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14/07/2007

As escondidas "moradas de sonho" em Portugal

The New York Times
Sarah Wildman
Nós seguíamos de carro pela Rota 101 - uma estrada de duas pistas que corta Portugal no sentido diagonal - em busca de uma pequena cidade chamada Mesão Frio e da Pousada Solar da Rede, solar do século 18 situado rio Douro acima. Eu tinha dois mapas espalhados ao meu lado e um atlas Michelin Espanha-Portugal aberto na parte norte de Portugal. Quão difícil seria encontrar o Douro? E onde estávamos exatamente? Perdidos em algum lugar, aparentemente numa reserva natural.

"Não peguem a estrada de alta velocidade", havia nos alertado um recepcionista cheio de certeza na Pousada de Amares, onde havíamos ficado na noite anterior. "A Rota 101 é mais rápida." Só que um mapa indicava Mesão Frio ao leste, e outro mapa indicava que era para o oeste. "Não importa, pegue uma direção!", ordenou desesperado meu companheiro de viagem enquanto pegávamos aquele que já deveria ser o 40º desvio sem indicações.

Eis que subitamente apareceu uma pousada - uma mansão, grande e barroca - após várias idas e vindas, pairando bem acima do verde Douro (finalmente!) a cerca de duas horas subindo o rio vindo da cidade do Porto. Era uma vista impressionante: dragões alados em granito guardando o acesso ao portão principal e no terraço um jardim em forma de labirinto dando para um vinhedo; arbustos formando círculos e quadrados, flores se abrindo por toda parte; e o apaixonante Douro fluindo como em uma pintura da Hudson River School, enevoado ali por perto.

Susana Raab/The New York Times 
Carro diante da entrada da Pousada Solar da Rede, em Mesão Frio, Portugal

Assim como os paradores estatais espanhóis, a rede de pousadas portuguesas fundada há 65 anos (que já foi totalmente estatal, e agora é administrada pelo grupo hoteleiro Pestana) abrange solares do século 18, como o que procurávamos, ex-conventos, mosteiros, castelos e palácios, assim como construções mais modernas situadas em reservas naturais e em cadeias de montanhas. É quase um desafio chegar até os paradores - durante nossos quatro dias de viagem em maio, todas as pessoas com quem eu e meu companheiro Ian falamos já haviam se perdido pelo menos uma vez pelas estreitas estradas que circundam deslumbrantes encostas onde as auto-estradas inexplicavelmente mudam de nomes.

Mas quando se chega lá desaparece qualquer irritação em relação aos mapas que não coincidem e às vilas que não existem. Essas construções são magníficas: as que visitamos são tão ou mais bonitas, conforme concluímos, que as equivalentes da Espanha.

Mais tarde naquela mesma noite, confortavelmente bem alimentados e já instalados, finalmente éramos capazes de rir sobre nossa viagem de "uma hora" até Mesão Frio, que levou quase o triplo do tempo prometido pelo site Google Maps. Contamos essa história aos nossos novos amigos e companheiros de hospedagem, Claudia Dannhorn e Bruno Brawand, sentados em cadeiras ornadas em tom damasco sob um grande candelabro de cristal. Claudia foi até o quarto dela e voltou com um aparelho localizador GPS (Global Positioning System). "Você precisa ter um", ela disse. "Em Portugal não existem placas de sinalização." Ela encolheu as pernas, lutando para ficar confortável - uma verdadeira façanha nessas cadeiras concebidas para posturas eretas de bailarinas do século 18.

Estávamos no que era uma sala de estar formal de uma nobre família de viticultores; suas imagens com perucas enfeitam as tradicionais paredes com tijolos azuis da sala de jantar. Como acontece em outros solares nessa região, esses prósperos proprietários eram produtores dos vinhos Douro - brancos, tintos e Portos - numa área de 62 acres de vinhedos familiares, ao lado de laranjeiras e limoeiros.

Na manhã seguinte nós vimos os vinhedos e as árvores frutíferas firmes nas encostas, descendo e acompanhando as curvas do próprio Douro. Aquela noite estava tempestuosa e escura, enquanto o quarto estava bem claro. Não era por acaso. As cadeiras e namoradeiras são do tipo que apenas Maria Antonieta acharia confortável: intrincadamente lapidadas, ornadas com muito capricho. Só de ficar sentados numa sala assim - com seus tijolos originais do século 18 nas paredes e espelhos franceses dourados, cadeiras de espaldar alto e sedas de época por toda parte - sentíamos como se estivéssemos nos divertindo nos salões em veludo vermelho de Versailles. Numa estante, um deteriorado texto em português contava a história dessa propriedade familiar que virou pousada.

Num livro sobre as pousadas estilo coffee table e incrivelmente fotografado chamado "Moradas de Sonho", as pousadas são descritas como fruto da "preservação da herança arquitetônica e natural (de Portugal),com a arquitetura viva e a opulência da culinária portuguesa".

O refeitório do Solar da Rede - onde especialidades locais como a sopa de repolhos e pato assado com redução caramelizada de cerejas são servidas junto com inovações recentes como os crepes vegetarianos - era impactante, com azulejos portugueses e candelabros de época. Num ambiente de luxo descontraído, as pousadas proporcionam um olhar sobre a história e as paisagens portuguesas, marcando uma diferença em relação aos tradicionais circuitos turísticos.

Claudia e Bruno são bem o tipo de visitantes que Portugal espera atrair. O casal (ela é alemã, ele é suíço) é proprietário e gerencia o Hotel Berghaus Bort na cidade de Grindelwald, nos Alpes da Suíça, e eles trabalham sem um dia de descanso, conforme nos disseram, de novembro até maio. Depois da temporada, em vez de dormirem viajam por três semanas. Num ano foram a Tailândia. Neste ano estão perambulando de pousada em pousada, em grande parte porque como muitos dos empregados deles são portugueses eles queriam sentir melhor a atmosfera do país. A jornada de Claudia e Bruno começou no Castelo de Óbidos, do século 12, o primeiro prédio histórico transformado em pousada. Eles iriam dormir na torre e depois conhecer a cidade medieval de Guimarães, cujo centro histórico foi tombado como Patrimônio Mundial da UNESCO.

Saindo de Guimarães em qualquer direção - seja para as fronteiras ao norte e ao leste com a Espanha, ou em direção à costa Atlântica - o interior é cheio de pousadas: em sua maioria são conventos e mosteiros, com cada construção refletindo a austeridade e o isolamento dessa região nas Idades Médias. Muitas haviam entrado em estado de ruínas antes de serem adotadas e reabilitadas pelo sistema de pousadas. Mas essa condição depauperada, em vez de complicar as restaurações, proporcionou aos arquitetos possibilidades de trabalho artístico, transformando esses prédios em locais tanto de imaginação quanto de história.

Talvez o melhor exemplo disso esteja em Santa Maria do Bouro, um mosteiro transformado em pousada nos arredores de Amares, a 35 quilômetros ao norte de Guimarães. Lá eu encontrei J. Kasmin, colecionador de arte em Londres agora aposentado, na Pousada de Amares. Kasmin e seu amigo Peter Brock entraram caminhando na pousada, literalmente, ao final da expedição para caminhantes On Foot Holidays - sete dias de jornada a pé pelo interior de Portugal. Para os dois, o efeito de vislumbrar a pousada através da bruma era similar ao vivido pelos peregrinos que visitavam esse mosteiro no século 14 - quer dizer, descontando o fato de que os novos peregrinos encontram lá dentro paredes antigas transformadas pelo design e pela arte moderna.

No final dos anos oitenta, Santa Maria do Bouro, mosteiro do século 12 que estava semi-destruído, foi entregue ao arquiteto português Eduardo Souto de Moura. Ele passou oito anos restaurando a pousada até a reinauguração em 1997.

O arquiteto escreveu enquanto trabalhava: "Não estou restaurando um mosteiro; estou é construindo uma pousada a partir das pedras de um mosteiro." O pátio interno estava praticamente em ruínas, com árvores crescendo de pedras e arcos que uniam o nada, visíveis através de janelões com vidro anti-reflexo ao longo de cada corredor. Agora os quartos, que já foram celas dos monges, são modernos e lustrosos, com banheiros todos em mármore branco. Nos corredores, o teto em ferro oxidado esconde tubulação mais moderna e o sistema de ar condicionado. Os janelões dão vista para uma capela anexa ao mosteiro, numa mistura indistinta entre o novo e o velho.

No andar de baixo, as paredes do restaurante são feitas inteiramente de pedras antigas, subindo até o teto em três andares. Os fornos originais do mosteiro, gigantescos e escurecidos, estão fundo. Já as mesas são modernas, com cadeiras em madeira leve e os talheres tão delicados e sensuais que mais parecem os que você poderia encontrar na loja Georg Jensen em vez de serem os de um refeitório medieval. O chef prepara especialidades locais como polvo grelhado com batatas "amassadas" (assadas e depois achatadas) acrescentando inovações tais como pratos vegetarianos e arroz com infusão em coentro.

Do lado de fora do restaurante, a vista através dos cinco vãos de pedra dando para um portal de the madeira pintado em verde já interrompeu jantares por conta de sua majestade. Os assentos dedicados ao público combinam o antigo e o moderno, com cadeiras de couro cor-de-castanha contrastando com as pedras do século 12, e uma grande lareira perto do bar. Amplas telas de arte moderna convivem em harmonia com o espaço.

Fora dos muros, numa caminhada de quatro quilômetros se chega a outra igreja medieval; você pode levar uma cesta de lanches preparada na cozinha da pousada. A maioria vai de carro, apontando seu equipamento de GPS em direção à histórica cidade de Guimarães, a cerca de 45 minutos. Os muros do castelo da Condessa Mumadona Dias, considerada a mais poderosa mulher portuguesa no século 10, está a cinco minutos de caminhada partindo do centro de Guimarães. Hoje em dia é como se fosse um parque para qualquer criança ou adulto que já gostou de histórias sobre cavaleiros ou princesas. E é exatamente como você imagina que deveria ser um castelo, com um fosso, uma torre e parapeitos. Logo ao lado fica um prédio muito mais bem preservado, o palácio dos Duques de Bragança, do século 15, e que agora é um museu.
As duas pousadas de Guimarães também têm o mesmo tipo de história. No coração do centro histórico, numa praça medieval, a Pousada Nossa Senhora da Oliveira dá de frente para a igreja Nossa Senhora da Oliveira, do século 14 e para casas de nobres do século 15. Por aqui, perambular pelas ruas faz parte do charme, assim como a pousada - azulejos pintados dos séculos 17, 18 e 19 adornam as paredes; pesadas vigas de madeira servem de suporte para os prédios antigos.

À distância, um tanto isolada da cidade, a outra pousada - Santa Marinha - fica no alto de uma colina. O terreno é magnífico, com um riachinho que vai dar numa pequena cachoeira, jardins bem mantidos e um amplo pátio coberto com cobertura em tijolo de 300 anos e uma fonte de pedra em funcionamento.

No dia em que eu estava por lá, Inger Baehr, uma professora norueguesa aposentada, estava sentada no interior da pousada olhando a cidade pelas vidraças, lendo sobre a história daquela edificação. Alguns anos atrás ela e o marido reservaram um quarto nessa pousada para descansarem após uma conferência em Lisboa. Eles se perderam pelo caminho, e só chegaram às 11 da noite. Mas ficaram tão impressionados que fizeram planos para voltar e poder aproveitar o local por inteiro. "Nós voltamos em janeiro", ela disse. "E agora estamos aqui novamente, com minha mãe de 91 anos, meu irmão, minha irmã e nossos cunhados."

A transição de Guimarães para a pousada Solar da Rede em Mesão Frio é dramática, especialmente se você não entra na auto-estrada de alta velocidade e pega a estrada menor pelo parque nacional, como nós fizemos. O cenário é exuberante e verdejante, cheio de montanhas e vertiginoso - você emerge da floresta e passa a se deparar com vistas infindáveis de vinhedos e árvores frutíferas. Mas nada é mais marcante que as absolutas diferenças geográficas que Portugal apresenta em distâncias relativamente curtas.

Saindo do Vale Douro depois de visitar o Solar da Rede, fomos em direção à reserva natural de São Jacinto na costa Atlântica. Numa pequena baía que fica a menos de uma hora saindo de carro do Porto na direção sul, a região faz lembrar o que North Fork em Long Island, perto de Nova York, deveria ser no começo do século passado. Há quintas até aonde o olho pode alcançar. Tratores. Búfalos (Búfalos!) Para cada cinco tratores, uma carroça puxada a cavalos. Da ponte em direção à pequena cidade costeira de Torreira e à reserva natural - paraíso para os amantes dos pássaros - as águas são calmas e azuis; barcos moliceiros navegam pelos sargaços com suas proas e popas elevadas aos montes perto de barcos a motor mais modernos; ciclistas em bandos atravessam o terreno plano.

Após os mosteiros e solares, tínhamos uma escolha: ou ficar em outro palácio do mesmo tipo ou numa das "novas" pousadas, construídas mais a partir de sua relação com a natureza do que com a história. Fizemos a segunda opção, pela Pousada de Torreira-Murtosa. Aberta em 1967, parece com uma adorável residência de verão: cerejeiras, decoração meio náutica, sofás com padronagens marinhas em creme chão de sisal. A construção é arejada - vagamente remanescente de Frank Lloyd Wright com um tanto de boa vontade, ou então algo desenhado por Mike Brady, o papai arquiteto da série Brady Bunch (Família Sol-La-Si-Dó), se você estiver de gozação.

Nada é feito para se desprezar o mar. No andar de baixo a parede é de vidro, o piso é em ardósia. No restaurante, dando para um lago, a pousada oferece os peixes locais e frutos do mar - bacalhau, sardinhas, arraia, polvo - com azeitonas picadas. Como fica meio isolada lá na reserva natural, não há vizinhos barulhentos nem barulho de motores dos barcos, apenas água, pescadores à distância e dunas para escalar. Nós nem chegamos a ficar perdidos pelo caminho.

"Aqui você pode recarregar suas baterias", disse o gerente do hotel, feliz ao arriscar uma expressão idiomática americana. Seria engraçado se não fosse tão verdadeiro. Marcelo Godoy

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