obtidos no próprio país por meio de seqüestros e outras atividades criminosas. E muitos dos seus mais ardentes adversários estão bem perto, no cenário doméstico. Ou seja, são as milícias xiitas e os iranianos que são acusados por Bush de apoiá-los.

"O presidente deseja jogar com o nome da Al Qaeda porque ele acha que os norte-americanos entendem a ameaça que a organização representa", afirma Bruce Riedel, especialista do Centro Saban do Oriente Médio e ex-funcionário da CIA. "Mas o que eu não creio que ele tenha demonstrado é que o combate à Al Qaeda no Iraque impeça que a Al Qaeda lance um ataque aqui nos Estados Unidos amanhã. A Al Qaeda, tanto no Iraque como globalmente, prospera com a ocupação norte-americana".

Abu Musab al-Zarqawi, um jordaniano que se tornou o líder da Al Qaeda na Mesopotâmia, seguiu para o Iraque em 2002, quando Saddam Hussein ainda estava no poder, mas não há evidências de que o governo de Saddam tenha oferecido apoio a Zarqawi e seus seguidores. As agências norte-americanas de inteligência acreditam que Zarqawi contava com o apoio de líderes de alto escalão da Al Qaeda, e que a sua organização cresceu com o caos do Iraque pós-Saddam.

"Houve uma relação íntima entre eles desde o início", diz Riedel a respeito da Al Qaeda na Mesopotâmia e dos principais líderes da Al Qaeda.

Mas o relacionamento preciso entre a Al Qaeda de Osama Bin Laden e outros grupos que alegam ser inspirados pela organização terrorista ou a ela afiliados é nebuloso e opaco. Não está claro se existe qualquer conexão operacional direta entre o grupo no Iraque e Bin Laden.

Embora os grupos compartilhem uma ideologia comum, aquele cuja base fica no Iraque goza de considerável autonomia. Segundo materiais apreendidos, Ayman al-Zawahiri, o principal assessor de Bin Laden, questionou a estratégia de Zarqawi de organizar ataques contra os xiitas. Mas mesmo assim Zarqawi manteve a sua estratégia de lançar ataques sectaristas na tentativa de fomentar uma guerra civil e tornar a ocupação norte-americana insustentável.

O tamanho preciso da Al Qaeda na Mesopotâmia é desconhecido. Estima-se que a organização possa contar com até 5.000 combatentes, e talvez com dez mil pessoas que lhe forneça apoio. Embora o grupo seja formado por uma maioria de iraquianos, o papel desempenhado por estrangeiros é crucial.

Abu Ayyub al-Masri é um militante egípcio que emergiu como o sucessor de Zarqawi. Zarqawi foi morto em um ataque aéreo norte-americano próximo a Baquba no ano passado. Ninguém sabe ao certo qual é o relacionamento de Masri com a Al Qaeda. Oficiais militares norte-americanos dizem que entre 60 e 80 combatentes estrangeiros vêm para o Iraque todos os meses para lutar pelo grupo, e que entre 80% e 90% dos ataques suicidas no Iraque são realizados por agentes operacionais estrangeiros da Al Qaeda na Mesopotâmia.

No início, a Al Qaeda na Mesopotâmia recebia financiamento da organização Al Qaeda maior, segundo concluíram as agências de inteligência norte-americanas. Agora, no entanto, o grupo com sede no Iraque se auto-sustenta por meio de seqüestros, contrabandos e atividades criminosas, além de algumas contribuições estrangeiras.

Com as milícias xiitas tendo passado a atuar menos desde que teve início o aumento do número de soldados, e com a Al Qaeda na Mesopotâmia se engajando na sua própria modalidade de resistência, um dos principais focos da atual operação militar norte-americana é negar ao grupo as suas fortalezas nas áreas do entorno de Bagdá - e assim neutralizar a sua capacidade de lançar ataques que provocam um enorme número de baixas.

O debate acalorado sobre o Iraque passou também a envolver o nome da Al Qaeda na Mesopotâmia. Bush enfatizou a importância do grupo, falando sobre ele como se houvesse relação entre os seus integrantes e os perpetradores dos ataques do 11 de setembro. Os críticos da guerra minimizam com freqüência a significância do grupo, apesar do seu histórico sinistro de ataques suicidas e da suspeição generalizada quanto ao seu papel na destruição de um templo xiita em Samarra, em fevereiro de 2002, um episódio que colocou o Iraque na trilha rumo à guerra civil.

Na semana passada, Zawahiri conclamou os muçulmanos a viajarem para o Iraque, o Afeganistão e a Somália a fim de desfecharem ataques contra os norte-americanos e pediu também a eles que apóiem o Estado Islâmico no Iraque, um grupo criado pela Al Qaeda no Iraque a fim de atrair um apoio sunita mais amplo.

A questão mais ampla é saber se o Iraque é uma frente central na guerra contra a Al Qaeda, como afirma Bush, ou se a guerra iraquiana não passa de um elemento que fez com que os Estados Unidos deixassem de se focalizar nos santuários da Al Qaeda no Paquistão, e que ao mesmo tempo possibilitou que a Al Qaeda contasse com uma causa para angariar apoio.

Oficiais de inteligência militar dizem que os líderes da Al Qaeda na Mesopotâmia desejam expandir os seus ataques para outros países. Eles observam que Zarqawi alegou ter exercido um papel em um ataque terrorista realizado em 2005 na Jordânia. Mas Bruce Hoffman, um especialista em terrorismo da Universidade Georgetown, diz que se as forças norte-americanas se retirassem do Iraque, a vasta maioria dos membros do grupo se concentraria mais em lutar contra as milícias xiitas em uma guerra pelo domínio sobre o Iraque do que em tentar seguir os norte-americanos até os Estados Unidos.

"Al-Masri alimenta expectativas mais grandiosas, mas isso não significa que ele seja capaz de transformar a Al Qaeda do Iraque em uma entidade terrorista transnacional", afirma Hoffman. UOL

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