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13/07/2007

O passatempo americano é apenas uma vírgula no Brasil louco por futebol

The New York Times
Larry Rohter

Em Ibiúna, São Paulo
Beisebol e Brasil? Essa combinação é tão evocada quanto os Yakees e o samba.

Mas sim, o Brasil tem uma seleção amadora que vem treinando há meses em seu centro de treinamento aqui em Ibiúna para os Jogos Pan-Americanos, no Rio de Janeiro. A esperança da equipe é que um forte desempenho na competição, uma espécie de Olimpíadas das Américas, ajude a colocar o beisebol no mapa do país, onde os esportes mais populares são futebol, futebol e mais futebol.

"Esta é uma rara oportunidade para nós e para nosso esporte, e queremos tirar o máximo de vantagem possível" disse o jardineiro interno Ronaldo Ono, 33, capitão do time. "É uma grande responsabilidade jogar em casa, e é isso que nos motiva. Queremos vencer e chamar a atenção do Brasil, e achamos que podemos. Respeitamos os outros times, mas não temos medo de nenhum."

Apesar de virtualmente ignorada no noticiário, a seleção brasileira vem melhorando nos últimos anos. Após não conseguir se qualificar para os Jogos de 1995, acabou em oitavo em 1999 e em quinto em 2003, e em outros torneios recentes apresentou desafios surpreendentemente fortes a Cuba, perdendo uma vez por um ponto, e para Porto Rico, perdendo um jogo no 18º tempo.

Mesmo assim, conquistar até mesmo uma medalha de bronze no Rio não será fácil. Na primeira fase, o Brasil estará no mesmo grupo que os EUA, República Dominicana e Nicarágua, e também terá a desvantagem de jogar diante de espectadores com pouco conhecimento ou pouco interesse no jogo.

"Os brasileiros gostam de torcer para seus compatriotas. Então, quando tivermos um brasileiro jogando na principal liga de beisebol, isso ajudará a popularizar o esporte", disse Everaldo Marques, um dos narradores do jogo da noite de domingo da ESPN. "Veja o que aconteceu com o tênis quando Gustavo Kuerten estava se saindo bem, ou com o NBA quando apareceram jogadores brasileiros como Anderson Varejão, Nenê Hilário e Leandro Barbosa."

Marques acrescentou que alguns brasileiros acham o beisebol "difícil de entender à primeira vista, por causa de coisas como bases roubadas e jogada dupla", enquanto outros o consideraram "longo e lento", comparado com o futebol. Se a seleção brasileira "chegar às semifinais dos Jogos Pan-Americanos e estiver concorrendo à medalha, as pessoas vão assistir", disse ele. De outra forma "haverá mais foco em esportes como ginástica, natação e vôlei."

Em contraste com outros países latino-americanos, o beisebol não chegou aqui pelos EUA, mas pelo Japão. O Brasil tem a maior população de descendência japonesa de qualquer país fora do Japão, em torno de dois milhões de pessoas, e o beisebol foi jogado tradicionalmente, se não exclusivamente, nos três Estados onde a maior parte da comunidade japonesa estabeleceu-se.

Lalo de Almeida/The New York Times 
Jogadores brasileiros observam treino de beisebol em Ibiúna, São Paulo

Como resultado, 16 dos 20 jogadores da equipe que competirá no Rio de Janeiro são de ascendência japonesa. Mas até mesmo os que não têm sangue japonês aprenderam o jogo com os nomes usados em japonês para as posições e jogadores, e toda vez que o técnico Mitsuyoshi Sato fala à equipe, seus jogadores se dirigem a ele como "sensei" e fazem uma reverência respeitosa quando ele termina suas observações.

Membros da Confederação Brasileira de Futebol dizem que um de seus principais objetivos é tornar o jogo popular - ou ao menos conhecido - entre os brasileiros. Como resultado, nos últimos anos foram organizados programas para estimular jovens a jogarem beisebol nos arredores de algumas cidades importantes e foram criados novos torneios e ligas.

O esforço já gerou um jogador promissor que estará competindo no Rio. Gilmar Pereira é um arremessador de 19 anos com uma bola de 95mph que foi recrutado de um bairro pobre há oito anos, enviado ao Japão aos 14 anos para treinamento e agora é um "farmhand Phillies".

"Meu pai achava que era um esporte sem futuro, mas graças ao beisebol, recebi boa educação e conheci outras culturas", disse Pereira. "Não sei onde estaria hoje sem o beisebol, porque há muitos crimes e drogas em meu bairro, e o beisebol me acalmou e me deu um foco na vida."

Para melhorar o nível do jogo brasileiro, a confederação também vem contratando técnicos cubanos. Entre os importados estão Ernesto Noris Chacon e Juan Yanez, arremessadores que estavam no Havana Industriales com Orlando Hernandez antes de ele partir para o estrelato nos Yankees e nos Mets.

Os cubanos dizem estar otimistas com a seleção brasileira, se não imediatamente, ao menos em um futuro próximo. Eles descrevem os jogadores brasileiros como uma rara mistura de disciplina e dedicação japonesas com a paixão e estilo latino-americanos.

"Há muito talento aqui", disse Yanez, técnico de arremesso da seleção júnior. "Só precisa ser polido."

Olheiros japoneses e da liga parecem concordar. "Toda vez que tem um torneio aqui, olheiros de ao menos meia dúzia de times estão nas arquibancadas, o que não acontecia há cinco anos", disse Olívio Sawasato, vice-presidente da confederação brasileira.

O time brasileiro tem a sorte de treinar aqui, em um campo moderno, uma hora a oeste de São Paulo, que lembra um complexo de treinamento americano e foi construído pela mesma empresa de laticínios japonesa que é proprietária do Tokyo Yakult Swallows da Liga Central Japonesa. Apesar de não haver acordo formal entre o Brasil e o Swallows, Daniel Yuichi Matsumoto, 26, primeira base canhoto e jardineiro externo que agora joga no Swallows, foi descoberto e contratado aqui.

Nenhum jogador brasileiro chegou às principais ligas. Mas Sawasato disse que mais de 30 estavam jogando em vários níveis no Japão ou em Taiwan, e quase uma dúzia tinha fechado contrato com equipes da Liga Principal, incluindo dois jardineiros externos que estão no sistema do Chicago White Sox mas receberam permissão para jogar os Pan Americanos: Anderson Gomes dos Santos e Paulo Roberto Orlando.

A seleção brasileira, entretanto, não terá seu melhor arremessador, Jo Matumoto, de 36 anos e canhoto, que foi o jogador mais valioso do campeonato sul-americano de 2005. No inverno, ele fechou contrato com o Toronto Blue Jays e jogou para eles no treinamento da primavera, antes de ser enviado para o Double-A New Hampshires, onde tem uma média de 3,44 pontos.

Para os jogadores que continuam aqui, ou que retornam das carreiras no exterior, jogar é um trabalho de amor, sem esperança de ganhar a vida dessa forma. O jardineiro externo Celso Takashi Nakano, por exemplo, é oftalmologista, enquanto Ono, jardineiro interno, trabalha para uma empresa que vende equipamentos ortodônticos e bidês.

"Estamos jogando por honra, pelo nome na nossa camisa", disse Marcelo Arai, arremessador iniciante e estudante de veterinária, apontando para o "Brasil" na frente do uniforme. "Não estamos jogando por dinheiro ou fama, porque a verdade é que muitas vezes pagamos do nosso bolso para poder jogar."

No início de um treinamento de sábado de manhã no final de junho, Sato, 60, tentou transmitir força aos jogadores. Disse a eles que mantivessem seu espírito de batalha e não ficassem impressionados com o renome dos times dos EUA e de outros países com longa tradição no beisebol.

"O importante é o que acontece em campo e, para mim, até o jogo começar, ninguém ganhou ou perdeu", disse ele. "Então, vamos ficar unidos. Se puderem trabalhar juntos, podemos vencer. O jogo é decidido em campo, não pela fama ou pela estatística."

O receptor Rafael Motooka de Oliveira, 25, certamente tem a postura que o técnico pede. Depois de sete anos na organização dos Cincinnati Reds, ele agora é agente livre. Junto com seu sonho de jogar bem o suficiente no Rio para atrair a atenção de um olheiro, ele acredita que a seleção brasileira pode se sair bem e surpreender.

"Não conheço as outras seleções, mas não é uma longa temporada", disse ele. "São apenas três jogos na primeira rodada, o que é como uma loteria. Vamos jogar uma série curta em nosso próprio país, então acho que temos uma chance de ganhar uma medalha, que é o que viemos aqui para fazer, se quisermos levar o beisebol para a mídia. Por causa do futebol, as pessoas aqui querem vencedores sempre." Deborah Weinberg

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