UOL Notícias Internacional
 

14/07/2007

No assassinato em uma rua de Bagdá, questões que assombram o Iraque

The New York Times
John F. Burns*
Em Bagdá
Às 8h45 da sexta-feira (13/07), Khalid W. Hassan cruzava no seu carro um dos bairros mais perigosos de Bagdá, à caminho do trabalho como repórter e intérprete no escritório local do "New York Times". "A minha área está bloqueada", escreveu ele em uma mensagem de texto enviada pelo telefone celular ao gerente da redação. "Estou tentando encontrar um saída".

Dentro de 45 minutos, à cerca de três quilômetros da sua casa, Hassan, cuja família palestina migrou para o Iraque em 1948, foi obrigado a parar no acostamento por homens armados em um Mercedes preto. Os homens abriram fogo com fuzis automáticos, crivando de balas o modesto carro Kia de Hassan. Pelo menos um dos projéteis o atingiu na parte superior do corpo, sem entretanto matá-lo.

Hassan, um rapaz corpulento e brincalhão de 23 anos, adorava o novo mundo de telefones celulares, computadores online e vídeos baixados da Internet, coisas que só surgiram após a ocupação do Iraque pelos Estados Unidos. Na verdade, ele gostava tanto dessas novidades que recentemente gastou um quarto do seu salário mensal com a compra de um telefone celular novo. Caído sobre o assento, ele ligou para a mãe, e depois para o pai, que trabalhava como zelador de uma escola, dizendo a eles que fora baleado. "Estou bem, mãe", disse Hassan.

Um policial de folga, que estava em uma fila em um posto de gasolina, contou ao pai de Hassan o que aconteceu a seguir. Homens armados em um segundo carro, um Opel Vectra, ao verem Hassan ao telefone, pararam no acostamento e disparam dois tiros fatais na cabeça e no pescoço do rapaz.

A sanha assassina em Bagdá chegou a tal ponto que diversas famílias jamais sabem quem são os assassinos dos seus entes queridos, e tampouco os motivos que os levaram a matar. Insurgentes sunitas? Milícias xiitas? Assassinos que imitam um dos grupos, por motivos mais particulares relacionados à ganância, ao ódio ou à vingança? Ou, quem sabe, no caso de Hassan, a razão do assassinato está ligada à natureza do seu emprego, que o colocava duplamente em risco, como jornalista iraquiano e como iraquiano trabalhando para norte-americanos?

Com uma força policial que mal funciona devido aos golpes que vem sofrendo - e que gerou esquadrões da morte xiitas a partir das suas próprias fileiras - as famílias raramente têm esperanças de ver os assassinatos desvendados. Este pode ser agora o destino da família de Hassan, que era o principal responsável por sustentar a casa. Depois que os seus pais se separaram quando ele era adolescente, Hassan apoiou a mãe e as quatro irmãs, todos com menos de 18 anos, vendendo cosméticos de porta em porta e, nos últimos quatro anos, usando um inglês coloquial aprendido devido à sua paixão pelos filmes de Hollywood para trabalhar para o "New York Times".

Hassan foi o segundo membro da equipe iraquiana de notícias do "New York Times" - um grupo que inclui 30 jornalistas em Bagdá e em todo o país - a ser baleado e morto. Um repórter do jornal que trabalhava em Basra, Fakher Haider, foi arrastado da sua casa e assassinado por homens armados no outono de 2005. Algumas autoridades locais atribuíram o assassinato de Haider à ação de milicianos xiitas enfurecidos com certos aspectos do trabalho do jornalista.

Segundo o Comitê de Proteção a Jornalistas, com sede em Nova York, 110 jornalistas foram assassinados no Iraque desde a invasão do país pelos Estados Unidos em março de 2003. Destes 88 eram iraquianos, incluindo Hassan.

Ao final da tarde de sexta-feira, Hassan foi enterrado ao lado de centenas de outras vítimas da recente violência iraquiana em um cemitério improvisado no distrito de Adhamiya, a alguns quilômetros da sua residência. Até o ano passado o local era um campo de futebol para crianças. Adhamiya é um reduto da minoria iraquiana sunita, que foi desalojada do poder com a derrubada de Saddam Hussein. Indivíduos que saíam das orações noturnas em uma mesquita próxima se juntaram ao grupo dos que lamentavam a morte de Hassan, um sunita, gritando slogans contra aqueles que eles chamam de "infiéis" xiitas que tomaram o poder, bem como contra os ocupadores norte-americanos que tornaram tais desgraças possíveis.

Alguns amigos e parentes de Hassan acreditam que ele foi provavelmente vítima do Exército Mahdi, uma poderosa milícia xiita fundada pelo clérigo populista Muqtada al-Sadr. Faz semanas que o Exército Mahdi trava uma batalha letal com extremistas sunitas pelo controle de Saidiya, o bairro de Hassan, no sul de Bagdá. O confronto é parte de uma batalha mais ampla, travada de bairro em bairro, em áreas mais amplas da capital, entre milicianos xiitas e extremistas sunitas, alguns deles ligados ao grupo insurgente Al Qaeda na Mesopotâmia.

Juntos, os dois grupos transformaram Saidiya em uma da mais violentas zonas de guerra da cidade. Moradores do bairro disseram na sexta-feira que extremistas sunitas, em sua maioria adolescentes, ocuparam apartamentos vazios na área, jurando proteger a decrescente população sunita do local. Segundo os moradores, milicianos xiitas se colocaram em posições estratégicas como franco-atiradores no entorno de Saidiya, e aceleraram a fuga dos sunitas ao entrarem no bairro usando uniformes da polícia, e a seguir vestindo roupas civis para promoverem as execuções.

Foi na esperança de conter batalhas sectárias desta natureza, especialmente em Bagdá, que o presidente Bush ordenou o envio de tropas norte-americanas adicionais para o Iraque no início deste ano. Mas para a população de Saidiya, o resultado, cinco meses depois, tem sido muitas vezes o oposto. Como a principal ação norte-americana se concentra nos bairros mais a oeste, próximos ao aeroporto internacional de Bagdá, os extremistas mudaram de foco, preferindo combater em áreas nas quais os reforços dos Estados Unidos ainda não chegaram.

Para Hassan e a sua família, a vida se transformou em uma loteria. No início deste ano, eles se mudaram para apartamentos em Saidiya quando a residência anterior foi destruída por um caminhão-bomba, em uma ação que, segundo a polícia, foi obra de extremista sunitas. No mês passado, um dos tios de Hassan foi morto com tiros disparados de carros em movimento no bairro vizinho de Topchi; a família culpou os extremistas xiitas. No início desta semana, um colega de Hassan que também trabalhava na sala de imprensa do "New York Times" em Bagdá fugiu para Saidiya depois que dez das 12 famílias que moravam no seu prédio, incluindo sunitas, xiitas, curdos e cristãos, se mudaram para outros bairros. As únicas pessoas que permaneceram no prédio foram um deficiente físico e a sua filha.

Hassan dizia aos colegas que temia pela sua vida e a da sua família, mas repeliu as sugestões de que se mudasse. "Para onde devemos ir?", questionou ele. "Existe algum lugar no qual estaríamos seguros?".

Ele deixava bem claro que o seu maior medo era do Exército Mahdi, e a sua mensagem enviada pelo telefone celular pouco antes de ser assassinado indicava que Hassan procurava uma rota para sair de Saidiya, de forma a evitar um posto policial de revista controlado por milicianos xiitas. Isso levou a família a concluir que membros do Exército Mahdi, reconhecendo o carro dele e sabendo que ele era sunita, podem ter alertado os milicianos xiitas armados que ficam à espreita ao longo da rota seguida pelo jornalista, a fim de que o seguissem e o executassem.

Mas na noite de sexta-feira, 12 horas após Hassan ter morrido, uma outra mensagem enviada por telefone celular fez com que amigos e parentes reavaliassem a sua conclusão inicial, e questionassem se ele não poderia ter sido vítima de extremistas sunitas. Um parente relatou ter recebido uma mensagem de texto aconselhando-o a deixar o emprego e "retornar para Deus" para não ter um destino similar ao de Hassan. A mensagem foi assinada por um grupo auto-denominado "Brigada dos Mujahedeen", uma organização até então desconhecida. Mujahedeen, que significa guerreiros santos, é um termo geralmente usado por extremistas sunitas.

Hassan insistiu em conversas recentes que ele, assim como outros iraquianos que trabalham para organizações de notícias ocidentais, havia tomado o cuidado de não deixar que os vizinhos soubessem onde trabalhava. O colega da sala de imprensa que deixou Saidiya no início da semana disse que Hassan tomou tanto cuidado para não revelar nada sobre si e a família - por exemplo, o fato de ser sunita, palestino e trabalhar como jornalista para norte-americanos - que não fez nenhuma amizade em Saidiya, e, recentemente, deixou de frequentar a mercearia que fica a 50 metros da sua casa.

Mas, qualquer que tenha sido o motivo dos assassinos, parece haver pouca dúvida de que eles sabiam muita coisa sobre Hassan antes de executá-lo. O policial que presenciou a execução, da fila do posto de gasolina, disse que os homens, após dispararem os tiros fatais, se debruçaram sobre o carro de Hassan e pegaram o seu telefone celular, no qual havia dezenas de números que ele usava no seu trabalho, bem como o seu fone de ouvido Bluetooth. Os assassinos também revistaram os bolsos de Hassan e levaram os seus documentos, disse o policial. Entre os documentos levados deveria estar a credencial militar dos Estados Unidos concedida a todos os jornalistas que entram em áreas controladas pelos norte-americanos, algo que Hassan fazia com freqüência.

* Ali Adeeb, Ahamd Fadam, Stephen Farrel, Wisam A. Habeeb e Alissa J. Rubin contribuíram para este artigo UOL

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